Publicado por: almofadas | Janeiro 21, 2012

porque não escrevo

Eu gasto o meu tempo de escrita em pensamento. Sento-me e oiço o vento, observo as estrelas. Perco-me nos sons das coisas que me rodeiam. E penso, penso intensamente em palavras que formam frases, converso e passeio. E quem me faz pensar senão os pensamentos que conheço. A graciosidade de viver e a demência que empapa a continuidade. Os pássaros, o cochichar ou o estalar das canas e os pinheiros a saudar a brisa. Sente-se tão facilmente a amplitude do que está além de mim, de olhos fechados, a ouvir os sons. Se sou tão insignificante e pequena o que importo eu, por que motivo quero viver e lutar pelos meus princípios. Que estranhas criaturas somos nós seres humanos, se para o equilíbrio do planeta o nosso desaparecimento seria indiferente, já para não falar do universo inteiro. Porque nos preocupamos tanto com  a nossa dignidade ou aparência, porque é que há tanta coisa que nos incomoda, que nos distrai ou nos atrai. A derradeira questão? Qual é o nosso propósito. Porque é que isso nos interessa se apesar de todos os esforços tentando controlar a nossa vida, confiando e desconfiando, apreciando e desapreciando, querendo. A vida leva a sua avante e no final o tivemos que fazer o tempo todo foi lidar com o que nos aparecia à frente no momento, que por vezes não era nada, outras era exactamente o que se queria, muitas vezes era demasiado, mas quando passava era tão pouco, tornava-se tão vão, se eu não o tornasse perene. É por isso que que escrevo, apesar de não escrever. Apesar de sentir que, o que escrevo não passa da “cepa torta”, e não tira conclusões. Penso logo existo, deveria chegar para mim mas quando mergulho na imensidão do espaço onde coexisto com outros seres pensantes sinto  a minha imagem a desaparecer, o meu pensamento a fundir-se. Como posso provar que ele é meu, talvez se percebesse algo que não entendo e sentisse que tenho a resposta que procuro.

Quem é a minha mãe? Criada pela minha avó Liuleka, criada pela minha bisavó Babanha oito irmãos, todos mais velhos que Liuleka.                                A Babanha reflectiu o pensamento dela na Liuleka, e ela reflectiu-o na minha mãe, que  o reflectiu em mim, e eu vejo isso. E o meu pai? Que eu perdi quando era pequena e reencontrei  mais tarde aos oito, e de quem conhecia nada, sem ser o facto de que era meu pai, e porquê? Porque vejo o reflexo dele em mim. E o meu irmão que teve a missão designada pela mãe, de me criar e proteger. Como é que possível eu ver em mim o reflexo das outras pessoas e não me ver a mim. Eu estou lá no meio das aldeias, a descobrir com o Anton e a Sasha, Alissa é o meu nome. Eu estou lá vestida de negro, de livro na mão a desfocar na visão as chamas das velas, o meu nome é Vassilissa, Alguém a conheceu. Como é que te chamas? – Alice. – Alice, a sério e como és Alice? Não sei, eu faço, sou como faço. Mas ninguém me vê da mesma maneira, o que importa como eu me vejo. Se cada um me faz olhar p’ra mim de forma diferente. Só tenho a respiração, só. essa é minha.

Eu estou aqui, mas é como se não estivesse. É como se estivesse para outro tempo, como se estivesse à espera ainda. Sinto que tenho raízes em todo lado mas que não tenho tronco. Receio que seja ilusão mas penso que ele existe algures e que já falta pouco para o encontrar.

Publicado por: almofadas | Setembro 11, 2011

o cheiro do tempo

Chegava-me o cheiro do Tempo outra vez

Das folhas da secas que estalavam debaixo do sapato, na calçada

Enquanto eu subia a mesma rua mas numa nova madrugada

Abria-se a porta e contemplava-se a escada.

Que entre sombras me entoava uma velha melodia

Cheirava-se café no ar

Sentia-se a vida a passar como a tempestade

Veloz, intensa, quase sem dar a opotunidade

De perceber a direcção do vento

Sem oferecer a possibilidade de parar

Ou refazer algum momento.

Viver era subir cada degrau daquela escada.

E contemplar a jovem luz,  pela janela do primeiro patamar

Os próximos talvez fossem altos demais, difíceis de alcançar

E no entanto quando dei por mim já estava no terceiro andar

Lá da janela via folhas a dançar e voar levadas na paixão do vento

E mais um dia veio, p’ra ficar um dia.

Um longo dia, um dia tão fugaz na cor dos outros dias.

Eis que o o peito explode de alegria.

Somam-se os anos de magia à brisa matinal

Tão confortavelmente fria

E o correr do tempo me parece simplesmente genial

Abrem-se as mãos pr’a receber

Que a vida passa a correr

Como quando eu corro atrasada p’ró trabalho

Rua abaixo, marcando ritmo, de sola rija na calçada

Há tanto por acontecer…

Eu não resisto à vontade de agarrar

A alma quer sentir, o corpo quer andar.

Ainda antes de adormecer.

 

 

 

 

 

 

Publicado por: almofadas | Setembro 1, 2011

Tinta sobre qualquer coisa

Ai, ia-me esquecendo, porque já estava de saída, mas tive que voltar atrás montes de vezes. À última entro já mesmo de sapatos. Bolás, nunca consigo ter tudo o que preciso à primeira. Os alicates, e os arames, as chaves, o isqueiro e o tabaco, o café, queria fazer café, tinha ma esquecido, já o devia ter posto a fazer. Está tudo: as tintas; um balde de água; o cavalete; a bancada arrumada; e uma trincha apenas; não tenho pano; não faz mal; encontro mais tintas; uma suprefície para se por no cavalete e que dê para pintar com tintas de água; um pedaço de cartão, o que se recortou para fazer a porta arredondada da casinha da Lula. Perfeito, está tudo. Azul, branco e preto, é um explosão. No meio não existia união, mas uma nebulina de todas as cores faz parecer que sim, se ondulam, ou se enrolam, do outro lado salpicam e escorrem, sobre um fundo mais preto, ondulam de branco sobre o azul sujo. Uma lua, lisa com uma pequena fenda, de lado. Agora laranja, amarelo e vermelho, uma tábua comprida. Entorno a tinta directamente sobre a madeira ainda suja, espalho com a trincha grossa. Amarelo; vermelho, mais amarelo, mais amarelo de um lado, mais amarelo do outro, parece um deserto, parece fogo imenso visto de longe pela janela do bunquer. Palavras a preto era para escorrerem sobre o fundo mas acabaram arranhadas com arame imerso em tinta preta. “e lá Falava-se mas com um gosto desigual num jeito como não se cala Vento feroz que sem feazer perder a voz arranha o peito ouvia-se singela voz perigosa fala”.

Publicado por: almofadas | Agosto 24, 2011

Foi porque me perdi

Queres saber o verdadeiro motivo?

Senti que me usaste

Como se fosse isco vivo

Para pescar momentos ideais

Queres saber a verdadeira razão?

Repreenção!

A luta pela perfeição.

Movida por impulsos tão leais

De aperfeiçoar em mim

Tudo aquilo que querias

Para que eu pensasse em primeiro lugar

Na forma como te sentias

E quando eu falhava tu repreendias

Para que eu nunca deixasse de acompanhar

Fazendo me acreditar

Que isso  era indispensável

P’ra esta caminhada ao teu lado

 

Fizeste-me sentir o único motor da tua vida

Marchei ao ritmo da tua batida

A tua opinião era incontestável

Quanto à minha

Foi vendida

Em troca de  tranquilidade

Posta de lado em tua função

E tanto vagueou

Que se perdeu, perdendo a razão

Pouco de mim ficou

O corpo que marchava ao teu lado

Já não era meu

Até que  minha alma se virou p’ra mim

e perguntou: “Entõ e eu?”

Não vou aprofundar.

Só sei que já não fui capaz de tolerar

E afastei-me na esperança de me encontrar

Ainda davam p’ra voar as asas que abri

 

Agora estou aqui

Mais uma vez ao pé de ti

Trouxe palávras duras para te contar

P’ra te pedir que não me tentes controlar

Não tenho punhos para derrubar

Os alicerces que já construí

Ainda acredito em ti

Quando me dizes:

“Já compreendi!”

Publicado por: almofadas | Agosto 23, 2011

porquê

Eu quis seber porquê

Mas ele não me respondeu

Virou as costas e fingiu que não me vê

Eu perguntei “como é que é?”

Ouviu-se-me “não há” no terminl da linha

Que eu não via

Mas na verdade ele não sabia

Publicado por: almofadas | Agosto 23, 2011

Na minha pele um grão de areia

Falava forte!

Em largos passos avançava

Cercava pelo Norte, de núvens o negro céu onde eu dançava

Na luz vermelha da cidade, poucas estrelas respiravam

Pousava sobre o fundo de um poço,

A folha antes seca, agora ensopada

Faltava-me o ar de madrugada

Choravam os meus olhos pelo mar

Perdia-se na solidão a minha mão

Que segurava algo meu que lhe faltava

A emoção de baloiçar como a folha seca

Nas poças pela estrada

Perdiam-se as lágrimas pelo suor da almofada

Jogava-se de certo pela minha vez outra jogada

E o olhar corria pálido pelos objectos

Em busca de afectos

Movia-se ainda o corpo (meu?)

Na direcção do dedo apontado

E o cabelo

Ao sabor do medo

Embaraçado cada sonho

Pela realidade deste pesadelo

Eesgotavam-se as horas na cúpula do tempo

Onde caía grão a grão o fio de areia

Eu segurava-me no ar à teia da aranha

Sem esforço vão, nem artimanha

O vento frio fazia-me dançar

Pulçava-me o coração em cada veia

A recordar a lua que me fez brilhar

Um pensamento preso no azul do mar

Parecia ser razão pra continuar

O fumo espalhava-se na alma barrado em unguento

Sarava parte deste sofrimento

Prendia-se na pele o tempo enfeitiçado na areia

Escondia-se em peito firme o lamento

Fechado a cadeado na dualidade da compreenção…

Mais uma casualidade

Que fez soar no túmulo o hino pela liberdade

E eu prendia-me ao chão

Só ele nunca me falhava

Talvéz chegasse mais depressa do que se esperava

A hora de se abrir o coração

Mas por enquanto o meu peito respirava oco

Um ar repleto de poeira levantada

Num remoinho louco

D’eléctricos impulços do meu pensamento

Partículas de lixo tóxico pulverizadas de cimento

E misturadas na gravilha do betão

De que se construiu o fundamento

Se tudo fosse resunido à simplicidade entre sim e não

E se editassem dicionários, sem mas, talvez, e sem senão

Se a vida me guisse pela mão

Por linhas resctas, paralelas, sem diagonais

Eu saberia a resposta à pergunta “Então?”

Agora “Pés no chão!!!”

Falava-se tão alto que se berrava

Mas a verdade enganava a razão

E cada linha recta cruzava-se com linhas de uma multidão

Mas nunca se chegava a abrir o coração

Mais uma vez perdiam-se s lágrimas pelo suor da almofada

Até a noite se escrever na história

Como noite passada

Trazendo à memória, a existência de uma estrada

E o desconhecido a chamar

E eu que queria simplesmente descançar

Só que o tempo não parava

Chegava o Agosto nublado e chuvoso

Tão caloroso como a minha alma

Pois não te atrevas a pedir que me mantenha calma

Não foi assim que eu te conheci

Nem foi a chuva, ou o nevoeiro que me fizeram ver a luz em ti

Eu tenho a impressão que esse não és tu

Vi-te chegar, mas a chegada não devia ser assim

O mar que invadia a areia do dia que chegou ao fim

Agosto que sonhei de tronco nu, era so um

Fugiu-me do olhar, já não te encaro

Todos me prometeram sol

Eis a razão do desamparo

Publicado por: almofadas | Agosto 16, 2011

horas e horas

O tempo urge, e as palavras apressam-se na direcção do mar

Arrastam-se falésias no coração, e no impacto dos ventos e das vagas da paixão

Soltam-se rochas para o borbulhar da espuma, mergulham na escuridão profunda

Do desacreditar na busca pelo significado da palavra.

Tal como eu, horas e horas a fazer de parva.

Publicado por: almofadas | Agosto 8, 2011

“Primavera”

Rua, caras, caras, não se consegue dormir

Adormeço não consigo controlar-me,

Acendo, obecervo-me lá do outro lado

As feridas não sararam. Andaram às voltas

Um suspiro, renasceram novamente as sombras

Estiveram, amaram, esqueceram, deixaram lá.

.

Eu não vou voltar, e mais uma vez não havera primavera

Eu vou me erguer, eu já não tenho medo da altura

Eu não quero que tu, eu não quero que eu

Por horas, palavras , balanças, – pesassemos um ao outro

.

A noite pisa os calcanhares

Os sons jogam às escondidas

Escondem-se, doces subornos

Não dá para alcançar

Não dá para lá chegar

Pode-se rir, não aterrar

É dificil de perceber

Fácil de adivinhar

.

Não não se consegue roubar aquilo, para que houvesse novamente

Apanhar, não esperar pela hora

Pode-se queimar, não ter tempo, não terminar a canção, não apanhar

Não reconhecer, perder-se

Pode-se rir, não aterrar

É difícil de perceber,

Fácil de adivinhar.

.

Eu não vou voltar e mais uma vez não haverá primavera

Eu vou me erguer, eu já não tenho medo da altura

Eu quero tanto que tu, eu quero tanto que eu

Com poemas, circulos, com as mãos nos cobrissemos

.

Para as respostas eu tenho perguntas

Cigarros , inqueritos

Pergunta-me “Onde estás?”

Em parte alguma, eu vou para lado nenhum

Vai acabar de arder pavío

A verdade, água seca, uma nota interminável

Pergunta-me “Quem és?”

- Quem  és?

Ninguém, mas estou aqui para sempre.

.

Eu vou voltar, e vai chegar novamente a primavera

Quando eu acordar, Vou perceber que não dormiste

Eu quero tanto que tu, eu quero tanto que eu

Respirassemos o mesmo silêncio e não vissemos o dia

5′nizza

Publicado por: almofadas | Maio 30, 2011

Por vezes sem conta

Não era nada sobre o quadrado amarelo, ou cubo, ou lá o que era. Não era nada disso que eu queria contar. Era ele ali  trabalhar, naquela sala, de volta daquela nave espacial. Mas não era nave nenhuma, era apenas um servidor. Ele nunca me escondeu isso. eu é que tinha imaginado. que era uma nave. Quanto ao servidor, ele sabia apenas sobre o seu funcionamento. Quanto à informação que nele estava contida alimentada por todos os computadores daquela instituição que se dedica somente ao estudo, compreenção e consequentemente à manipulação daquelas mentes infantis. Ele nunca me disse que eu estava apenas deitada sopbre uma cama numa sala iluminada, com ventosas ligadas ao meu corpo, a aparelhos ligados ao computador, ligado ao servidor. À nave espacial que apenas ele sabia conduzir. Bolas! Não era nave espacial nenhuma, e a minha presença ali era impossível. Pois eu estva apenas deitada, apenas imóvel, como um livro aberto no púpito. Blá, blá, blá. Apenas nada acontecia. Eu tinha que partir. Estava à minha espera a paragem do autocarro num arua movimentada da cidade. Junto ao jardim, na estrada enfeitada de semaforos e passadeiras. E eu ali sentada em frente à janela num sofa velho. A lúa estúpida e redonda lá fora  a olhar para mim.

