Publicado por: almofadas | Junho 14, 2010

Lenta a canção

Não valia a pena desesperar, sobretudo não valia a pena desesperar. Desencadeava-se uma aversão brutal. Eu sou ridícula, de repente parecia que se tinha dado uma epifânia na minha cabeça, e eu tomava plenamente a liberdade de sentir a consciência absoluta da minha incoerência mental. Parei por instantes a saborear essa consciência e no momento seguinte já não estava lá, ela própria impedia qualquer tipo de raciocínio lógico. Eu estava ali. Ouvi a melodia de gotas de água trespassando a escuridão, como se fossem as rodas do comboio a martelar pelos carris, como se fosse o tique-taque do relógio do hall. Vi um porão cheio de gente e um comboio a chegar. A casinha da estação do outro lado do porão. Eu querendo chegar à passagem de nível feita em tábuas através da linha, sem me conseguir aproximar, e o comboio a fechar-me o caminho. O embarque barulhento do povo sórdido e incompetente. Não havia bilhetes para a terra dela, eu precisava tanto de lá chegar, ou de voltar para casa, não havia tempo para comprar os bilhetes, as bilheteiras estavam fechadas. O comboio já fechava as portas correndo pelo porão. Parecia que o perdia, parecia que ainda conseguia entrar, parecia que seguia na direcção oposta.

Eu abanava o meu corpo levemente para a esquerda e para a direita embalando-me e cantarolava baixinho, com uma voz rouca que ressoava em forma de bolha .

Os ramos da floresta, pardos, pintam-me sombras  no cabelo

Meu espirito perdido na ramagem da floresta espera que venhas recebê-lo

Nas ondas escuras os rochedos negros soltam garras, esfarrapando as cortinas

Que dançam entoando o canto das guitarras, das minhas janelas de vidro partido

Sopra no vento o cabelo ruivo, de lama ruiva tinge o vestido, o caminho

Vou para ti devegarinho, sem hesitar, vou procurar, imaginar

Vou ser visão, ser verbo e canção

Vou te cheirar, vou te poder tocar

Só espero que me venhas receber

Só espero conseguir sentir

Só espero conseguir sentir

Em paços largos leva-se a marcha pela estrada fora

Meu espirito caminha incansável nesta marcha, espera que venhas recebê-lo

Nas ondas ruivas dos cabelos encontras os perfumes que encantam nebulinas

Onde se escondem rebolando pelos mares os vidros partidos das minhas janelas

Sopra no vento o cabelo ruivo, de lama ruiva tinge o vestido, o caminho

Vou para ti devegarinho, sem hesitar, vou procurar, imaginar

Vou ser visão, ser verbo e canção

Vou te cheirar, vou te poder tocar

Só espero que me venhas receber

Só espero conseguir sentir

Só espero conseguir sentir

Vou ser visão, ser verbo e canção

Vou te cheirar, vou te poder tocar

Só espero que me venhas receber

Só espero conseguir sentir

Só espero conseguir sentir

Levei a mão ao bolço, havia lá uma chave. Era uma simples chave, de cabeça redonda e duas pernas, uns relevos manhosos e até um letring qualquer. Hum, pensei eu, lembro-me de colocar aqui uma daquelas chaves à antiga, em cobre, com uma cabeça em forma de anel oval. Continuei a cantar embalando o meu corpo.

