Publicado por: almofadas | Outubro 10, 2010

Sala de arquivo

Eu não abandono as coisas. Do material, tive que me conformar que por vezes não depende de mim se fica ou não abandonado, não é eterno, por vezes perde-se, é como se não fosse totalmente meu. As ideias e os pensamentos, esses não se perdem, e mesmo os que se perdem não interessam até serem encontrados. Eu tenho as ideias organizadas numa sala ampla em cacifos de arquivo, são muito simples de gerir. Ao fundo da sala tenho uma secretária grande, de costas para uma parede de vidro. Qualquer coisa que fique fora de sítio nos cacifos vai para a secretária e depois encontra o respectivo cacifo. Os cacifos estão organizados de forma cronológica e as pastas têm cores correspondentes aos temas distinos que as minhas ideias abordam. Quando lá cheguei, alguém tinha deiixado tudo em estantes de madeira com pastas colocadas ao alto, as folhas todas desalinhadas. Eu substitui as estantes por cacifos organizei as pastas e coloquei as folhas soltas nos respectivos sítios. Está tudo lá pronto para se ir buscar quando for necessário. As ideias não perdem imporância e tudo está aqui guardado, eu penso activamente em todos os assuntos que alguma vez quis abordar, não me esqueço de um único texto que imaginei escrever. Não me esqueço de um simples argumentativo que prometi um dia à professora Madalena a explicar como se faz o restauro no dia a dia. Não me esqueci das aventuras no camião dos monstros para crianças, nem da ilha dos crocodilos croqiunados, ou das histórias de um botão. Não me esqueci do convento nem da casa de madeira, nem do propósito da bacana perdida no túnel. Não me esqueci de tentar explicar a utilidade da pubicidade aplicada em assuntos menos comerciais, nem de continuar a linha de poemas repletos de imagens de fogo e de água nos seus diferentes estados. Tudo vive aqui, nenhum assunto se perde numa prateleira longinqua a apanhar pó. Cada um vai ocupando à vez a superfície horizontal da secretária, existem paralelamente uns aos outros, são analizados, estudados, imaginados, criados. Mesmo que não sejam incorporados em palavras ainda, eles vivem porque eu não abandono as coisas. E que culpa tenho eu se a vida não para, de me virem cair novas folhas na superfície horizontal da secretária da sala de arquivo.


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