Publicado por: almofadas | Abril 28, 2010

Tomamos uma Decisão

Depois ficou uma imagem baça, como uma colher desfocada numa fotografia de grandes dimensões, entoando um ligeiro gosto metálico, e algo mais. Pareceu-nos triste então. Ou talvez não. É apenas um espaço oco, silêncioso, marcando a sua presença por algo semelhante ao eco das gotas de água caindo na escuridão de uma cisterna. Por mais que se espreite para o interior à espera de nada ver, bem fundo – tem um fundo.

Uma pequena porta de chumbo rodeada de espaço infinito. Talvez eu reconheça esta porta, quando passei por ela de lá para cá. Talvez seja uma outra, para outro sítio. Mas aí, já surgem montanhas e planaltos cobertos de trigo amarelo, e fardos de palha amontoados ao longe como as almofadas do salão. Descanso?

Não! A água que corria da montanha em cascatas e rios foi presa agora no leito da barragem. Fica lá só para manter a vida em redor servindo ao mesmo tempo de base e de suporte para que nova água venha, e ela parta a irrigar novos campos, para viajar no oceano.

Não passa de dois pratos polidos de uma balança de bolço, que utilizamos constantemente. Os pesos… Não, ainda não são essenciais, são apenas presentes. Eu falo de água encurralada, mas ainda não tenho sede nem calor. Sabes o que é voar, sobrevoar o céu? Sabes o que é andar na terra? As pessoas são estranhas, as pessoas assustam-me porque as procuro entender. As pessoas são cruéis, não querem dar nem receber, e depois ficam descontentes porque ninguém lhes oferece. E outras que dão e se entristecem porque ninguém recebe. No entanto as coisas já mudaram, não é? Agora é só o tempo deles se aperceberem. Quantas vezes nos apeteceu fugir desta terra, e parecia não haver nada que pudesse encurtar a nossa estadia? Ainda ficamos. E vamos ficando, vamos ficando até nos apercebermos que outras flores murcham na nossa ausência. Ou enquanto nós mesmos não começarmos a murchar na ausência de água.

Resta entender apenas aquilo que não se consegue focar á partida. Resta entender apenas o que ainda não esta presente. Porque o que temos neste momento, é suficiente para desmistificar os milhares de folhas, flores e frutos que caem, neste momento, aos nossos pés. A mesma razão pela qual os pisamos sem sequer olhar se a sua cor nos agrada.

Recordo as manchas deixadas no asfalto cinzento, pela primeira chuva de Outono. Tão leve como o ondular de uma toalha de ceda, nessa mesma brisa que trazia a chuva. Tão delicada, sem nunca ameaçar demais, nos trouxe o Inverno. E em cada momento se continua a conseguir criticar o próprio momento como os milhares de puzzles que mudam de forma no instante a seguir, e novamente não se encaixam.

Ou será ela uma pintura a óleo, em que simplesmente não adianta sobrepor demasiadas camadas de tinta diferente, pois estragará a beleza de todas as cores, transformando a paisagem numa mancha castanha. Resta apenas decidir o que significa ela para nós. Os excrementos de um animal selvagem, os nossos, ou uma barra de chocolate suíço. Ou a transformamos, na nossa mente, num deserto de areia fina ao anoitecer, e em que afinal, ainda se pode colocar algumas flores e alguma chuva! No final quando fôssemos a ver o mais importante seriam realmente elas, aquelas flores e para elas o excremento e a chuva… A chuva além do sol, já que estamos a falar de um deserto. Aí vemos que afinal não era uma questão de pesos. Era sim, uma questão de centro.


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