Não me odeies por favor

Porque eu já sou maior

Já sou melhor

Eu peço-te, não me apagues

Não me desligues

Não me odeies por favor

Eu sou amor, eu sei o amor de cor

Sou pétala, sou cheiro de flor

Sou vaga leve ao nascer do sol

Já perfurei o coração, o isco

P’lo meu anzol

Mas já não ilumina o teu mar

O teu farol

Pois bem, odeia-me então

Se é assim que queres

Se é isso que preferes

Eu não sou nada

Eu já não sou o amor

Eu poderia-te amar

Mas eu não sei amar de cor

Eu poderia-te beijar

Mas já não tenho cheiro de flor

Eu nos teus olhos sinto-me fedor

Rejeita-me então, eu peço

Por favor

Só um favor, esse favor

Talvez eu tenha despejado o meu corpo pela estrada

Desajeitada, humilhada, e sem razão ajoelhada

Não espero rigorosamente nada

Não quero rigorosamente nada

Eu vejo-te vestido a rigor

E a minha pela rasgada

Despresa-me eu peço, por favor

Só um favor, esse favor

Proclama nos meu olhos essa chaga

Não, não! Não digas nada

Não quero rigorosamente nada

Esquece-me eu peço por favor

Mas não te esqueças do amor

E quanto a mim,

Já sou maior

Já posso ser melhor

E posso amar a pétala da flor

Mas eu não sei amar de cor

Não sei amar de cor

Já sou melhor

Vou ser maior

Não quero rigorosamente nada

Mas vem, vem sem favor

Vem me amar com emoção e dor

Vem me beijar, vem inalar o meu odor

Porque eu não sei amar de cor

Traz o momento sedutor

Vem-me sem ódio nem favor

Vem me mostrar que sou melhor

Porque eu não sei amar de cor

Vem descobrir

Amar o meu amor

O ritmo da canção desenquadrou-se do meu embalo, a porcaria da chave no bolço não me dizia nada e eu revia as prateleiras mentais uma a uma à procura de mais uma canção, uma que desta vez se enquadrasse melhor com o estado de solidão e de escuridão. As miseraveis criaturas, as Annas misteriosas não vinham falar comigo, e eu não fazia questão nenhuma em sair dali. Ainda tinha alguma força para cantar mas até esta já se esgotava, não ressoasse tão redondamente o meu eco. Tinha que ser uma canção quase silênciosa, triste, uma para acabar. Uma canção que não me tirasse dali, uma que não falasse em céu azul, em campos ou florestas, que não falasse em ondas, em flores nem em azevinhos, que não falasse sobretudo em banquetes, repletos de petiscos nem sequer em côdeas de pão, que não me falasse em camas confortáveis, nem no calor da lareira acesa, nem em laranjas dentro de uma cesta, nem em leite das vacas, nem em estrelas.

O vazíu não vem, não me tráz ninguém,

Não se vai perder no que eu queria ter

Ter ou não ter, eu já não quero saber

Não me dás razão, dás-me uma lição

Devo superar a solidão

Não consigo ver, já não quero saber

Devo encontrar a solução

Quem magoou não vai ficar a rir

Quem olhou p’ra trás não vai seguir

Quem mentiu não vai olhar p’ra trás

Quem não viu não vai sorrir

Quem caiu não vai querer mentir

Quem passou não vai querer ficar

Quem morreu não vai ressuscitar

Quem esperou não vai desesperar

Quem escolheu esta pronto para ir

Chuva que não cai não me vai molhar

Eu queria ser tempo p’ra perder

Ser ou não ser, já não quero saber

Não me dês  razão, dá-me um empurrão

Devo levantar a mão

Não consigo ver, já não quero saber

Devo suportar a escuridão

Quem magoou não vai ficar a rir

Quem olhou p’ra trás não vai seguir

Quem mentiu não vai olhar p’ra trás

Quem não viu não vai sorrir

Quem caiu não vai querer mentir

Quem passou não vai querer ficar

Quem morreu não vai ressuscitar

Quem esperou não vai desesperar

Quem escolheu esta pronto para ir

Eu não quero ver, quero não saber

Eu não quero estar pronta p’ra escolher

Não, não vou ficar, e não vou sorrir

Já não quero ter tempo p’ra esperar

Já não quero estar nem deixar de estar

Quero mergulhar, mas não quero ir

Já não quero ser razão p’ra não cantar

A tristeza vai-me aconchegar

Vem-me acolher, vem me mostrar

Vai-me acontecer, vai-me matar

Estar ou não estar, já não quero saber

Dá-me uma razão, p´ra continuar

Para me erguer do chão

Querer ou não querer, não basta saber

Tudo é apenas ilusão

Esta era demasiado boa, fazia-me pensar que a solução estaria certamente naquela letra, mas a verdade era que apesar de me saber extremamente bem cantá-la, ela não me respondia a pergunta nenhuma. Eram sempre, sempre as mesmas questões abordadas, que me deixavam verdadeiramente agoniada, para além da fome, e do frio. Havia no entanto, uma pequena ponta de sabedoria, eu não estava mal, mas havia também um problema, eu não tinha força. A minha vóz falia nas últimas notas da canção. Já tinha parado de me embalar, deixei-meme cair para trás ficando com os ouvidos submersos pela água. Ouviu-se um silêncio abafador e eu adormeci.


Responses

  1. WOW !!!! Grande surpresa Pillows. Vou-me atirar a isto. Talvez passe para um bloco e depois vou tentar ler. Corrijo, declamar. Preciso descobrir-lhe a musica, entoação mas quero muito fazê-lo
    Sim senhora. Depois tens que me dizer a marca da cerveja que te deu esta onda fantástica

  2. Tenho estado a pensar de onde veio esta onda, e por que razão a achaste fantástica.
    À vezes eu sento-me e digo assim, vou escrever, vou escrever um poema, destavez foi “tenho que a por a cantar” tenho que inventar umas canções porreiras, e depois não penso mais escrevo só e sai-me isto. Normalmente eu nem sequer gosto, mas às vezes gosto e às vezes ainda aprendo umas coisas como se fosse alguém a ensinar-me. Daqui gostei mesmo do “não saber amar decor” penso que me traduz muito. Mas achas que têm muisica? é que eu não sei compor musica por grande pena minha.


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