Publicado por: almofadas | Abril 20, 2011

Passavam Dias e mais Salmos

Segundo me ensinaram os livros, o grande problema do ser humano era o corpo. A preguiça e a gula eram grandes inimigos da sua alma. Enfim qualquer coisa que proporcionasse prazer físico, deveria ser renegado por uma freira. Portanto eu não podia andar por aí a lamentar-me se me doiam os ombros ou a cabeça. Se o sono durante as orações me fazia desfalecer, se as pernas não tinham força pra continuar de pé até ao final da missa. Qual seria o meu limite físico? Sempre que eu sentia que não estava a aguentar, fazia um esforço e conseguia aguentar o suficiente. Continuava a acordar de manhã às 4:15, a cumprir a regra, a ouvir atentamente as missas,  não faltar a nenhuma das minhas obediências dentro do convento. Estava a chegar o Verão e era altura de cuidar dos canteiros e dos jardins. A minha vida não se podia limitar ao interior da casa, os longos passeios pela heradade, quando muito frequentes tornavam-se aborrecidos e era necessário utilizar com utilidade o meu tempo ao ar livre.
     A Youlia Nikolaevna mostrava-me o pomar atrás da igreja. Havia muitas maceeiras onde eu andei a correr embriegada de espumante imaginando que eram elas que corriam para mim. Havia ameixas que ainda não tinham dado fruto porque as árvores eram todas fêmeas e não tinham macho. Ela enxertou numa delas um ramo de um macho, que tinha encontrado algures noutra parte, e estava à espera que este ano nascessem frutos. Ao fundo havia uma estufa abandonada, construída em tijolo vermelho e branco, como a casa, e tinha as mesmas janelas em arco perfeito mas corridas até uma altura de primeiro andar. No topo da estufa havia um terraço para onde levava uma escadaria do lado direito da entrada. A escadaria ia encostada ao muro que delimita a propriedade. Atrás da estufa, uma arrecadação e capoeiras desabitadas. Em frente às capoeiras crescia uma grande cerejeira e entre as últimas filas de maceeiras, onde o tereno já não era inclinado, havia duas fileiras de framboesas. Passaram a ser as minhas framboesas. O Atelier da Raissa Petrovna começava a seguir ao almoço. Como a Lera e a Marussia vinham passar o Verão todo no convento eu estava temporáriamente dispensada das tarefas do refeitório. A Madre abensoou-me para ajudar a Youlia Nikolaevna no jardim e eu passava as manhãs intretida a ajudar-lhe. As framboesas cresciam em duas fileiras de 4 metros eram suportadas por arames atados a postes nas extremidades de cada fileira. O solo estava coberto de ervas daninhas e entre os ramos onde começavam a crescer folhas verdes havia muitos ramos secos que precisavam de ser cortados. Comecei por aí, depois passei para as ervas daninhas. Eu sempre gostei da trabalhar com a terra. Ajuadava  a Liuleka na horta e no jardm. Plantavamos batatas. A minha mãe abria as covas com a pá a minha avó colocava a batata já cortada e seca, eu punha uma pázinha de cinza sobre a batata e o meu irmão cobria a cova com a enxada. A terra era negra e fofa, cheirava bem. Do outro lado do terreno que se estendia até ao rio a minha avó plntava melâncias e melões. Era tão bom comê-los no verão. Ela sempre me disse que eu tinha jeito para apanhar tomates, eu arrancava-os com muito cudado, e apenas aqueles que se queriam soltar. No Outono iamos apanhar bagos para a floresta. Apanhávamos groselha, framboesa, e morangos silvestres. Depois a Liuleka fazia compotas.
Esta framboesa era Nobre, ela dava fruto duas vezes por ano e em Julho já se ia poder colher os primeiros bagos. Mas era preciso agir rápido, cortar os ramos secos, adubar as raízes. Mãos à obra Vassilissa! Eu tatava das minhas framboesas com muita dedicação e os dias iam passando. Eu não tinha saudades de casa, e a minha mãe não me chateava agora com telefonemas. As obediências ocupavam o meu tempo, e eu não tinha desculpa nenhuma para ficar sem fazer nada, nem queria. Eu queria esforçar-me muito para me sentir satisfeita comigo mesma. Apróximava-se o meu aniversário e eu tinha muit esperança de me tornar mais adulta. Afinal eu ia fazer 16 anos e já me sentia empenhada e responsável. Eu