Publicado por: almofadas | Fevereiro 13, 2012

Induzida em erro pelo mesmo pensamento vezes e vezes sem conta

Eu sei que isto tudo é suposto levar a algum lado. Também sei que não o aparenta, porém, é me impossível de desistir desta ideia, porque a cada dia que eu vivo, cria-se esta perspectiva de algo a acontecer. Tanto-me faz se é importante ou não, pois é importante dentro do meu mundo, para mim e para as pessoas que estiverem comigo. Eu sou péssima a julgar as pessoas, Eu parto sempre do princípio que todas as pessoas têm razão do seu ponto de vista, e respeito isso profundamente. Sou contudo, facilmente enganada e manipulada, susceptível a assumir todas as culpas que que me queiram atribuir ou não, e a responder a todos os pedidos. Eu não sei porque funciono desta forma, eu acredito nas pessoas à palavra, e sem palavras tenho a tendência de imaginar situações que pouco correspondem à realidade das coisas ou a deixar passar coisas realmente relevantes.
Cada pessoa tem algo a provar aos outros, que manifesta diariamente através da sua postura e das suas atitudes. A Irmã Tânia, por exemplo tinha aquele ar de rapariga despachada, mas parecia-me afastada emocionalmente, não falava muito sobre ela, nem sobre as suas origens. Aliás, ela dizia que teve um acidente aos nove, caiu de cabeça do segundo andar e não se lembra da sua vida antes desse acontecimento. Por outro lado tinha uma relação bastante próxima com muitos dos peregrinos. Contou-me a Irmã Eulália que a mãe dela, Irmã Sofia, era pega e teve vários filhos que abandonou, e que elas as duas recebiam dinheiro de muitos dos peregrinos que visitavam o convento, por caridade. Pondo neste contexto parece que elas prestavam serviços especiais, mas eu sinceramente não acredito que fossem dissimuladas a esse ponto, e questiono também o boato da Irmã Eulália, ainda para mais pelo facto, de ser indiferente a vida passada de uma pessoa que escolheu a fraternidade do convento. Quanto ao dinheiro, comprovava-se que elas o possuíam e que o recebiam regularmente, principalmente aquando das visitas de peregrinos em dias de festa e também pelo correio. As pessoas dissimuladas sempre me fizeram muita confusão, porque são pessoas que eu não consigo perceber. Algumas pessoas que para mim, é como se usassem uma cápsula protectora que não me permite olhar para elas, mas apenas para os seus actos, que são contraditórios. Invejo-as por outro lado, parece que têm tudo tão bem planeado, as suas acções são estudadas que as levam exactamente aonde elas querem. Ora eu não sou assim, não tenho a noção, a consciência dos meus actos e não consigo planear “golpes” que permitam tirar o máximo partidos das situações. O melhor que eu consigo fazer é alinhar com a corrente, tendo uma vaga ideia do lugar para onde essa me leva. E consigo o que eu quero, meramente em traços, nada de concreto, todas as fantasias concretas revelam-se em total fiasco. Eu trabalhava no escritório, juntamente com a mais importante das Madres, eu era a única irmã sem carta de condução que viajava sozinha para Paris para resolver assuntos pessoais, eu era uma das cinco pessoas do convento que podia atender o telefone, algumas pessoas invejavam isso. Terei eu chegado a esse posto estudando cautelosamente o meu percurso, – no way – simplesmente acnteceu, eu nunca imaginei, nem nunca me senti vangloriada, simplesmente fazia o que tinha que fazer. Também chorava muito dos momentos de solidão, e não via coisas que aconteciam. Talvez agora olhando para trás eu vejo, que me saí extremamente bem naquele meio, em tão pouco tempo. Sem dúvida que teria um bom futuro no convento se não me deixasse cair em nenhuma tentação. Não admira que a Madre Evrosínia tenha ficado tão desolada comigo quando percebeu que não haveria maneira de me fazer ficar, ela viu em mim algo que eu não vi. Provavelmente até algo que nunca mais ninguém viu. Eu caí na tentação de sair. Eu vacilei, vacilei, tentei resistir, e cheguei à conclusão que não se tratava de uma mera tentação. Eu pensei da mesma forma que no momento em que fiquei lá, e em tão pouco tempo já me tinha esquecido dos pensamentos que me levaram a fazê-lo. Viver a vida era possível apenas fora do convento, lá dentro não havia mais nada para viver do que aquilo que eu já tinha vivido em três anos, mas vezes e vezes sem conta na rotina anual que compõe a vida da freira. A Madre Efrosínia disse-me que dificilmente eu teria uma vida tão rica e diversificada no “Mundo”. Quem sabe, ela terá o seu ponto de razão, mas isso é tão relativo. Na altura eu sentia que não tinha vivido nada. Agora parece que vivi mais do que uma vida e delas também aquelas que preferia não ter vivido. Na altura eu achava que todos tinham coisas para contar menos eu.


Responses

  1. Certamente que agora tens uma maturidade muito diferente. Crescemos sempre a cada passo. E nao penses que te falta atitude. O comportamento e’ a unica coisa que nao tem contrario. Ou seja, mesmo um silencio pode dizer bastante mais que palavras. Alguem famoso disse um dia que so os peixes mortos seguem sempre a corrente. Se tivesses optado pela vida no Convento, serias tao lucida como hoje ? Escreverias em Portugues com esta fluencia bonita das palavras? Terias os entes queridos que tens hoje? Saberias olhar para traz e ver-te ? Sentirias respeito por ti propria ?
    Gosto sempre muito de te ler

    • Obrigada Luis!Eu não me arrependo te der deixado o convento Sinto-me angustiada, é com a opção de escolha, e não percebo porque motivo, por mais escolhas que se faça a vida continua a soar nas mesmas cordas. POrque nunca consigo chegar onde quero. Fora do convento a vida é sem dúvida mais difícil, mas isso não quer dizer que seja pior. O convento fez-de mim, a pessoa que sou hoje juntamente com tudo o resto, e se eu gosto ou não, sinceramente não sei. De uma forma ou de outra eu tenho que lidar com isso.
      Escrever é uma maneira de o fazer.

  2. Continuo a achar que devias escrever a historia e publica-la. Para alem de ser algo diferente e muito cativante serviria como estimulo de realizaçao pessoal. Pensa nos teus descendentes quando forem capazes de ler-te. Pensa nos amigos e familiares que te vao admirar e provavelmente respeitar melhor o teu percurso na vida. E acima de tudo pensa no efeito catarse que teria em ti essa coragem de abrir uma historia que afinal e’ uma parte importante da tua jornada. E’ ainda mais admiravel porque estas a escrever numa lingua estrangeira. E ja sem erros. Notavel em todos os aspectos.


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