Publicado por: almofadas | Junho 19, 2010

Turnos, rotinas e descanso

A rotina conventual dividia-se em diversas fazes. Havia a rotina diária e a rotina semanal, mais ou menos repetitivas e iguais ao longo do ano e rotina anual determinada pelas celebrações da Igreja. Depois havia a rotina das missas que era uma junção de leituras de vários livros. A leitura das missas era determinada a partir do ciclo pascoal, quando se iniciava o Octoechos, palavra oriunda do grego que significa o livro dos oito tons. Cada tom correspondia a uma melodia, sendo as primeiras mais alegres e as ultimas mais tristes. Na verdade eram oito livros, um para cada tom e indicava em que melodia se cantaria a semana, que tipo de orações se lia em conjugação com as provindas dos outros livros liturgicos.  A menaion festiva, e a mensal iniciavam em Setembro Altiura qie inicia o novo ano ortodoxo, é um conjunto de mais de 12 livros que contêm as missas escritas para os respectivos santos e celebrações de cada dia do calendário. O livro dos Salmos dividido em Katismas era lido integralmente ao longo da semana, inserido entre as leituras do livro das Horas. Havia ainda as orações ditas pelo padre e a leitura sequencial do Evangelho e dos Feitos dos Apostolos. Durante a Quaresma junta-se a esses livros a Triode  composta por dois livros, um mais grosso para toda a quaresma e outro, com metade da grossura, para a Semana Santa. Durante o Pentecostes, que conta cinquenta dias a partir da Pascoa, lia-se a Triode Festiva.

Uma missa igual não se repete em 300 anos, e não me venham cá falar de monotonia, a Madre Evrosínia disse-me uma vez: “Mais variedade do aqui no convento, não vais encontrar em lado nenhum.” Não vou descrever aqui em pormenor como eram compostas as missas, Talvés comente mais a fundo alguns dos seus momentos com significados importantes. Fale-se na missa da tarde ou da liturgia, cada ritual, cada  vela acesa, cada bater do sino, cada palavra lida, cada palavra cantada, cada procição, cada posição, cada oração, cada momento, tem tudo o seu significado, foi criado inventado e reunído com algum propósito. Alguns atribuiram-se pelos santos pais da Igreja, outros são apenas nossos, outros ainda frutos da união de conhecimento, do sentir e do perceber da missa. Não passarão em vão, as irmãs negras do convento, oito horas ao longo do dia orando, pedindo e agradecendo, ao Senhor e aos Santos.

No ciclo semanal distiguia-se o Domingo que começava obviamente na tarde de Sábado. A missa de Sábado era cantada pelo coro completo, e era obrigatória para todos os que tivesses saúde suficiente para se deslocarem até à igreja. No Sábado à noite as irmãs não jantavam no refeitório, passavam pela cozinha e levavam alguma coisa para comerem nas suas celas. Era o dia em que se aproveitava para despachar os restos de comida da semana. Servia-se o jantar apenas para os peregrinos. As orações da noite eram lidas individualmente. No domingo não se lia em conjunto a vigia da meia noite. A Liturgia começava às 10 da manhã e quando acabasse seguia-se para o refeitório, onde todos os Santos Domingos se evaporava das terrinas o borsh enchendo com cheiros de beterraba, couve e pimento a casa. No Domingo não se realizavam as obediências, a não ser que as obediências estivessem relacionadas com a gestão e ingestão dos alimentos, ou do chá que era servido aos peregrinos depois do almoço na loja dos livros. No Domingo ou em dias de festas maiores a Madre podia abençoar as noviças para irem dar um passeio pela aldeia e pelos campos circundantes depois do almoço. Para terminar a vigia matinal de Domingo cantava-se o Hino Acathistos à Santa Mãe de Deus, em glória à icone da Nossa Senhora de Lesna padroeira do convento.

A rotina semanal começava de novo na Segunda-feira com a vigia às quatro da manhã e as obediências durante o dia, e era interrompida em dias de celebração. As celebrações mais importantes eram iguais aos Domingos, com a mesma ocorrência do dia anterior, Nas mais simples lia-se a vigia às seis e começava a Liturgia às oito, de resto eram dias idênticos aos outros mudava apenas a alimentação em todos os dias de festa. Com excepção ao peróiodo de abstenção da Quaresma e o mais rigoroso em Agosto, nos dias de festa comia-se peixe. Cozinhava-se o peixe de muitas maneiras, podia-se fresco ou congelado, frito, panado, assado, ou guisado, podia ser sopa de peixe, ou hamburgueres. Nos dias das festas maiores bebia-se vinho tinto à mesa, e as irmãs também tinham direito a um copinho. Eu não bebia, fazia-me aversão imaginar a embieguês que me lembrava o cheiro da bebida alcoólica.

Eu era muito aplicada, esforçava-me para acompanhar todas as rotinas e para desempenhar com perfeição as minhas obediências. As obediências eram algo maravilhoso e libertador. Era a senção de utilidade vinda em bandeja. Eram diferentes das obrigações que eu tinha conhecido em casa da minha mãe, aqui uma obediência era uma benção recebida. Um trabalho abensoado é o melhor que se consegue fazer. Sabia-me bem ser costureira, sabia-me bem lavar a loiça da copa, mas sobretudo sabia-me bem o turno da cozinha.