já me tinha habituado à rotina e cumpria-a com toda a fidelidade que me era possível, não faltava às missas. Eu cantava no coro, mas o coro completo apenas se juntava nas missas festivas ou dominicais, nos outros dias a Madre Evrosínia agendava o meu nome juntamente com a Lilia, em alguns dos dias o coro era gerido pela Irmã Katia, (Madre Anbrósia mais tarde). O coro era composto por 3 vozes A Irmã Katia cantava em Barítono, e era a única portanto tinha a obediência de participar em todas as missas. Ela era a terceita Vóz. O Tenor era cantado pela Irmã Natalia e Pela Irmã Anna e o Soprano Pela Madre Evrosínia, pela Irmã Natasha e pela Irmã Eulalia. A Irmã Natasha cantava com a Irmã Katia e com a Irmã Anna e a Irmã Natalia como Tenor. A Madre Evrosinia cantava com  a Irmã Eulália no soprano, com a Irmã Natalia na segunda vóz e a Irmã Katia. A Irmã Anna raramente cantva sozinha. A Irmã Anna Tinha várias limitações, por diferentes razões de saúde. Tinham-lhe sido removidos grande parte dos múculos do peito, devido a um câncro da mama. Ela também não trabalhava na cozinha, porque tinha perdido o olfacto num  acidente de viação e tinha muita dificuldade de distinguir os sabores das coisas. Eu sentia-me feliz por cantar no coro, aliás esses eram os momentos altos do meu dia, da minha semana.
Cantar um simples “Senhor Tem Piedade” que era repetido centenas de vezes, durante as missas monotonas da tarde dava-me uma alegria tremenda eu ansiava esperando por aqueles cânticos maravilhosos que se cantavam no final da missa em que a minha alma saia do meu peito com as palavras cantadas na minha vóz. Acompanhar o ícone da Nossa Senhora de Lesna com o carinhoso Ave Maria em procissão até à ireja de Inverno. Eu habituei-me a seguir as missas pelos livros e a perceber como elas eram compostas. Era fácil fazê-lo no púpito do coro. Apenas os cânticos mais importantes eram cantados pelas pautas. A maior parte dos cânticos eram cantados apenas pelos livros nas respectivas Vozes do Ochtoecos. As Melodias/Vozes das orações cantadas do Minaieon eram adaptados de acordo com a celebração, sendo a primeira Vóz a mais festiva e a Oitava a mais trste. No dia da memória de um mártire cantar-se-ia a missa do santo,  na Oitava ou na Sétima Vóz, mas a Sétima raramente era utilizada. A melodia da Sexta Vóz era uma das minhas preferidas e era a utilizada nas missas fúnebres. A Terceira, na minha opinião, era particularmente alegre, e a mais bonita das Vozes alegres Era a mais utilizada nas festas na Nossa senhora. Os Dias de Jesus cantavam-se quase sempre na Primeira Vóz a não ser que se tratasse do seu martírio que se cantava em Oitava ou em Sexta. As missas dedicadas a São João Baptista cantavam-se em Segunda Vóz com excepção do dia em que foi degolado que se cantava em Sétima. A maior parte das missas dos santos cantavam-se em Quarta, ou em Quinta. E por aí em diante, cada monge que dedicou os seus dias a compor as missas contidas nauqeles livros, dedicou a cada mssa o seu cântico, a sua Vóz, a sua melodia. As melodias foram adaptadas às palavras, e as palavras às melodias escritas em pautas e foram ensinados a todos os coros de todas as igrejas espalhadas pelo mundo. Elas variavam um pouco de região para região; e consoante a composição do coro, masculino, misto, ou feminino. Eram, no entanto muito parecidas à uma melodia original para cada uma das Vozes da Igreja Eslava. No púpito do coro eu tinha todos os livros à minha disposição. Havia o Livro da Hora,s o Ochoecos, e a Minaieon, o Livro dos Salmos eu tinha adquirido na Livraria do convento ainda numa das minhas anteriores visitas. A leitura sos salmos era a leitura mais prolongada de toda a missa, e era impossível manter a concentração sem seguir a leitura. Eu trazia comigo o Livro dos para todas as missas, mesmo às que assistia sem cantar no coro. Seguia atentamente a leitura pelo meu livrinho, tentando compreender e interiorizar as palavras. Alguém me tinha dito que uma freira deve saber o Livro dos Salmos decor, portnto, eu tinha intenção de o decorar.

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