Publicado por: almofadas | Junho 25, 2010

Acordar no escuro

Eu não sei o que se passou enquanto eu dormia. Talvez andassem galinhas pardas a correr cacarejando de um lado para o outro sobre a superfície escura da água, ou as gotas do tempo tivesem parado de cair uma a uma e escorreram em fios finos. Provavelmente não terá acontecido mesmo nada, ou talvez tenha, talvez se tenha aberto uma fenda no meu crânio e um pouco de água estagnada tivesse entrado para dentro do meu cérebro. Certamente não, certamente não terá acontecido nada disso, ou talvez tenha, talvez alguém tenha vindo trocar a chave do meu bolço, ou tenha vindo dilatar as minhas pupilas para que eu quando acodasse pudesse ver os contornos do misterioso espaço subterrâneo, húmido e abafado que me confrontava.

Eu continuava ali estendida meio submerça em água fria e tinha medo de abrir os olhos, pois tinha medo de abrir os olhos e ver apenas a escuridão. Enquanto eu dormia sonhei que caminhava pela margem rio de mão dada com uma rapariga. O sol jogava com as sombras das árvores e o meu cabelo ruivo ondulava ao vento. Ouviu-se ao longe um comboio. “temos que o apanhar, – disse-me ela – como vamos fazer?” “Eu sou uma bruxa, – respondi-lhe confiante – e além do mais isto é um sonho, podemos fazer o que quisermos” Depois peguei nela debaixo do braço e voamos as duas sobre o bosque e a casa de madeira. Ficou para trás uma cascata que caía discretamente de uma fenda aberta na falésia, não importava. Chegamos à estação e entramos em passos leves na sala de espera, passamos pelas filas de cadeiras azuis em direcção às bilheteiras. “Como vamos comprar os bilhetes – perguntou-me a menina – não temos dinheiro.” Ficamos à espera na fila para a bilheteira, o comboio já entrava no porão. Isto é um sonho pensava eu, não devia ser preciso nada disso, nem filas, nem dinheiro, nem bilhetes. A senhora antipática da bilheteira não me quis vender os bilhetes a crédito, todos olhavam para mim de lado, o meu cabelo embaraçado e húmido caía pelos ombros cobrindo-me o peito, o meu vestido estava rasgado, os meus pés descalços cobertos de lama. Tentámos avançar entre a multidão, pelo porão até às portas do comboio mas as pessoas empurravam-nos com as suas malas e cotovelos, seguindo na direcção oposta. O comboio arrancava e fechava as portas em andamento, ficava-nos a visão do forro de madeira no interior da carruagem por detrás da janela riscada e suja. “Há outro comboio? – Perguntei à senhora sentada num banco de madeira.” “Há mas não para nesta estação, só na vermelha.”

Eu conhecia a vermelha, e para lá podia-se apanhar um autocarro no crusamento a caminho da quinta. Não sabia a que horas seria o autocarro. Não seria mais simples voar até lá tal como eu tinha feito anteriormente deixando esvoaçar no vento as flores do vestido e as chamas do cabelo. Era mais do que óbvio se houvesse algum significado à posteriori de apanhar o coboio certo. Em vez diso eu corria descalça pelo alcatrão ao amanhecer, tentando apanhar o primeiro autocarro. Seguindo a pé pela estrada vazía na direcção de outro lugar.

Abri os olhos devagar antecipando a visão negra da paisagem, e por surpresa minha a paisagem não era negra. Sobre mim pairava uma gárgula cinzenta fitando-me com curiosidade como se já me agurdasse há algum tempo e me observasse de olhos fechados. A expressão magra transmitia um silêncio aterrador e no olhar lia-se aenas um negro profundo e vazío e esse vazío parecia esconder todos os segredos do mundo. Os seus dedos curvados escondiam uma tensão serena que fazia pairar tiras de tecido negro e os cabelos finos sob a cúpula de pedra que me cercava. Ela fitou-me por instantes e depois eu mergulhei no seu olhar e tudo ficou escuro. Fiquei deitada e tentei mexer os braços na água, pareciam dois troncos, as pernas pareciam outros dois ainda maiores. Parecia que a cúpula me tinha caído em cima pedra a pedra e me tinha enterrado. Tentei mexer as pontas dos dedos, mas não conseguia perceber se estavam realmente a conseguir fazê-lo.

O som abafado pela água parecia trazer-me vozes e  paços. Parecia-me ouvir pés a arrastar a água e uma conversa desritmada. Fiquei assustada por momentos. De repente senti algo a tocar-me na mão, parecia um peixe nadando em água pouco profunda. Ouviu-se um salpico na água algures atrás da minha cabelça. Em seguia algo semelhanta tocou-me na anca e depois no pé. Tentei mexher os dedos do pé, sentia-o dormente e os meus dedos gigantes forrados de feltro. Ouvi outro salpico algures à minha esquerda, tentei olhar na irecção do som mas não conseguia levantar a cabeça. Controlei a respiração era a única coisa que conseguia controlar neste momento. Ouvi apróximar-se de mim de todos os lados algo que remexia a água e roçava no fundo, senti as palmadas das barbatanas dos peixes na minha pele. Peixes pensei eu com alívio. Eu devia tentar mexer-me e apanhar um já que estão aqui em tanta abundância, estou mesmo a precisas de algunas nutrientes. Tentei inclinar a cabeça para a direita esticando os lábios na direcção da água. Dei um gole, sabia a lodo.

Eu parecia a vitima de um sacrifício estendida no centro de uma cúpula redonda, imobilizada. A protagonista de uma iniciação manhosa. Aos poucos as carpas acalmaram, ouvi passos que formavam um círculo de indivíduos à minha volta. O meu corpo começava a doer, coração esforçava-se cercado pelas costelas. Penso que fechei os olhos nessa altura, ou quem sabe já estariam fechados há mais tempo. Fez-se novamente o silêncio quebrado pelas gotas de água.

Então digam lá o que querem de mim! – Queria eu dizer mas a minha voz saíu rouca as palavras mal articuladas proferiram para o ár algo como:

–       Pam fga lá qreepf m.

Esperei um pouco antes de tentar falar novamente, mexi os lábios imaginando as palavras soletradas de forma correcta. Verifiquei o movimento dos dedos, pareciam bolas de ténis.

–       Ta qshli gui – Soltei outro som

Não obtive resposta mas sentia que através da escuridão me fitavam pares de olhos distribuidos em cículo à minha volta.

–       Gaa. – Soltei eu baixinho, o mais alto que consegui para chamar a atenção.

Nada, não ouvia resposta. Suspirei e fiquei a ouvir a água em redor da minha cabeça. Quefá mgui gua cmi pssi bca. Não admirava que não me respondessem, não estavam a enntender nada do que eu estava dizer, e eram perguntas tão simples. Pelo menos eu sentia-me acompanhada, apesar de não poder pedir ajuda para me levantar. Imaginei então que me agarravam pelos braços e me arrastava até uma parede onde me encostavam as omoplatas e que a gárgula cinzenta me iluminva ligeiramente com a sua sombra os contornos das faces que me fitavam certamente. Era preciso descançar mais para me conseguir mexer e sair dali.

De olhos fechados relaxei o corpo e senti que me afundava, como se as minhas costas não sentissem mais a barreira do fundo. Senti-me a cair imparável entre bocados de terra seca do planeta quebrado, mais fundo do que o profundo das estrelas que se observa no céu nocturno. Caí como se o centro de gravidade do úniverso tivesse migrado para muito longe, como se o meu corpo não tivesse peso e o ar não fosse barreira, e senti os cabelos longos a roçarem nos braços nús enquanto caía.

As galinhas enfatuadas, gigantes sentadas à minha volta fitavam com olhos néscios e dissimulavam a sua estupidez com conversas arrogantes:

–       Có, có, có, có, có, có. – Dizia uma pausadamente.

–       Cpó, có, có, có. – Respondia a outra

–       Có, có, có, có, Qdáa! – Exaltava-se a terceira

–       Có, có, có, có.  – Repetia a primeira em resumo da sua afirmação inicial.

–       Cpó, cpó, cpó, cpó qdá!!  – Manifestava-se uma quarta

Outras três ouviam a conversa com cara de importante e nariz empinado enquanto uma mais pequenina se atrevia a fazer a sua intervenção:

–       Cócócóccócó, qdá, qdá, qdá, cpó, cpó, có, có, có.

–       Có, có, có… Có, có… Có. – Interrompia a primeira, que era claramente a lider daquele gupo de galináceos pardos.

–       Cró, ´coóc cócpó, qda qpó – soltaram em coro as três galinhas silênciosas até então, em defesa da mais pequenina contra a lider arrogante.

A conversa parecia não estár a chegar a lado nenhum, e eu não percebia nada do que elas estavam a dizer. Os olhos pequeninos e redondos espreitavam sobre o bico afiado, e desmascaravam totalmente a hipócrisia daquelas criaturas. Entretanto o meu corpo ia caíndo, eu puxava os cabelos e tirava como se fosse um chapéu a parte superior do meu crânio. O cérebro lá dentro não aguentava o atrito da queda e soltava-se subitamente, consegui-me virar no ár, a mão esquerda segurava com força as madeixas de cabelo e a direita tentava apanhar o cérebro para voltar a colocá-lo no seu sítio. Tudo parou por instntes, não se ouvia o vento a deslizar pelas fibras do vestido, nem se apróximavam as rochas negras lá em baixo, apenas a minha mão se movia lentamente tentando alcançar o cérebro rebelde, que lhe escapava, e no instante seguinte se esbarrava contra as rochas e se desfazia em milhares de gotículas de cinzento e vermelho, brilhando sob a luz da lua.

Ergui o meu corpo repentinamente e uma golfada de água com sabor a lodo subiu pelo exófago expelindo-se para fora do meu corpo. Senti-me mais leve, estava sentada agora, os braços e as pernas pareciam estár funcionais, mexi o pescoço, para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo. Não se via nada. Não, mentira, dava para ver algures atrás de mim um arco meio iluminado do outro lado. O que terá acontecido, Haverá aqui uma saída próxima. Devem ter sido as galinhas, passou-me brevemente pela cabeça.


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