Publicado por: almofadas | Junho 2, 2010

Há algo no ar

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Há algo no ar, há algo no ar! Neste silêncio estranho, e no céu coberto por leves nuvens que como um tule escondem do sol a terra. Neste nevoeiro intermitente, nesta aragem, ora fria ora quente. Eu pressinto, eu sei, há algo no ar! Passa-se algo que eu não sei. Aguarda-me algo, aguarda-me naquela esquina, mas não sei. Na rua os pássaros pousados sobre os cabos de eletricidade observam-me os passos. Há um pausa dominante sobre o pinhal como se me escondessem algo. Vai acontecer. Há algo no ar, o que será? Será mais uma tempestade, devastadora e esgotante, ou apenas o abrir de uma cortina que me revele o cenário da peça, ou a explosão estrondosa da orquestra, com sopros cordas, teclas e tambores, com pratos polidos de cobre e prata a vibrar numa tensão minaz. Não tenho força para tempestades! Não tenho entusiasmo nesta espera pelo acontecer! Não vale a pena esconder, estou farta desses vossos mistérios, se é para acontecer que aconteça logo, e de uma vez por todas. Oh, deuses! Deixem-lá o suspense para o cinema. Estou cansada de ler a vida numa narrativa tencional, que nunca mais se revela. Sustem-se a sinfonia num leve vibrar de pratos e na mesma nota ritmada dos violinos jogando apenas com o volume. Não acontece nada de muito extraordinário, nada que não seja previsível durante um tempo e depois tudo acontece ao mesmo tempo. Os violinos estouram, os pratos caem, e os sopros nem chegam a actuar! Inventem outra coisa, que eu cá já não tenho paciência para esses joguinhos! Oh, deuses que me aborrecem. Surpreendam-me! Esta sucessão de factos está gasta, usada demais, é entediante. É muito melhor quando acontece uma coisa de cada vez, é muito mais bonito, muito mais prático, dá para tirar muito mais proveito e diversão de cada coisa que acontece. Agora esta táctica de fazer  uma pessoa esperar,  criar expectativas e de alimentar ansiedades. Primeiro desorientar para depois despejar tudo ao molho, e “toma-lá!?” – Eu não entendo, para quê. A vida já não é fácil por si só com tudo o que há. Desta maneira então não se tira proveito de nada, parece que andamos aos empurrões aos acontecimentos. A vida como um vassoura, reúne tudo no mesmo monte, logo, entre pó, cabelos e migalhas tentamos resgatar um ou outro boneco esquecido. Se há algo no ar, eu já disse o que queria!  Que aconteça logo, ou que desapareça de uma vez por todas!


Responses

  1. Semi-breves nessas nuvens de aguaceiros ???
    Tempos sim e tempos não
    Mundos inteiros ???

    Fazes-me renavegar sonhos aflitos
    Gritando tantos
    Tantos dos meus próprios gritos.

    Gostei especialmente dos pratos de prata a vibrarem uma espera de sinfonia. Muito bom.

  2. obrigada

  3. Não, estas nevens não eram de aguaceiros era mais um véu de mitério que não deixava ver o sol que lá estava como sempre
    esses deuses alentejanos dum raio


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