Publicado por: almofadas | Abril 21, 2010

Obediências de um Convento

É impossível descrever os cantos e recantos que fui explorando naquela casa, da primeira impressão que me causaram as suas divisões altas, o seu soalho madeira, as escadas em caracol que subiam até ao terceiro andar dando doze voltas, as janelas em arco perfeito e as portadas venezianas por onde se aventuram os rebentos jovens das roseiras, que a Irmã Anna com toda a metodologia da sua persona britânica, vai podando.

Os dois fogões sob a chaminé gigante, e um frigorífico de três portas, um forno velho de ferro esmaltado de branco, as toalhas plásticas sobre as bancadas de apoio por baixo de outras janelas altas, de arco perfeito, compostas de vidrinhos de 12×20 emolduradas em madeira. Como pequenas fotografias, fragmentos de um enorme relvado cortado, rodeado de arbustos podados em cones arredondados, eles mesmo parecem freiras gordas e silenciosas, estáticas. Ainda antes da hipocrisia soava a beleza dos cânticos de uma igreja escura iluminada por velas de cera de abelha, que se faziam logo ali ao lado. Com mãos de farmacêutica a Irmã Ludmila molhava na cera derretida cada pavio até que este acumulasse substância suficiente para formar uma vela. Rolava as velas ainda quentes em grupos de dez sobre mais uma toalha plástica, cortava as pontas escorridas. Numa caixinha de sapatos forrada de papel de embrulho já gasto as velas viajavam até à igreja, iluminavam as serenas missas, e os seus restos voltavam novamente para o mundo da farmacêutica cuidadosa, derretiam, faziam parte de novas velas, amarelas, perfumadas de mel. Ainda antes, durante e depois do cansaço soava a minha vóz em soprano, num côro junto à porta direita do iconostasse. Rompendo o sono soava a minha vóz interrompida por bocejos às quatro da manha, os salmos de Davi. A minha audição mergulhava nas palavras melódicas lidas em meio tom, do salmo 119 (118) “Bem-aventurados os que trilham com integridade o seu caminho, os que andam na lei do Senhor! Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos, que o buscam de todo o coração, que não praticam iniqüidade, mas andam nos caminhos dele!…”

No convento distribuiam-se as obediências, era assim que se chamavam as tarefas, obediências. As mais jovens iniciavam-se a servir à mesa, gerir o funcionamento da copa, Arrumar as loiças nas mesas e nos armários. Mais tarde volto à diversão, às gargalhadas, que soltava, enquanto intrusa deste mundo, mas primeiro devo explicar de que mundo fui intrusa, do mundo em que mais tarde residi. Tal como qualquer casa, esta casa também tinha uma cozinha, uma dispensa, uma lavandaria, um caixote de lixo, corredores, escadas e quartos. Tal como qualquer casa de campo, esta casa tinha um jardim, uma horta, um pomar, canteiros de flores bem arranjados, repletos de flores de época que floriam todo o ano, relvados cortados e castanheiros gigantes que no Outono largavam as suas folhas sobre a gravilha de sílex. Tal como qualquer boa mansão, esta casa tinha uma capela, uma estufa, um bosque e um lago, muros e escadas, vasos de pedra onde cresciam gerânios encarnados e arbustos podados. Alguém fazia o trabalho, para que no fogão se elevasse o vapor dos tachos XXL; para que na copa soassem agudos os pratos; para que os soalhos de madeira brilhassem encerados; para que na casinha do lixo houvesse caixotes disponíveis, para que na lavandaria a máquina XXL não parasse de lavar, e nas cordas dançassem os lençóis brancos; para que as flores dos canteiros florissem todo o ano; para que os arbustos parecessem sempre freiras gordinhas e arranjadas, e a relva não se despenteasse; para que as velas iluminassem as missas longas, para que soassem nas vozes das irmãs os cânticos e as orações; para que se comessem com gosto as fofas hóstias ortodoxas; para que as folhas não cobrissem a brilhante gravilha. Yulia Nikolaevna, tratava das flores, jardineira de paixão vivia numa casinha junto ao lago, em frente à qual tinha um jardim exótico com pedras objectos metálicos oxidados, flores pequeninas sobre um monte grande onde ela tinha sepultado a sua fiel bicicleta. A Irmã Natalia geria a casa dos hóspedes, às segundas feiras levava no seu tractor para fora do portão os sacos do lixo que se acumulava na casinha do lixo durante a semana. A Irmã Sofía ajudava a Irmã NataliaA Madre Alexandra mantinha organizados os livros nas prateleiras da biblioteca. A Madre Ambrosia e a Irmã Anna, eram as enfermeiras, tratava das madres idosas e de quem mais precisasse dos serviços dela. A irmã Anna era também a motorista que guiava o velho R5 de tinta russa e estalada. A Madre Pelagia era responsável pelo correio, todas as cartas eram reunidas nos aposentos dela, ela tinha os selos, e quando o carro do correio chegava por volta das onze da manhã, ela ia entregar as cartas a enviar. Colocava as cartas recebidas alinhadinhas sobre a toalha plástica da mesa do hall de entrada. Todas as irmãs vinham ansiosas pela chegada das cartas. Raissa Petrovna fazia costura, os fatos negros das irmãs, as cobertas para a cabeça, os fatos elaborados que as madres levam para a igreja, e as vestes douradas dos padres. A Irmã Neonilla tratava das vestas dos padres, fazia os arranjos e mantinha o guarda roupa da igreja organizado. A Madre Ioanna tratava da limpeza da igreja, era ela que enviava os restos das velas de volta para o “centro” de produção de velas onde trabalhava a Irmã Ludmila. A Madre Vassilissa tratava da horta e do pomar. A Madre Varvara cortava os legumes para a sopa de amanhã, era engraçada ela, marcada fisicamente pela paralisia infantil ela era pequenina e marreca, na forma de falar parecia uma criança, e vestia o casaco antes de abrir a porta do frigorífico para não se constipar. A Madre Evfrosínia tratava de tudo o resto, e da gestão de tudo resto, ela trabalhava na secretaria e tratava de tudo desde a documentação das irmãs estrangeiras para que elas pudessem habitar naquela aldeia francesa até à comida que lhes ia parar ao prato. Ela geria os donativos e as petições, todo o dinheiro que o convento possuía era responsabilidade dela, fazer com que desse para a comida, para o óleo da caldeira de aquecimento, para a gasolina do carro e do tractor, para o seguro do carro, para as obras do convento, para os materiais dos fatos, para a cera das velas, para as  despesas médicas das irmãs e etc. etc. Naquele tempo era ela que decidia o que se cozinhava todos os dias na cozinha, era ela que tomava conta da dispença e das compras, era ela que fazia os horários das tarefas rotativas, os turnos de cozinha e de limpeza da casa. Era a administradora de recursos humanos, logística e relações públicas. A Madre Superios, Madre Macrina dava a benção para que qualquer tarefa fosse realizada, era ela que autorizava (abensoava) as obediências.