De manhã depois das orações com as irmãs eu ia para a cozinha começava a fazer a sopa para ficar logo pronta e a apurar até ao almoço, sopa de legumes quere-se bem apurada. Aquecia o leite, ou cozia a aveia para as irmãs, colocava sobre a mesa os iogurtes ou as compotas. Assistia à Liturgia e saia um pouco mais cedo para reaquecer o leite ou a papa, para cortar o pão às fatias e esperar pelas irmãs. Começava-se a fazer o almoço, de início tinha a ajuda da Madre Evfrosínia, mas rapidamente passei a cozinhar sozinha, e safava-me muito bem. Estranhamente, antes de ir para o convento eu não gostava de cozinhar, mas aqui e cada vez mais a cozinha tornava-se o meu mundo aqui eu fazia, eu cozinhava, aquecia, servia. Era eu que decidia tudo, menos o que se cozinhava. A primeira vez que fiz o turno da cozinha, Cozinhei sopa de feijão verde por decisão minha, mas as irmãs não gostaram portanto nunca voltei a fazê-la. Quem decidia e imaginava as ementas era a Madre Evfrosínia, todos estavam habituados àquelas receitas, que eram muitas, mas as coisas novas eram mal aceites. Seguindo as receitas que me eram dadas e que eu fui aprendendo ajudando a Madre Evfrosínia nos turnos da cozinha das outras irmãs. Eu era uma boa aprendiz, assimilava rapidamente o que me ensinávam, sabia improvisar e inventar de acordo com o estílo que me propunham.

Depois do almoço as irmãs passavam na cozinha, elogiavam-me a sopa e a massa, eu limpava as mesas e o fogão, lavava e arrumava os tachos e as frigideiras. A hora da missa da tarde era a minha hora de descanço por direito, fazia aquilo que me apetecia fazer, lia livros, dava passeios, tudo menos dormir. A dormir é que eu não me safava muito bem, era demasiado penoso acordar depois, retomar o ritmo do dia. Dentro dos muros do convento havia muito por onde passear, para lá do grande relvado havia uma ponte sobre uma vala e depois um caminho pelo bosque que levava até à casa do padre Cristo e do Arcebispo Cerafim. A Propriedade do convento ocupava todo o lado sul da aldeia de Provémont de um dos lados era cercada pelo caminho e do outro pelo rio. Era maioritáriamente ocupada por um bosque cheio de mato práticamente impenetrável. Do lado rio as árvores eram mais pequenas e o terreno era pantanoso, havia um carreiro a separar o bosque que ia ao longo de um ribeiro de drenágem até à outra extremidade da propriedade. O caminho e o rio formavam um rectângulo à volta do convento, na extremidade contornada pelo rio subia o relvado com o baloiço e lá estava a casa em tijolo cor de rosa virada de costas, as janelas arqueadas do refeitório com uma porta ao cimo da escadaria de pedra, que apenas se abria quando se faziam limpezas. Do outro lado, na extremidade contornada pelo caminhoA casa do padre Cristo, antiga casa do jardineiro da manção e dos 30 hectáres de terra, e depois a Casa do Pai Natal escondida entre as árvores. O relvado em frente à casa, contornado por um caminho de gravilha de sílex dava passagem para uma escadaria dupla rematada sobre o muro com vasos de pedra. Um carreiro descia até ao lago rodeado de tílias e chorões. Havia um barco maravilhoso lago com duas pequenas ilhas no centro, mas para ir até lá era necessário pedir a benção à Madre, e para isso deveria ser um dia de festa.

Ao soar do sino da igreja, na hora das orações da Santíssima eu ia ligar os fornos e o lume da sopa.  As irmãs jantavam em silêncio e seguiam para as orações da noite. Arrumava-se a última loiça nos aramários, limpava-se o fogão e as bancadas, varria-se e lavava-se o chão, O lixo ficava na casinha do lixo, na cozinha tudo estava pronto para o dia seguinte, para a irmã que vier fazer o próximo turno poder iniciar o trabalho. Eu ia dormir, o dia seguinte apenas precisava de acordar às sete, para estár na Liturgia por volta das sete e um quarto ao terminar da leitura das horas. Eu deveria levantnar-me mais cedo para ler as horações matinais, mas isso era demais para mim portanto não o fazia. Aí eu deitava-me e tentava dormir o melhor que conseguisse.


