As terrinas de sopa distribuídas sobre as mesas libertavam um doce vapor que enchia de cheiros a grande sala de madeira. Um ícone da nossa senhora iluminado por uma lamparina suspensa num nicho da parede era agora o centro das atenções. As irmãs e os peregrinos enchiam a sala chegando em silêncio, olhar calado, braços caídos. Descia pela escadaria a madre superior e chegando ao seu lugar à mesa acenava àquela que junto à janela já relía os feitos dos que marcam a memória deste dia, os santos segundo os livros. Iniciava então a oração “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade…” O padre abençoava a comida, ou a madre e todos se sentavam. Comia-se em silêncio ouvindo histórias de cristãos torturados nas arenas romanas, e de ermitas que se isolavam em montanhas e desertos, sobre prostitutas redimidas e monges antigos capazes de fazer milagres. Na cozinha enchia-se o carrinho de taças com o segundo prato, pois sim segundo prato, e que pratos se faziam naquela cozinha maravilhosa sob a direcção da Madre Evfrosínia, mas a minha cozinha é algo para contar a seguir.
Perco-me em descrições a recordar esse lugar e essa vivência que ainda agora se vive da mesma maneira, os mesmos sinos soam nos mesmos corredores, as mesmas vozes cantam, a mesma hora, a mesma tarde, a mesma missa, a mesma refeição, a mesma oração, que se repete dia para dia. Aquela solidão, aquele tédio, aquele “ne savoir pas qui faire” intenso, aquela luta para continuar a ler quando as pálpebras se fecham de sono e a regra, abençoada regra. Havia uma luta bem maior. A azafama matinal era apenas o descanso. Do suave andar sobre a sombra das árvores no imenso jardim, havia uma sombra bem maior no silêncio daquelas paredes. Desse silêncio se tecia a teia da minha alma, que eu tanto, tanto queria explorar, queria domar.
Jovem e sonhadora pisava eu aquele chão, pela primeira vez. Eu quero isto! Ser como os cristãos dos primeiros tempos dispostos a sacrificar o seu corpo, ser a prostituta redimida que deixa para trás a sua vivência hostil, Ser os ermitas que se escondem em grutas evitando as vaidades do mundo, eu queria ser o monge capaz de realizar milagres divinos, sim, queria ser santa. Desde pequena que o desejo de ser a madre superior me fascinava por uma simples razão: Na Igreja ortodoxa o altar é separado do resto da igreja por um iconóstase, e é interdito às mulheres, apenas a madre superior tem a permissão de lá entrar, e a freira que trata da limpeza da igreja mas isso, eu nunca ambicionei. Quando a minha mãe me baptizou na igreja ortodoxa eu tinha seis anos, e o meu irmão sete. Fomos baptizados ao final do dia, depois da missa da tarde. Ficamos à espera que o padre acabasse a missa para poder proceder ao batismo de três criaturas. A minha mãe explicou-nos que agora havia um deus todo o poderoso, portanto não podíamos praticar o mal, mentir nem desobedecer, deveríamos ir à igreja e aprender a rezar. Explicou-nos isto à porta da igreja enquanto nós tentávamos desenterrar uma campa com paus partidos de um arbusto à procura de ossos humanos. Vivíamos histórias de piratas de ilhas longínquas num mar de mistérios por desvendar. Durante o baptismo lembro-me de que a igreja estava cheia de luz, estava escuro, conta a minha mãe, era praticamente de noite e apenas as velas iluminavam os rostos austeros dos santos nos ícones escritos sobre madeira seca. Depois de nos molharem com a água fria da taça baptismal, o meu irmão foi levado ao colo do padre para dentro do altar, mim deixaram-me apenas beijar o portão dourado, como brilhava aquele portão dourado.
