Publicado por: almofadas | Fevereiro 12, 2012

A metáfora da mente

Lá no convento eu tentei perceber uma coisa. O que é Deus, de que me falaram ainda na infância e eu acreditei que existia mas nunca consegui perceber o que é. Como são simples as coisas quando somos miudos, não sabemos nada de nada, mas temos as nossas ideias, dizem-nos o que existe lá fora no mundo, e nós vemos tudo e mais alguma coisa. Vamos percebendo aos poucos o que tudo aquilo é, e significa, só que há coisas que nos deixam intrigados. Para que serve aquilo tudo em geral e porque existe? Para mim a solução era afastar-me do mundo, demasiado complicado para perceber. Eu tinha a certeza que lá eu ia conseguir encontrar pessoas dispostas a explicarem-me como o mundo funciona como se tudo fosse novo para mim. Afinal era tudo novo não era? Uma vida nova, dedicada a uma causa, uma fé de que existe algo para além desta caminhada que fazemos diariamente pelas ruas das nossas cidades, pelas divisões dos nossos apartamentos amontoados uns sobre os outros. Ora Bolas! tinha que se estampar na minha cara a realidade de que não havia nenhuma vida diferente lá dentro, e a verdade é nunca ninguém me tinha dito que havia. Eu levei a concluir isso, das coisas que me mostraram sobre nós, as pessoas, que havia um significado superior da nossa existência. Hever, talvez haja, mas ao longo da minha vida a minha grande preocupação será sempre a minha existência pessoal. Ninguém me vai dizer ao certo o que fazer, nem como funcionam as coisas, porque ninguém sabe na verdade. Lá no Convento ensinam aquilo que lhes ensinaram, cada um à sua maneira. A rotina é importante e é para cumprir e as regras são simples, e são todas para cumprir.
Eu precisava de ir mais fundo, era afinal, Deus que eu queria conhecer. Os humanos falaram dele desde sempre, desde o momento em que ele os criou. Havia a teoria da evolução obviamente, mas sempre me proibiram de pensar dessa forma. Esse foi certamente um dos primeiros motivos da minha revolta. Essa castração de pensamento de que só os cristão ortodoxos é que podem alcançar a sabedoria divina e salvarem-se no dia do juízo final. Com tanta gente no mundo como é possível haver apenas uma verdade e uma forma de a ver. Eu tive que me afastar muito do pensamento ortodoxo para conseguir entender isso. Nesse momento a minha revolta era baseada no facto de não conseguir atingir a prometida paz de espírito através do jejum e da oração. E sabendo que havia tanta gente no mundo eu não me questionava sobre a credibilidade da minha religião, eu preocupava-me em transmiti-la ao maior número de pessoas possível, antes que fossem todos para ao Inferno. Era muito importante perceber bem, o que era Deus, para explicar às pessoas já que a Verdade estava toda no Ortodoxismo e assim que as pessoas soubessem elas iam perceber o significado das suas vidas, e iam ficar felizes para sempre. É claro que eu não colocava a hipótese de haver muitas pessoas, muito mais bem informadas que eu.
Eu queria aprender mais, e queria divulgar a minha fé, e pus-me a traduzir textos de brochuras de russo para portugês, já a o Ortodoxismo não era muito popular em Portugal. Isso levou-me a trabalhar com a M. Evfrosínia no escritório que em vez de um 2.86 num recanto escuro passou a ter um 2.86 3 um 3.86 numa sala ampla e iluminada. Houve uma coisa que me chamou a atenção numa conversa ocasional com ela. Ela dizia que Platão, muito antes do nascimento de Cristo, já falava da trialidade da natureza Divina. A Santa trindade, é a base daquilo que os ortodoxos acreditam sobre Deus. Pai, Filho e Espírito Santo. Eu demorei menos tempo a perceber de que se tratava de uma metáfora, do que a questionar-me sobre a credibilidade da religião que eu estava disposta a pregar. Muito menos tempo na verdade, pois a única forma de o explicar seria através de uma metáfora. Isso aproximou-me bastante do fundo da questão. Eu descobri num livro sobre o Concílio de Florença uma metáfora muito interessante que explicava como coexiste a trialidade em Deus. A hierarquia da Santa Trindade foi um dos assuntos debatidos nesse Concílio, sobre o qual não se chegou a consenso e que foi uma das razões da separação entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa. Os Ortodoxos defendiam que o Pai estava no topo, e que Dele se manifestava o Filho e o Espírito Santo como duas Entidades distintas e separadas sem a capacidade de se manifestarem, nem de manifestarem a entidade do Pai. Não foi bem por estas palavras, mas foi mais ou menos essa a ideia que eu captei. Os Católicos diziam que O Pai se manifestava no Filho e que também através do Filho se podia manifestar o Espírito Santo. Houve um cardeal da Igreja ortodoxa que se opôs fortemente aos argumentos apresentados pela Igreja Católica e lutou utilizando as suas palavras para provar a opinião que defendia. Ele comparava a natureza Divina com a mente humana em que a mente gera um pensamento e que com esse pensamento existe uma intenção, algo por detrás, talvez como a personalidade, e esse algo, que ele caracterizava como o Espírito Santo, manifetsava-se através da mente e coexistia com o pensamento, mas nunca de outra forma. Sinceramente, quem se manifesta através de quem são questões demasiado filosóficas, podem-se debater até mais não, mas não deviam condicionar a salvação de uma alma que não pertença ao grupo correcto de crentes. No entanto não foi nada disso que eu retive, eu fiquei fascinada com a metáfora da mente. Imaginei-a como Pai e o pensamento como o Filho e a Intenção como o Espírito Santo e imaginei ser capaz de entender como tudo isso funciona e como se manifesta no todo.


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