Responses

  1. fico sempre com a impressão de que viveste lá muitos anos. O que contas é sempre cativante mas gostava mesmo de saber muitas outras coisas. Fica sempre a expectativa. Faz falta uma desarrumação qualquer naquela ordem e disciplina. Uma razão que motive o facto de estares a contar a história. Eu estou apenas a ver o lado literário, não leves a mal. Gostava imenso de ver tanta vida e dedicação no formato de um livro. E tu tens tudo para o fazer. E para isso terias que lançar um chamariz, algures na história. Talvez se atirares com uma razão para teres entrado; ou saido. Não sei. Olha ficava por exemplo muito interessante que uma das personagens cometesse um crime(figura de estilo)ou se transformasse num outro Ser socialmente. Qualquer coisa que projecte o sentido. Porque senão, apesar de narrativas muito belas e ditas com muito conhecimento e respeito a história pode perder alguma atraência.
    É claro que isto sou eu a inventar um livro, não ligues muito, porque na verdade só tu podes saber o que te leva a escrever. Eu gosto.Leio sempre pelo menos duas vezes e tenho sempre ficado com o retrato bem claro na ideia. às vezes até se nota o cheiro. Das sopas, dos tecidos ou dos caminhos porque até as árvores e o pantano descreves com muita subtileza.
    A kiss from London

  2. e afinal parece que esta historia não aconteceu em França mas sim na Lapónia eheh
    Aquele sonho com a menina e o tunel conta muitas coisas interessantes, sabias?

  3. Boa boa, já percebi🙂, falta-me um momento cativador que disperte a curiosidade do leitor para ler o livro até ao fim, até saciar a curiosidade. há um problema, o convento não foi cativante, há um chamariz no entanto que surge algures no final do primeiro ano dos três que estive lá. Eu apaixonei-me, o segundo ano foi a lutar contra a tentação de querer sair e o terceiro a provar a todos que não valia a pena reter-me naquele lugar porque eu tinha um objectivo concreto, eu ia atrás dele

  4. Sim, acho que pode ser qualquer coisa assim. Resta saber se a paixão teve intensidade suficiente para ser contada ou se a queres contar. Mas realmente uma paixão de uma noviça pode ter muitos atractivos e ensinar muita coisa aos dois lados. Dentro e fora do Convento.
    Ontem fiquei a pensar na simplicidade bonita com que descreves os lugares e lembrei-me de imediato de uma das minhas escritoras preferidas. Isabel Allende. Recomendo vivamente. Vais encontrar um ritmo parecido com o teu e a riqueza das descrições sai-lhe em muito poucas palavras também. Isso é uma qualidade rara. A Liz é muito boa nisso também mas tende para adensar os seus personagens. Por dentro. Vê-lhes coisas que eles nem sabem que têm. Despe-os por dentro. às vezes de uma penada deixa-me todo nú.Eheh.É bonito. Mas diferente. Tu terias mais facilidade em conquistar um leitor.
    Por isso faz uma pausa e lê para descontrair. Ela tem tres ou quatro obras fantasticas. Eu gostei muito da filha da fortuna e da casa dos espiritos, mas em “Paula” ha uma fatalidade que me trouxe emoções muito fortes antes de eu ter leucemia. Violento e belo. Parece ser dito em completo silêncio. E isso cativa-me

  5. Sim, para já n devo escrever mais sobre o convento, nem sei ao certo se vou continuar. A paixão foi fixe, durou dois anos e depois sumiu-se sem eu perceber porque nem como. o rapaz n era ortodoxo e estava ali quase por acaso, a madre percebeu e mandou-o embora, mais tarde acabei por casar com o irmão dele mas isso é outra história k eu n vou contar, depois do convento andei perdida muito tempo. Agora estar a descrever paixões antigas n é oportuno nem bem aceite aqui no meu seio familiar, sem esta, a história do convento n faz sentido. Foi graças à pessoa que depois ficou um grande amigo ate desaparecer de vez e ao conhecimento que me transmitiu que me reenventei a mim e à minha religião. fica aqui o final da história que eu provavelmente n vou escrever.

  6. Penso que não deves arrumar a história. Afinal seria desperdiçar uma etapa que tu própria reconheces como importante. Escreveres sobre o Convento, não é cansativo. <tem substância e é bastante agradável. Pelos vistos até tens condimentos de sobra E lembra-te que um escritor não tem sempre que contar histórias reais. Podes escudar-te nisso. Eu fiz mais ou menos isso com o segundo livro"Caminho de Boente" que a Liz já leu e vai ser publicado brevemente. Camuflei muitos momentos verdadeiros sob a capa da criatividade. Quis "inventar" um romance ligeiro e descarreguei muitas coisas muitos fortes pelas quais tive a felicidade de passar. E que queria muito deixar registadas. Vão fazer sentido apenas para uma pessoa, secretamente. A Liz sabe uma boa parte do que aconteceu, porque, como te disse, tem a arte e o engenho de me despir ou tornar transparente. Mas deu-me um grande prazer pessoal dizer aquelas coisas.
    Não deites fora tanta beleza. Não seria justo
    Afinal é uma responsabilidade transmitirmos quando aprendemos.
    e " tudo o que se destina a surtir efeito nos corações, do coração deve sair" Goethe (Gitas para os amigos)
    Faz apenas uma pausa. Please

    • Sim obviamente que se trata apenas de uma pausa, mas sabe tão bem imaginar que posso nem sequer voltar a pegar nela


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