Eu levantei-me e  cheguei a ele tentando olhá-lo nos olhos. “Eu vou-me embora soava-me na mente. Eu respirava lentamente segurando a ansiedade.  Depois simplesmente parti sem lhe dizer mais nada. Já não me interessavam os repetidos episódios e tentativas de fuga. Ele dizia que era impossível eu partir, pois eu nem sequer estava ali com ele na sala do servidor. Ele dizia-me que a minha presença com ele era apenas fruto da sua própria imaginção. E eu sabia. Eu lembrava-me daquela noite em que nos arrastavam catalogando como provas as nove caixas de madeira, tiradas do sótão do chalet abandonado. Eu lembrava-me da sala de triagem confusa e escura, depois a luz nos olhos, as ventosas no peito e beliscando as fontes. Carrinhos com máquinas quadradas, mesas e prateleiras, elevadores, marquesas, diferentes ondas cerebrais. Era na presença dele que me sentia desde então. Qual seria a informação que continha aquela máquina gigante nesta sala alta sobre o telhado suportado por vigas de madeira grossas. Ele não tinha respostas para mim. Isso era absurdo, porque era ele que recebia a informação, era ele que a copiava e catalogava. Era ele que inseria os códigos para que os dados se agrupassem em tabelas e criassem gráficos para que outras pessoas os pudessem analizar. A consciência estava ali em frente a cada um dos ecrâns dos compudadores espalhados pelos departamentos de estudo. A análise e a compreenção. Na sala de reuniões, nos corredores e nos elevadores. Eu queria sair pela janela e evitar aquilo tudo. Afinal de contas se era apenas para eles saberm, de que me servia isso tudo. A minha grande oportunidade de contribuir para o aumento da sua consciência sendo um notável objecto de estúdo. Era mais o que faltava. A minha partida não era uma decisão nem uma escolha, era a única possíbilidade

Publicado por: almofadas | Maio 27, 2011

amarelo ao cubo

Eu estva numa sala amarela. Era uma sala quadrada mas não tinha portas nem janelas, nem contornos das paredes, nem cantos desenhados pela sombra. O amarelo era apenas a cor da sala não era  a sua luz. Eu estava no centro da sala mas não estava no chão nem no ar. Era um estado de consciência diferente em que o interior se apercebia do exterior apenas atravêz da cor e da forma circundante de um cubo do qual, apesar de não serem visíveis, se percebiam os limites. No interior porem não hava mais nada do que a percepção do exterior e a existência de um certo eu, naquele espaço. Não existia mais nada para além do espaço e para além de mim existia apenas o espaço. Eu era o único ponto de união entre esses espaços, era eu existente num ponto, em toda a sala amarela. Existia ainda o facto de eu ter um pensamento que me permitia apreender o que me envolvia, e uma consciência de que eu exista ali.

Não é que eu soubesse que ele era um cubo, mas apercebia-me de que o espaço tinha aquela forma. Não é que eu soubesse o seu tamanho ou tivesse a mínima noção de tamanho. Não é que eu conhecesse a definição de espaço ou ponto. Não é que soubesse que existia um eu. Era algo que acontecia somente no momento em que acontecia. A minha existência no espaço amarelo não se baseava nem no início, nem na continuidade. Não se colocavam as perguntas como, porquê, quando ou onde. Era mais do que um vazío e quase uma inesisência. Nada disto estava certo nem errado.  Existir era mesmo muito simples não fosse essa existência limitar-se a apenas a um dos planos possíveis. Entre mim, e o quarto amarelo, existia o quarto amarelo comigo. Se a sua existênca fosse longa, ao ponto de se aperceber que ela era longa, acabar-se ia por questionar a causa de tal evento, o mesmo aconteceria se ela deixasse de existir. Será que eu continuaria a ter consciênca de mim noutro local ou desapareceria também.

Isto durava pouco tempo, rápidamente eu voltava à terra, porque apesar de haver um total nexo no meu raciocínio, ele já mais poderia existir dito por palávras. Porque ele não conhecia as palávras. No entanto, algumas imagens criadas pelas palávras eram capazes de o descrever permitindo a outra pessoa imaginá-las encontrando dentro de si algo básico ao ponto de se identificar com elas. De qualquer forma isso não a levaria a nada. A minha cabeça saltava entre esses três pontos e o resto parecia uma amnésia brutal, Não pelo facto de não existir mais nada, mas pelo facto de ser impossível de pensar em tudo isso. Era um ponto longe de tudo que não interesava a mais ninguém a não ser a mim mesma, e falar sobre ele não faza obvamente nenhum sentido.

Publicado por: almofadas | Maio 25, 2011

And what is life – derssing up and getting naked al the time

Publicado por: almofadas | Maio 23, 2011

O Furacão Baralhado

Não sei se era já  noite cerrada

Ou se ainda era madrugada

Havia na floresta uma bruxa,

E na clareira havia uma fada

A bruxa tinha um gato assanhado

A fada tinha um cão fiel bem comportado

A bruxa estava sempre a resmungar

“Ó gato chato! Comeste o atacador do meu sapato!”

