Publicado por: almofadas | Fevereiro 1, 2012

e como seria, se não fosse assim

Às vezes eu pergunto-me como seria a minha vida se eu não tivesse ficado lá naquele dia, quem seria eu agora. E qual foi a razão que me levou a ficar. Eu nunca analisei muito bem aquele momento. Deixaram-me em Charles de Gaulle, guiando-me pelo cartão de embarque, cheguei à janela do check-in. Era demasiado cedo, seria ali mas ainda não tinham começado o registo de passageiros e bagagem. Pediram-me que aguardasse, sentei-me  numa das cadeiras das filas situadas no lado oposto da sala ampla de embarque para os diversos voos daquele Aeroporto. Senti-me e esperei, tirei da mala um livro, Cahmar -lhe-ei “Crónicas de São Nicolau”. Já conhecia, e pus-me a ler para passar o tempo, meia hora penso eu, e não me lembro do que li, mas lembro-me de pensar que deveria me levantar e perguntar as horas a alguém, em francês “quelle heure est-ils?” ou em inglês, What is the time?. Não não poderia perguntar assim, teria que encontrar uma maneira educada de abordar a pessoa e lhe perguntar se me pode informar sobre as horas. Parecia tudo demasiado complicado e eu não era capaz de o fazer. Talvez bastasse apenas levantar os olhos do livro e virar a cabeça para a direita para ver se o check-in já tinha começado. Era tão simples quanto isso mas eu não o fiz a tempo. Levantei os olhos apenas quando acabei de ler o pequeno livro. Se eu queria ficar? Dificilmente poderia responder a essa pergunta. Pela primeira vez, quando imaginei ficar parecia que seria a solução para todos os meus problemas, era como se eu pudesse “voar, ultrapassar obstáculos sem ter de os pisar”. No entanto o caminho foi construído de obstáculos e eu espalhei-me ao comprido. Naquele momento ficar lá, significava redimir-me dos meus pecados e mudar a minha vida, para finalmente poder estar em paz com a minha consciência. Obviamente que eu me poderia redimir em casa, mas isso criava-me uma perspectiva devastadora para o meu consciênte. Ter que lidar com tudo e com todos de forma diferente sem sair do mesmo ambiente. Nas semanas anteriores à minha ida de férias, eu tinha perdido toda a minha liberdade, ninguém confiava numa única palavra minha e todos os meus actos, e as minhas coisas eram revistas. No convento eu poderia praticar apenas o bem. Cumprir as obediências, rezar por mim e pelos meus, evitar os vícios e as tentações que me podiam levar a pecar, evitar os maus pensamentos, ambicionar a paz de espírito. Eu queria ser assim, e aquele era o sítio para fazê-lo. Mas sobretudo, eu não queria voltar. E talvez tenha sido o meu subconsciente, aterrorizado de voltar novamente, para um sítio onde eu própria, aparentemente, tinha transformado a minha vida num inferno. Eu não fui capaz de ultrapassar o simples medo de me levantar e de perguntar as horas, e eu congelei no tempo, e o tempo passou, e eu deixei-me ficar, até não poder mais. Eu deixei de reagir para deixar acontecer, sem tomar a decisão de o fazer. Até ao momento em que me disseram que era tarde demais para embarcar naquele voo, eu não tinha ponderado a hipótese de perder o avião. Assim que o fiz fiquei.

Volto a este momento, e questiono-me, o que eu de pensar de mim. Eu tinha quinze, e por mais adultos que me viessem dizer que a decisão de ficar a viver num convento não podia ser tomada de ânimo leve, eu não iria querer ouvir. Eu estava determinada a mudar a miha vida. Hoje em dia vejo que consegui fazê-lo. Mas eu não tive pedalada para a a jornada que estava a querer tomar. Eu retive a moralidade, o que me atraiu na igreja, a bondade, a generosidade, sermos para os outros o que queremos que sejam para nós. Não zangar, pedir desculpa, perdoar, ser perdoado. Eu escolhi estes princípios para reger a minha vida, dentro ou fora do convento, desde o momento eu que eu decidi ficar, foi o que eu decidi ser. Boazinha, delicada, observadora, atenta, asseada. Querer eu queria e tentava, ser. Mas eu estava muito zangada, e isso fazia-sentir-me só. Para compensar a solidão eu procurava interter-me, tarefas, lavores, leituras, orações, sono. Depois de ter experiênciado vários modos de vida ouso pensar por vezes que talvez a vivência no convento de Lesna tenha sido a melhor, e teria sido aquele o melhor sítio para se ter realizado a minha vida. Muita coisa mudou, o nível de dificuldade aumentou muito, mas tudo o que eu tenho que fazer para lidar comigo mesma continuou igual. Tera sido este desvio, essa passagem por Lesna que me tenha levado a sentir o mundo desta meneira. Debater-me sem me enquadrar e sentir que sou mas que se perde o sou. Não era isso algo que devia ter ficado na adolescência. Como pude eu, a Alice daquele tempo, ter decidido assim sobre a minha vida?

 


Responses

  1. Tive uma Avó sábia.
    Daquelas que nunca aprenderam a ler.
    E um dia, quando eu esfolei um joelho por andar a correr atrás das galinhas, em lugar de me socorrer as lágrimas apanhou uma pequena pedra de quartzo, ali ao meu lado.
    – Andava á procura desta pedra preciosa – disse
    Depois meteu-a com cuidado nas minhas mãozitas.
    – Ainda bem que a achaste. Guarda-a. Agora fica para ti.

  2. Ja achei muitas pedras preciosas


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: