Publicado por: almofadas | Abril 11, 2011

Havia falta, ou excesso de tempo?

Não era fácil gerir o trabalho e o descanço. Perceber quando é que já seria hora de descançar, e quando ainda deveria continuar a esforçar o corpo ou a mente. O curso por correspondência que me adquiriram era puxado, eu tinha sete livros grossos tamanho A4 para estudar e quarenta e nove exames para fazer. A materia era toda escrita em francês e para compreender eu utilizava o dicionário.  Ao princípio limitei-me a estudar as diversas disciplinas e a tentar-me lembrar da matéria que já tinha dado na escola. Seja quem for que elaborou aquele curso, era um sacana bem esperto. Todos aqueles livros não continham definições, quando me agarrei às perguntas dos exames percebi que para responder às questões não bastava ir ao livro e copiar a resposta, ela não estava lá, não por palavras directas. Era preciso compreender muito bem a explicação que era dada no livro, para elaborar uma pergunta com o significado daquela explicação. Muito bem elaborado para um curso por correspondência. Há pessoas inteligentes a pensar nas coisas que me aparecem à frente.

No entanto, a vida era bastante fácil, não havia demasiada coisa para gerir. Os horários de todos os acontecimentos estavam estipulados e tu só tinhas que cumprir a tua parte. era como se fosse preciso saber contar até 20, e bastasse apenas, juntar números inferiores a cinco para obter o resultado. A Youlia Nikolaevna explicava isso muito bem numa conversa sobre a Irmã Catarina que sofria de paralizia cerebral e por isso tinha certas limitações nomeadamente na matemática.

– A Irmã Catarina, – dizia ela – só consegue contar até cinco. A mente dela não se mantem concentrada para alcançar mais números. Como ela gosta de fazer tricôt, nunca precisa de contar mais de cinco pontos, ela tem alternar entre três, dois ou quatro para desenhar os padrões na lã que vão formar os relevos nas camisolas.

E estão explorados todos os números até cinco, – penso eu, – pois se o 1 é o primeiro o cinco o último são eles que delimitam a fronteira o seu universo matemático, simplificando-o bastante porventura, apesar de mesmo assim não o tornar finito.

– No outro dia ela veio ter comigo porque precisava de flores para as campas do cemitério. – Continua a Yulia Nikolaevna. – Ela Iamagina as flores e diz:

– Três, três e quatro,  para a campinha da Madre X, cinco, cinco e três para a da Madre Z. – Aqui faz uma pausa mas depois prossegue. – Depois preciso de quatro quatro e dois para a campinha da Madre Y, e três e  três, e quatro para a campinha da Madre J.

A Yulia Nikolaevna contava este episódio, tentando-me fazer entender como era esperta a Irmã Catarina. Eu penso que ela se referia à maneira elaborada de lhe estorquir um grande número de flores sem pedir grandes quantidades. Mas eu acho que a esperteza dela não ia por aí. Ela conseguia era aplicar os seus valores em padrões ccertos que ela podia visualizar, algo que lhe permitia entendê-los. Ela via tudo de uma forma simples, em baixos relevos e na forma como ela geria esse mundo ela era verdadeiramente inteligente.

Para além das obediências relativas à rotina conventual, o curso  de francês era a obediência mais complicada e deveria ser geridoa somente pela força de vontade. Depois de sair do atelier da Raissa Petrovna eu deveria ir estudar, essa era a minha obediência principal, e em obrigação a isso eu deveria fazê-lo sem me desleixar. Era muito difícil chegar à minha cela depois de arrumar o refeitório e pôr-me a estudar agarrada aos ivros e ao dicionário. Vinha-me o sono, vinham-me as paragens cerebrais contínuas e eu ficava parada a baloiçar na cadeira a olhar para a parede, a olhar para a janela a ouvir os sons, a coçar a cabeça a riscar o caderno e a mesa. E depois vinha-me o desespero  de não conseguir ter força para estudar aquilo, depois vinha-me o sentimento de culpa por ter desperdiçado tanto tempo sem fazer nada. Eu recomeçava com a oração do senhor e depois pegava nos livros, olhava para o texto e lembrava-me que ainda tinha a minha regra por cumprir. Colocava-me de pé no centro da cela a fazer cruzes e vénias na direção da lamparina acesa e dos ícones. Estar a rezar afinal podia ser desculpa para interromper os estudos. Em seguida deitava-me e fechava os olhos por instantes. Voltava a levantar-em, era preciso retomar o estudo. Voltava a traduzir texto e  ler as perguntas ds fichas. Depois tocava o sino da missa e eu seguia silênciosamente contanto o terço, de cabeça baxa.

Este esforço de concentração interior  que eu fazia para estudar, para orar e para lêr e compreender a literatura relígiosa dispertava em mim, cada vez mais, o gosto pelas outras tarefas que me eram atribuídas pelo convento. O termpo que eu passava a limpar a lavar a varrer e a arrumar dava-me tempo para reflectir tranquilamente sobre o que eu estava a fazer em contraposição com a minha alma e com o que eu sentia em relação a mim, em relação ao meu envolvente e em relação ao todo. Eu varria o lixo do chão como se varresse os maus sentimentos que me enxiam o peito deixando o chão limpo e agradável ao meu olhar. Eu arrumava nos armários as conversas com as irmãs, e as hstórias ouvidas e lavava com água as brigas. Inspirava o vapor do conhecimento largado nas páginas de livros e fazia brilhar superfície esmaltada das taças, eu colocava água limpa nos jarros. No entanto a minha relação com as pessoas não era tão fácil, eu não as suportava, simplesmente não suportava a sua presença, nem o que elas diziam, fosse o que fosse que elas diziam. eram muito poucas as pessoas que eu conseguia entender e com que conseguia estar ou falar. Eu seguia obedientemente as indicações da Madre Evfrosínia e Gostava da simpatia da Madre Alexandra. A Youlia Nikolaevna era muito faladora e era fácil falar com ela, mas ela,  tal como a Rissa Petrovna não pretenciam aos quadros do convento e tinham uma postura diferente. A Youlia Nikolaevna era uma mulher pequenina e confiante, ela falava como quem plantava flores acreditando que aquilo que ela estava a plantar iria crescer e florir, ela achava que qualquer solo era bom para ela cultivar, pois o que ela cultivava eram apenas plantas e havia plantas capazes de crescer em qualquer território. A Lilia tinha-se afastado de mim e agora dava-se muito com a Marussia nas suas visitas ao convento. Eu não conseguia estar com elas, ficavamos juntas a tomar o chá às quatro da tarde, que era servido aos peregrinos e onde nós tinhamos a benção de participar. Conviver com os peregrinos era habitual entre as irmãs e cada uma convivia e conversava com quem queria. Conversava-se abertamente, não havia nada a esconder. As conversas confidenciais passar-se iam à porta fechada, e à porta fechada eu arranjava as minhas. Retomava a minha relação com a Lera que passava o seu tempo na oficina do Vanha. Tocava guitarra durante horas sem ninguém-me incomodar ou entretinha-me a experimentar cores sobre uma tábua com grandes pinceladas a óleo.

Devia ser uma época festiva, certamente a Santa Trindade a Lera e Masha tinham voltado. Depois desta experiência de vida na rotina conventual eu não sabia como me relacionar com elas. Isso  gerou um conflito em que para elas a minha portura era superior. Enquanto elas queriam andar na brincadeira eu estava ocupada e tinha coisas para fazer, não tinha paciência para as suas piadas e para as suas conversas. Eu sentia-me cansada, eu tinha que estar consentrada. Eu sentia-me vulneravel junto a elas e rebaixada nas suas palavras eu saía a correr para evitar os seus olhares  e para não chorar à sua frente corria para o meu quarto escada acima e esocndia-me no armário, ou então perdia-me nos bosques do convento. A Liberdade dentro do limite da propriedade era total com excepção da utilização do barco ou da realização de qualquer tarefa. Podia-se andar de baloiço e passear em torno do realvado. Podia-se ver as folhas  a cair no lago e ouvir os pássaros, podia-se esperar em cima de uma árvore no meio do pântano que aparecesse algum cerne ou um javali. Podia-se caminhar entre as árvores e ver os frutos a crescerem no pinhal. Podia-se Lavar a roupa na lavandaria evisitar a biblioteca, se a Madre Alexandra não estivesse a descançar. Era preciso cumrir as obediências e estar à hora certa na missa e nas orações. O resto do tempo era nosso, ou seja meu. O problema é que eu não sabia o limite entre a obediência a que me obrigava o Curso e o meu tempo. Eu cansava-me a estudar e não via resultados. Eu cansava-me a orar e não via resultados porque continuava  cansar-me de chorar no tempo que me sobrava.


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