O gato respondia desviando o olhar

“Miau, miau! Foi a brincar!”

A fada começava o dia a cantar

“Meu querido cão, vamos dançar!”

O cão saltava de alegria de contente

“Ruaf, ruaf, Vamos brincar!

A fada caminhava levemente

A bruxa não para de ralhar

O cão deitava-se tranquilamente

O gato não parava de correr e de saltar

E já não sei se era Inverno ou Verão

A fada descançava na esplanada

A bruxa estava atarefada em redor do caldeirão

Quando surgiu o furacão

Fazendo andar à roda a bruxa e a fada

E em cículos o gato e o cão

Enfim…

Foi uma grande confusão

Trocaram de lugar a bruxa e a fada

O gato e o cão

Pelo caminho tinha ficado tudo baralhado

A fada resmungava na floresta

“Tareco vem aqui”

E o cão miava.

A Bruxa na clareira dançava encantada

“Anda Brincar Bobi”

O gato dava a pata e ladrava.

Mas ninguém sabe o que aconteceu depois

Portanto, a história chegou ao fim.

Publicado por: almofadas | Abril 20, 2011

Passavam Dias e mais Salmos

Segundo me ensinaram os livros, o grande problema do ser humano era o corpo. A preguiça e a gula eram grandes inimigos da sua alma. Enfim qualquer coisa que proporcionasse prazer físico, deveria ser renegado por uma freira. Portanto eu não podia andar por aí a lamentar-me se me doiam os ombros ou a cabeça. Se o sono durante as orações me fazia desfalecer, se as pernas não tinham força pra continuar de pé até ao final da missa. Qual seria o meu limite físico? Sempre que eu sentia que não estava a aguentar, fazia um esforço e conseguia aguentar o suficiente. Continuava a acordar de manhã às 4:15, a cumprir a regra, a ouvir atentamente as missas,  não faltar a nenhuma das minhas obediências dentro do convento. Estava a chegar o Verão e era altura de cuidar dos canteiros e dos jardins. A minha vida não se podia limitar ao interior da casa, os longos passeios pela heradade, quando muito frequentes tornavam-se aborrecidos e era necessário utilizar com utilidade o meu tempo ao ar livre.
     A Youlia Nikolaevna mostrava-me o pomar atrás da igreja. Havia muitas maceeiras onde eu andei a correr embriegada de espumante imaginando que eram elas que corriam para mim. Havia ameixas que ainda não tinham dado fruto porque as árvores eram todas fêmeas e não tinham macho. Ela enxertou numa delas um ramo de um macho, que tinha encontrado algures noutra parte, e estava à espera que este ano nascessem frutos. Ao fundo havia uma estufa abandonada, construída em tijolo vermelho e branco, como a casa, e tinha as mesmas janelas em arco perfeito mas corridas até uma altura de primeiro andar. No topo da estufa havia um terraço para onde levava uma escadaria do lado direito da entrada. A escadaria ia encostada ao muro que delimita a propriedade. Atrás da estufa, uma arrecadação e capoeiras desabitadas. Em frente às capoeiras crescia uma grande cerejeira e entre as últimas filas de maceeiras, onde o tereno já não era inclinado, havia duas fileiras de framboesas. Passaram a ser as minhas framboesas. O Atelier da Raissa Petrovna começava a seguir ao almoço. Como a Lera e a Marussia vinham passar o Verão todo no convento eu estava temporáriamente dispensada das tarefas do refeitório. A Madre abensoou-me para ajudar a Youlia Nikolaevna no jardim e eu passava as manhãs intretida a ajudar-lhe. As framboesas cresciam em duas fileiras de 4 metros eram suportadas por arames atados a postes nas extremidades de cada fileira. O solo estava coberto de ervas daninhas e entre os ramos onde começavam a crescer folhas verdes havia muitos ramos secos que precisavam de ser cortados. Comecei por aí, depois passei para as ervas daninhas. Eu sempre gostei da trabalhar com a terra. Ajuadava  a Liuleka na horta e no jardm. Plantavamos batatas. A minha mãe abria as covas com a pá a minha avó colocava a batata já cortada e seca, eu punha uma pázinha de cinza sobre a batata e o meu irmão cobria a cova com a enxada. A terra era negra e fofa, cheirava bem. Do outro lado do terreno que se estendia até ao rio a minha avó plntava melâncias e melões. Era tão bom comê-los no verão. Ela sempre me disse que eu tinha jeito para apanhar tomates, eu arrancava-os com muito cudado, e apenas aqueles que se queriam soltar. No Outono iamos apanhar bagos para a floresta. Apanhávamos groselha, framboesa, e morangos silvestres. Depois a Liuleka fazia compotas.
Esta framboesa era Nobre, ela dava fruto duas vezes por ano e em Julho já se ia poder colher os primeiros bagos. Mas era preciso agir rápido, cortar os ramos secos, adubar as raízes. Mãos à obra Vassilissa! Eu tatava das minhas framboesas com muita dedicação e os dias iam passando. Eu não tinha saudades de casa, e a minha mãe não me chateava agora com telefonemas. As obediências ocupavam o meu tempo, e eu não tinha desculpa nenhuma para ficar sem fazer nada, nem queria. Eu queria esforçar-me muito para me sentir satisfeita comigo mesma. Apróximava-se o meu aniversário e eu tinha muit esperança de me tornar mais adulta. Afinal eu ia fazer 16 anos e já me sentia empenhada e responsável. Eu já me tinha habituado à rotina e cumpria-a com toda a fidelidade que me era possível, não faltava às missas. Eu cantava no coro, mas o coro completo apenas se juntava nas missas festivas ou dominicais, nos outros dias a Madre Evrosínia agendava o meu nome juntamente com a Lilia, em alguns dos dias o coro era gerido pela Irmã Katia, (Madre Anbrósia mais tarde). O coro era composto por 3 vozes A Irmã Katia cantava em Barítono, e era a única portanto tinha a obediência de participar em todas as missas. Ela era a terceita Vóz. O Tenor era cantado pela Irmã Natalia e Pela Irmã Anna e o Soprano Pela Madre Evrosínia, pela Irmã Natasha e pela Irmã Eulalia. A Irmã Natasha cantava com a Irmã Katia e com a Irmã Anna e a Irmã Natalia como Tenor. A Madre Evrosinia cantava com  a Irmã Eulália no soprano, com a Irmã Natalia na segunda vóz e a Irmã Katia. A Irmã Anna raramente cantva sozinha. A Irmã Anna Tinha várias limitações, por diferentes razões de saúde. Tinham-lhe sido removidos grande parte dos múculos do peito, devido a um câncro da mama. Ela também não trabalhava na cozinha, porque tinha perdido o olfacto num  acidente de viação e tinha muita dificuldade de distinguir os sabores das coisas. Eu sentia-me feliz por cantar no coro, aliás esses eram os momentos altos do meu dia, da minha semana.
Cantar um simples “Senhor Tem Piedade” que era repetido centenas de vezes, durante as missas monotonas da tarde dava-me uma alegria tremenda eu ansiava esperando por aqueles cânticos maravilhosos que se cantavam no final da missa em que a minha alma saia do meu peito com as palavras cantadas na minha vóz. Acompanhar o ícone da Nossa Senhora de Lesna com o carinhoso Ave Maria em procissão até à ireja de Inverno. Eu habituei-me a seguir as missas pelos livros e a perceber como elas eram compostas. Era fácil fazê-lo no púpito do coro. Apenas os cânticos mais importantes eram cantados pelas pautas. A maior parte dos cânticos eram cantados apenas pelos livros nas respectivas Vozes do Ochtoecos. As Melodias/Vozes das orações cantadas do Minaieon eram adaptados de acordo com a celebração, sendo a primeira Vóz a mais festiva e a Oitava a mais trste. No dia da memória de um mártire cantar-se-ia a missa do santo,  na Oitava ou na Sétima Vóz, mas a Sétima raramente era utilizada. A melodia da Sexta Vóz era uma das minhas preferidas e era a utilizada nas missas fúnebres. A Terceira, na minha opinião, era particularmente alegre, e a mais bonita das Vozes alegres Era a mais utilizada nas festas na Nossa senhora. Os Dias de Jesus cantavam-se quase sempre na Primeira Vóz a não ser que se tratasse do seu martírio que se cantava em Oitava ou em Sexta. As missas dedicadas a São João Baptista cantavam-se em Segunda Vóz com excepção do dia em que foi degolado que se cantava em Sétima. A maior parte das missas dos santos cantavam-se em Quarta, ou em Quinta. E por aí em diante, cada monge que dedicou os seus dias a compor as missas contidas nauqeles livros, dedicou a cada mssa o seu cântico, a sua Vóz, a sua melodia. As melodias foram adaptadas às palavras, e as palavras às melodias escritas em pautas e foram ensinados a todos os coros de todas as igrejas espalhadas pelo mundo. Elas variavam um pouco de região para região; e consoante a composição do coro, masculino, misto, ou feminino. Eram, no entanto muito parecidas à uma melodia original para cada uma das Vozes da Igreja Eslava. No púpito do coro eu tinha todos os livros à minha disposição. Havia o Livro da Hora,s o Ochoecos, e a Minaieon, o Livro dos Salmos eu tinha adquirido na Livraria do convento ainda numa das minhas anteriores visitas. A leitura sos salmos era a leitura mais prolongada de toda a missa, e era impossível manter a concentração sem seguir a leitura. Eu trazia comigo o Livro dos para todas as missas, mesmo às que assistia sem cantar no coro. Seguia atentamente a leitura pelo meu livrinho, tentando compreender e interiorizar as palavras. Alguém me tinha dito que uma freira deve saber o Livro dos Salmos decor, portnto, eu tinha intenção de o decorar.
Publicado por: almofadas | Abril 11, 2011

Havia falta, ou excesso de tempo?