Eu comecei por tratar da loiça, e servir à mesa (como lá fui parar e como foi motivada essa decisão eu conto mais tarde). A rotina diária era simples: Às quatro e quinze da manhã, uma das irmãs pegava no sino e percorria todos os andares da casa tocando vivamente. O sino era tocado à vez por semanas e rotação sguia de quarto para quarto. Esta semana era a minha, a próxima calhava à irmã que habitava no quarto à minha direita. Às quatro e trinta começavam as orações matinais que duravam cerca de uma hora. As orações eram lidas pelas irmãs e repartidas por duas, calhando a cada uma meia hora de leitura, os horários de quem lia as orações e quando estavam afixados no corredor junto à cozinha. Depois das orações sobrava hora e meia antes de começar a Liturgia, normalmente essa hora era utilizada pela maioria, para dormir mais um pouco. A Liturgia acabava por volta das nove da manhã. Antes de começar a missa eram lidas as “horas”, por uma das irmãs, a quem calhava a vez de ler podia ser consultado nos horários afixados junto à cozinha, assim como quem cantava a missa hoje. Se fosse o padre Cristo a servir a missa, esta não chegava a durar duas horas, a sua voz cristalina fluía rapidamente como a água de um riacho em plena Primavera, fluíam também as almas dos crentes. Caso fosse servida pelo padre Konstantino, podia-se arrastar até às três horas e meia, isto é se ele não resolvesse hoje pregar um dos seus sermões de hora e tal. A seguir à missa havia um pequeno almoço na mesa da cozinha para as irmãs levarem, às quartas e sextas, dias de privação de produtos animais, ou nos períodos de privação de produtos animais como a quaresma, havia aveia cozida em água compota e pão, nos outros dias havia iogurtes, pão, manteiga, queijo e leite do dia. O leite do dia era entregue pelo leiteiro logo de manhã, vinha em pacotes de plástico mole e cada irmã tinha direito a um litro. A seguir ao pequeno almoço as irmãs seguiam para os seus quartos, desiquipavam-se das roupas mais vistosas que usavam na igreja e ocupavam-se das suas tarefas.

O almoço era ao meio dia, tocava-se o sino pendurado junto à porta que dava da cozinha para a rua, e vinham todos, as irmãs os residentes e os peregrinos. Durante as refeições era lida a vida do santo à memória do qual se dedicava o dia, a leitura era feita à vez e a quem calhava a vez de hoje… exactamente, podia-se consultar no placar dos horários cuidadosamente elaborado pela Madre Evfrosínia, (mais tarde por mim), junto à cozinha. Antes do almoço eu ficava a ajudar a Madre Varvara a cortar os legumes, foi aí que aprendi a cortar com a rapidez e perícia de um cozinheiro profissional, mas não fio a Madre Varvara que me ensinou, foi a Madre Vassilissa, que durante largos anos da sua vida trabalhou num refeitório, ela não me ensinou na verdade, mas ao ver a rapidez com que ela manuseava a faca eu esforçava-me para que a minha faca se movesse como a dela e para que os meus legumes ficassem tão bem cortados como os dela. Todos podiam ajudar a Madre Varvara a cortar legumes, muitas vezes juntavam-se a nós os peregrinos, e outras irmãs que não tivessem obediências pendentes.

As mesas estavam sempre postas, depois das refeições recolhia-se a loiça, lavava-se, limpava-se as mesas e voltava-se a por. Antes do almoço cortava-se o pão que vinha diariamente em baguetes do tamanho de uma perna minha, disribuiam-se os cestos pelas mesas, colocava-se a salada nas mesas, a fruta, e mesmo antes do meio dia a sopa em terrinas, uma por mesa. As mesas não estavam separadas dispunham-se em U no refeitório podendo ser posta mais uma mesa entre as pernas do U caso houvesse muitos peregrinos. Na mesa central sentava-se a Madre Superior, ao lado a Madre Evrosínia, o Arcebispo Cerafim e os padres, a mesa mais próxima do lado direito era ocupada pelas madres mais velhas, e a da ponta pelas irmãs mais novas, a outra perna do U pertencia aos peregrinos. Por uma questão de humildade as irmãs não tinham direito a garfo e deveriam comer tudo apenas com a colher, até esparguete.

O resto conto mais tarde, devo parar por aqui agora para que a mente de quem lê as coisas que eu escrevo possa assimilar toda esta informação e criar na sua cabeça a imagem do dia deste convento há hora que tocava o sino para o almoço e todos se levantavam dos seus postos, e se dirigiam tranquilamente para a sala forrada de madeira onde os armários se escondiam nas paredes, debruados por frisos talhados e as janelas de vidros tortos eram fotografias de 12×20 emolduradas na madeira e mostravam a paisagem onde havia uma árvore com um baloiço pendurado num ramo e um relvado que descia até ao ribeiro, atrás do qual um chorão velho entrelaçava nos seus troncos ramos de uma aveleira e uma roseira brava.


Responses

  1. Grande grande surpresa. Magnifico. Incrivelmente belo e simples. Consegui o cheiro do pao e dos legumes o rosto austero por vezes candido das freiras, o eco dos corredores… a paz de campo..
    Quero o resto da historia por favor. E como sou exigente, o titulo tambem.
    Ficou-me uma sensacao de, classico da literatura mundial de que ja tinha saudades

  2. Obrigada pela apreciação! neste momento aconselho outro excerto deste “clássico da literatura mundial” Ciclo – de alegria a alegria, é o segundo publicado nesta categoria.
    O título é uma supresa que ainda está para vir.

  3. apresento a jovem mais misteriosa do mundo ao cavalheiro mais insinuante e charmoso da atmosfera e arredores. O prazer é todo meu. adoro promover encontros. Um beijinho à filha redondinha da jovem misteriosa

  4. Conseguiste perfeitamente levar-me Lá, ao teu convento, às tuas obediências, para me deixares entrever um pouco mais a forma como a vida te vai esculpindo. Há aqui uma leveza extraordinária, um estar-ser muito singular. Continua por favor.

  5. A menina Willy-Willy importa-se de deixar a menina Pillows escrever vontade e dar mas e’ um abracito ou outro ao terminal ?Que ciumes pa.

  6. Sou-vos obrigada e também a mim de continuar esta história fascinante deste lugar fascinante

    • não ligues princesa, ele é possessivo, cuimento, bota de elástico poeta e escritor. Uma mistura explosiva. Escreve e não te desconcentres. estou fartinha de o abraçar e nunca lhe chega. Que coisa! Manda-o para o teu convento com uma resma de folhas em branco e diz-lhe que leve a caneta de ouro OK?

  7. posso ser o vosso wannabe?

  8. Pois passam-se momentos maravilhosos nas sombras brilhantes deste Convento se quer saber Miss Liz.
    Em quase 49 anos, um simples abraco, ainda por cima em publico…e esta farta ???Cada vez mais gosto de ti.
    Desculpa Pillows. Agora parece que resolvemos vir zaragatear paa a tua porta. Coisas do amor. Desculpa

  9. Estou a gostar de ver!


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