Depois do almoço os corredores e caminhos do conventos enchiam-se de silêncio e de ausência. As irmãs passavam pela cozinha, agradeciam à cozinheira caso o almoço tivesse sido do seu agrado, algumas levavam num pratinho guloseima para logo. Cada pessoa decidia de acordo com as leis pelas quais se regia a sua consciência o que fazia nestas horas que separavam o almoço da missa. A Madre Vassilissa, não passava pelo quarto, vestia logo o seu avental de trabalho e seguia para a Horta; a Madre Evfrosínia subia duas voltas da escada de caracol para se refugiar no seu cantinho, sobre a copa da cozinha, onde por entre pilhas de livros e papelada espreitava um écran de um 3.86, onde sobre a mesinha do telefone se erguia como uma estátua, a garrafa de Coca-cola. Nós acabávamos de recolher as mesas, lavar a loiça, limpar cuidadosamente os talheres, punhamos a mesa para o jantar, havia chávenas de chá para o jantar, cada um gostava da sua, nós sabíamos. Cuidado com a colher da Irmã Catarina, não lhe ponhas uma colher pequena senão haverá zaragata. Depois de terminada esta obediência, subíamos para o quarto. O meu era no sótão, no ano anterior à minha chegada o sótão foi remodelado para criar quartos para as irmãs mais novas. O meu quarto era o último, no fundo do corredor, era o quarto mais distante da cozinha, e da caldeira de aquecimento. A caldeira de aquecimento residia na cave, havemos de ir lá ainda. As janelas eram clarabóias recortadas no telhado de chisto, da minha podia-se ver duas chaminés em tijolo e entre elas o lago, o bosque, a casinha da Yulia Nikolaevna e a horta da Madre Vassilissa.
Havia então a regra, a regra era uma coisa simples. Um conjunto de orações abençoado pela Madre Superior (mais uma obediência) e variava de irmã para irmã apenas na quantidade. A minha tinha cem orações do senhor “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador”, cinquenta dessas orações eram feitas com uma vénia simples (após o sinal da cruz no corpo que se fazia enquanto se dizia a oração inclinava o corpo até tocar com a mão no chão) as outras cinquenta eram feitas com uma vénia completa (sinal da cruz, joelhos no chão seguindo se das mãos e da testa). Esta brincadeira podia ser feita em quinze minutos, mas era preciso sentir cada palavra, era preciso intencionar cada vénia, era preciso estar naquilo de corpo e alma e entender cada palavra. Para além da oração senhor havia 25 Avé Marias e 25 Pai Nossos. Não era apenas proferir aquelas palavras tão bem decoradas ainda em criança, era necessário sentí-las, entendê-las.
Soava o sino da missa. Tocava-se primeiro o sino da cozinha e em seguida o sino da igreja grande. A igreja grande era uma capela idêntica àquela que existe em Sintra, naquela casa junto à segurança social, talvez um pouco maior. Os vultos negros das irmãs dirigiam-se à igreja, lá após a benção inicial do padre uma das irmãs iniciava as horas a sexta e a nona. Em quinze minutos estavam presentes na igreja, as irmãs, os peregrinos, os residentes, a Madre Superior e o coro. A sequência da missa intercalava leituras dos salmos na vóz suave das irmãs, as orações do padre acompanhadas pelo canto sereno do coro “Senhor, tem piedade”, mais salmos, mais orações, mais cânticos. A missa ortodoxa é rezada de pé, apenas na leitura sequencial do livro dos salmos as irmãs se podiam sentar, mas levantam de salmo em salmo elaborando vénias e cruzes. Já a caminhar para o final destas três horas de pé (3 nas missas do padre Cristo, sabe-se lá quantas nas missas do padre Konstantino) soava o despertar, sim porque o dia ortodoxo começa à noite. Tocava-se o sino durante as orações cantadas à Nossa Senhora. Era a hora da cozinheira ir aquecer o jantar. Lia-se a primeira hora e depois acompanhava-se as relíquias principais que repousavam à noite na igreja de inverno dentro da mansão. Em procissão seguia o conteúdo da igreja cantando Avé Maria, poisavavam a ícone de pedra negra da Nossa Senhora no seu nicho. O baú dourado com relíquias de santos no centro da igreja de inverno. O jantar estava na mesa.




Please do not stop now.
Beijinho
Por: Luis em Abril 24, 2010
às 2:37 pm
Está revisto.
Peço desculpa pelos erros, mas é que não suporto voltar a ler o texto imediatamente depois de o escrever.
Por: almofadas em Abril 25, 2010
às 9:19 am
Nao te preocupes com os erros. Concentra-te no que tens para dizer. Uma revisao de texto faz-se num instante
Por: terminalfive em Abril 25, 2010
às 10:08 am
a tua vida é uma aventura brutal. «Eu queria ser santa…» isto é muito simbólico e característico de uma alma viajante. Depois de te ler apetece-me ir a esse lugar… obrigada!
Por: lisadeoliveira em Abril 26, 2010
às 5:00 pm