Não era fácil gerir o trabalho e o descanço. Perceber quando é que já seria hora de descançar, e quando ainda deveria continuar a esforçar o corpo ou a mente. O curso por correspondência que me adquiriram era puxado, eu tinha sete livros grossos tamanho A4 para estudar e quarenta e nove exames para fazer. A materia era toda escrita em francês e para compreender eu utilizava o dicionário.  Ao princípio limitei-me a estudar as diversas disciplinas e a tentar-me lembrar da matéria que já tinha dado na escola. Seja quem for que elaborou aquele curso, era um sacana bem esperto. Todos aqueles livros não continham definições, quando me agarrei às perguntas dos exames percebi que para responder às questões não bastava ir ao livro e copiar a resposta, ela não estava lá, não por palavras directas. Era preciso compreender muito bem a explicação que era dada no livro, para elaborar uma pergunta com o significado daquela explicação. Muito bem elaborado para um curso por correspondência. Há pessoas inteligentes a pensar nas coisas que me aparecem à frente.

No entanto, a vida era bastante fácil, não havia demasiada coisa para gerir. Os horários de todos os acontecimentos estavam estipulados e tu só tinhas que cumprir a tua parte. era como se fosse preciso saber contar até 20, e bastasse apenas, juntar números inferiores a cinco para obter o resultado. A Youlia Nikolaevna explicava isso muito bem numa conversa sobre a Irmã Catarina que sofria de paralizia cerebral e por isso tinha certas limitações nomeadamente na matemática.

- A Irmã Catarina, – dizia ela – só consegue contar até cinco. A mente dela não se mantem concentrada para alcançar mais números. Como ela gosta de fazer tricôt, nunca precisa de contar mais de cinco pontos, ela tem alternar entre três, dois ou quatro para desenhar os padrões na lã que vão formar os relevos nas camisolas.

E estão explorados todos os números até cinco, – penso eu, – pois se o 1 é o primeiro o cinco o último são eles que delimitam a fronteira o seu universo matemático, simplificando-o bastante porventura, apesar de mesmo assim não o tornar finito.

- No outro dia ela veio ter comigo porque precisava de flores para as campas do cemitério. – Continua a Yulia Nikolaevna. – Ela Iamagina as flores e diz:

- Três, três e quatro,  para a campinha da Madre X, cinco, cinco e três para a da Madre Z. – Aqui faz uma pausa mas depois prossegue. – Depois preciso de quatro quatro e dois para a campinha da Madre Y, e três e  três, e quatro para a campinha da Madre J.

A Yulia Nikolaevna contava este episódio, tentando-me fazer entender como era esperta a Irmã Catarina. Eu penso que ela se referia à maneira elaborada de lhe estorquir um grande número de flores sem pedir grandes quantidades. Mas eu acho que a esperteza dela não ia por aí. Ela conseguia era aplicar os seus valores em padrões ccertos que ela podia visualizar, algo que lhe permitia entendê-los. Ela via tudo de uma forma simples, em baixos relevos e na forma como ela geria esse mundo ela era verdadeiramente inteligente.

Para além das obediências relativas à rotina conventual, o curso  de francês era a obediência mais complicada e deveria ser geridoa somente pela força de vontade. Depois de sair do atelier da Raissa Petrovna eu deveria ir estudar, essa era a minha obediência principal, e em obrigação a isso eu deveria fazê-lo sem me desleixar. Era muito difícil chegar à minha cela depois de arrumar o refeitório e pôr-me a estudar agarrada aos ivros e ao dicionário. Vinha-me o sono, vinham-me as paragens cerebrais contínuas e eu ficava parada a baloiçar na cadeira a olhar para a parede, a olhar para a janela a ouvir os sons, a coçar a cabeça a riscar o caderno e a mesa. E depois vinha-me o desespero  de não conseguir ter força para estudar aquilo, depois vinha-me o sentimento de culpa por ter desperdiçado tanto tempo sem fazer nada. Eu recomeçava com a oração do senhor e depois pegava nos livros, olhava para o texto e lembrava-me que ainda tinha a minha regra por cumprir. Colocava-me de pé no centro da cela a fazer cruzes e vénias na direção da lamparina acesa e dos ícones. Estar a rezar afinal podia ser desculpa para interromper os estudos. Em seguida deitava-me e fechava os olhos por instantes. Voltava a levantar-em, era preciso retomar o estudo. Voltava a traduzir texto e  ler as perguntas ds fichas. Depois tocava o sino da missa e eu seguia silênciosamente contanto o terço, de cabeça baxa.

