Ai, ia-me esquecendo, porque já estava de saída, mas tive que voltar atrás montes de vezes. À última entro já mesmo de sapatos. Bolás, nunca consigo ter tudo o que preciso à primeira. Os alicates, e os arames, as chaves, o isqueiro e o tabaco, o café, queria fazer café, tinha ma esquecido, já o devia ter posto a fazer. Está tudo: as tintas; um balde de água; o cavalete; a bancada arrumada; e uma trincha apenas; não tenho pano; não faz mal; encontro mais tintas; uma suprefície para se por no cavalete e que dê para pintar com tintas de água; um pedaço de cartão, o que se recortou para fazer a porta arredondada da casinha da Lula. Perfeito, está tudo. Azul, branco e preto, é um explosão. No meio não existia união, mas uma nebulina de todas as cores faz parecer que sim, se ondulam, ou se enrolam, do outro lado salpicam e escorrem, sobre um fundo mais preto, ondulam de branco sobre o azul sujo. Uma lua, lisa com uma pequena fenda, de lado. Agora laranja, amarelo e vermelho, uma tábua comprida. Entorno a tinta directamente sobre a madeira ainda suja, espalho com a trincha grossa. Amarelo; vermelho, mais amarelo, mais amarelo de um lado, mais amarelo do outro, parece um deserto, parece fogo imenso visto de longe pela janela do bunquer. Palavras a preto era para escorrerem sobre o fundo mas acabaram arranhadas com arame imerso em tinta preta. “e lá Falava-se mas com um gosto desigual num jeito como não se cala Vento feroz que sem feazer perder a voz arranha o peito ouvia-se singela voz perigosa fala”.
Publicado por: almofadas | Setembro 1, 2011
Tinta sobre qualquer coisa
Na categoria No need to replay