Este esforço de concentração interior  que eu fazia para estudar, para orar e para lêr e compreender a literatura relígiosa dispertava em mim, cada vez mais, o gosto pelas outras tarefas que me eram atribuídas pelo convento. O termpo que eu passava a limpar a lavar a varrer e a arrumar dava-me tempo para reflectir tranquilamente sobre o que eu estava a fazer em contraposição com a minha alma e com o que eu sentia em relação a mim, em relação ao meu envolvente e em relação ao todo. Eu varria o lixo do chão como se varresse os maus sentimentos que me enxiam o peito deixando o chão limpo e agradável ao meu olhar. Eu arrumava nos armários as conversas com as irmãs, e as hstórias ouvidas e lavava com água as brigas. Inspirava o vapor do conhecimento largado nas páginas de livros e fazia brilhar superfície esmaltada das taças, eu colocava água limpa nos jarros. No entanto a minha relação com as pessoas não era tão fácil, eu não as suportava, simplesmente não suportava a sua presença, nem o que elas diziam, fosse o que fosse que elas diziam. eram muito poucas as pessoas que eu conseguia entender e com que conseguia estar ou falar. Eu seguia obedientemente as indicações da Madre Evfrosínia e Gostava da simpatia da Madre Alexandra. A Youlia Nikolaevna era muito faladora e era fácil falar com ela, mas ela,  tal como a Rissa Petrovna não pretenciam aos quadros do convento e tinham uma postura diferente. A Youlia Nikolaevna era uma mulher pequenina e confiante, ela falava como quem plantava flores acreditando que aquilo que ela estava a plantar iria crescer e florir, ela achava que qualquer solo era bom para ela cultivar, pois o que ela cultivava eram apenas plantas e havia plantas capazes de crescer em qualquer território. A Lilia tinha-se afastado de mim e agora dava-se muito com a Marussia nas suas visitas ao convento. Eu não conseguia estar com elas, ficavamos juntas a tomar o chá às quatro da tarde, que era servido aos peregrinos e onde nós tinhamos a benção de participar. Conviver com os peregrinos era habitual entre as irmãs e cada uma convivia e conversava com quem queria. Conversava-se abertamente, não havia nada a esconder. As conversas confidenciais passar-se iam à porta fechada, e à porta fechada eu arranjava as minhas. Retomava a minha relação com a Lera que passava o seu tempo na oficina do Vanha. Tocava guitarra durante horas sem ninguém-me incomodar ou entretinha-me a experimentar cores sobre uma tábua com grandes pinceladas a óleo.

Devia ser uma época festiva, certamente a Santa Trindade a Lera e Masha tinham voltado. Depois desta experiência de vida na rotina conventual eu não sabia como me relacionar com elas. Isso  gerou um conflito em que para elas a minha portura era superior. Enquanto elas queriam andar na brincadeira eu estava ocupada e tinha coisas para fazer, não tinha paciência para as suas piadas e para as suas conversas. Eu sentia-me cansada, eu tinha que estar consentrada. Eu sentia-me vulneravel junto a elas e rebaixada nas suas palavras eu saía a correr para evitar os seus olhares  e para não chorar à sua frente corria para o meu quarto escada acima e esocndia-me no armário, ou então perdia-me nos bosques do convento. A Liberdade dentro do limite da propriedade era total com excepção da utilização do barco ou da realização de qualquer tarefa. Podia-se andar de baloiço e passear em torno do realvado. Podia-se ver as folhas  a cair no lago e ouvir os pássaros, podia-se esperar em cima de uma árvore no meio do pântano que aparecesse algum cerne ou um javali. Podia-se caminhar entre as árvores e ver os frutos a crescerem no pinhal. Podia-se Lavar a roupa na lavandaria evisitar a biblioteca, se a Madre Alexandra não estivesse a descançar. Era preciso cumrir as obediências e estar à hora certa na missa e nas orações. O resto do tempo era nosso, ou seja meu. O problema é que eu não sabia o limite entre a obediência a que me obrigava o Curso e o meu tempo. Eu cansava-me a estudar e não via resultados. Eu cansava-me a orar e não via resultados porque continuava  cansar-me de chorar no tempo que me sobrava.

Publicado por: almofadas | Fevereiro 28, 2011

embaciado in a washed window

Publicado por: almofadas | Fevereiro 28, 2011

the photographer

Publicado por: almofadas | Fevereiro 28, 2011

descalços por esses caminhos

Publicado por: almofadas | Fevereiro 27, 2011

“Soldado”

Eu sou um soldado, não dormi durante cinco anos e tenho os olhos inchados. Eu próprio nunca vi, mas foi o que me disseram. Sou um soldado e não tenho cabeça, eles arrancaram-na com as suas botas. O Comando grita! Está rasgada a boca do comandante, por causa da granada. O algodão branco, algodão vermelho, não cura o soldado. Sou um soldado, uma criança permatura da guerra. Sou um soldado – Mãe cura-me as minhas feridas. Sou um soldado, um soldado de uma terra que Deus esqueceu. Sou um herói! – Digam-me de que romance.

Sou um Soldado. E é chato quando me resta apenas uma bala, apenas ela ou eu. A última carruagem, água-ardente, somos aos mihões. Sou um soldado que sabia o seu trabalho – o meu trabalho é disparar de forma a que a bala acerte no corpo do inimigo. Esta é para ti Mãe-guerra, agora estás satisfeita! Sou um soldado, uma criança permatura da guerra. Sou um soldado – Mãe cura-me as minhas feridas. Sou um soldado, um soldado de uma terra que Deus esqueceu. Sou um herói! – Digam-me de que romance.

5′nizza

Publicado por: almofadas | Fevereiro 9, 2011

“Mulher a Dias”

A mulher-a-dias
faz dias que não vem.
Perdeu a conta às horas
e meses que um dia tem.

O tempo que passou
passou a ferro.
A roupa que lavou
tingiu de negro.

Viu o dia perecer,
a dançar no vendaval,
como um pano amarrotado
que se esquece no estendal.

 

Linda Martini

 

(Mostra-me que há por aí mais gente a ver o mundo como eu.)

 

Publicado por: almofadas | Fevereiro 9, 2011

“Apesar de Você”

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal

Chico Buarque 1970

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