Publicado por: almofadas | Fevereiro 16, 2012

Um habitante novo no convento

Irmã! Estas a perder tempo. Estas a perder preciosos minutos da tua vida. Lembra-te, cada vez que ouves tocar um sino aproxima-se a hora da tua morte e o que fizeste tu com a tua vida. Estas eram as palavras motivadoras que eu utilizava para não me afastar do conceito de vida que tinha escolhido. O tempo imparável era o que mais me afligia. O tempo que podia ser usado para fazer rigorosamente nada ou aproveitado ao máximo. Havia uma palavra que me aparecia constantemente nos livros que eu não era capaz de traduzir “pazdnost”. Esta palavra traduzia um estado de espírito, contra o qual eu lutava constantemente. Derivada da palavra “prazdnik” – festa esta palavra significava, no seu sentido mais directo, preguiça. Traduzia um estado de espírito que apenas era permitido em estado de festa. Acontecia quando uma pessoa  deixava de controlar o que fazia e se deixava, por assim dizer desleixar. Imaginar que se anda numa praia ao por do sol em vez de concentrar a mente na oração podia ser considerado preguiça a não ser que o objectivo do passeio pela praia fosse a apreensão da grandeza divina. Qualquer pensamento era permitido, desde que não me afastasse de Deus. Meio ano de esforço mental constante tinham-me levado a um estado de angustia. E a consciência de que que fora do contexto do convento eu sem me dar ao trabalho de me questionar sobre o certo e o errado deixava-me levar por um impulso, pela promeça de diversão davam-me a entender a minha fraqueza. Essa mesma diversão, esse estado de espírito em que se deixa de lado a consciência, as preocupações. Sabia tão bem desligar-me de tudo não me preocupar com nada. Não me preocupar em amar os meus inimigos, nem os meus amigos, não pensar em Deus, não pensar no futuro nem no passado, não me lembrar das coisas que eu tinha feito ou deixado de fazer, não me preocupar com a hora da morte, nem com o que aconteceria depois disso ou não. Eu podia deixar a minha mente vaguear, um bocadinho, desde que não fosse longe demais, apenas para descansar. Imaginar alienígenas em vez de pessoas à mesa, a via láctea na espuma que lavava os pratos, ou a reacção da Madre se eu resolvesse tomar banho dentro da pia da loiça. Fazia-me rir. A esponja escorregava pelos pratos e travessas, colocava-as cuidadosamennte no tabuleiro da loiça, secava com um pano a loiça quente e fumegante que saia da máquina. Entre espuma e calor a minha mente deslizava facilmente e de relance eu imaginava o corpo quente de um homem. Nã mais do que isso. Lamentava-me em seguida. Quem sou eu. como pode surgir essa imagem na minha cabeça, não posso.

Esta luta contra o desejo físico, dentro de paredes habitadas apenas por mulheres era uma luta estranha, quase insistente, na verdade, de tão silenciosa e individual que era. Não é que me atormentasse assim tanto, mas os elevados parametros de consciência a que eu me propunha não me podiam permitir, nunca que o meu pensamento vagueasse por esses caminhos. Aconselhava-se às freiras que nunca olhassem para o seu corpo, nem mesmo quando tomavam banho. Que evitassem olhar para os homens. Houve um rapaz lá no convento que me atraiu especialmente a atenção. Ele visitava o convento em épocas de festas maiores e tinha participado num congresso de canto. Foram os cigarros dele que eu enrolei para mostrar que antes de ir para o convento eu também fazia cenas como fumar cigarros, ou tocar guitarra. Eu não era a única naquele meio que tinha reparado no Germain. A Irmã Tânia escondia pouco a atração que sentia por ele, e a Marussia, que naquele tempo ainda não tinha decidido dedicar-se à vida conventual, admitiu mesmo estar apaixonada por ele. Entretanto eu apercebi-me que o que chamava mais a atenção dos que visitavam o convento, era uma freira que se isolava, serena, de olhar baixo, compenetrada na oração. A devoção era o que combinava melhor com a vestimenta negra. Sempre que eu via algum ser masculino que me chamasse a atenção eu desviava o olhar e tentava parecer muito compenetrada nos meus pensamentos, evitava olhar sobretudo, sme ser às escondidas. A Irmã Eulália, admitiu sentir-se atraída por um jovem que também visitava regularmente o convento. Por acaso era um bonito exemplar. Ele era Servo pele branca e cabelo escuro, comprido e encaracolado com caracóis pequeninos olhos azuis, lábios carnudos, era devoto à religião, tinha concluído o seminário e procurava provavelmente uma mulher para casar, já que na Igreja Ortodoxa um homem que queira ser padre mas não queira ser monge, deveria casar antes da condecoração. A Irmã Eulália imaginava muitas vezes que casava com ele e que juntos tinham uma paróquia e uma família. Eu penso que forma de fugir a qualquer pensamento sexual no contexto da religião era substituído pelo desejo do casamento, já que após o casamento a sexualidade deixava de ser pecado. Para além do Germain, que de qualquer maneira era demasiado concorrido, havia outro visitante que me chamava a atenção. Era um rapaz igualzinho ao Leonardo Dicaprio, sorria sempre para mim, e eventualmente aproveitava para me perguntar alguma coisa para meter conversa. às escondidas eu imaginava por vezes que ele me pedia em casamento, e eu aceitava, mas quando o via baixava os olhos e corria a sete pés. A sua fisionomia deixava-me sem jeito eu tinha medo que os meus pensamentos fossem denunciados.

Muitas noviças tinham dúvidas quanto ao seu percurso de vida, se, se tornariam realmente freiras um dia, ou deixariam o convento para casar com um homem ortodoxo. Vendo que isso era normal a minha consciência ficava mais tranquila, e eu lembrava-me que me tinha comprometido a um ano de convento para decidir o que fazer. O ano ainda estava longe de acabar. Para compensar os meus deslizes mentais eu tornava-me cada vez mais devota ao cumprimento das obediências. Eu achava que ser dissimulada ao contrário era muito pior, como podia alguém ter uma alma pura e uma consciência tranquila quando se desleixava no cumprimento das obediências. A Irmã Tânia, por exemplo, era muito desleixada, e eu caía na tentação de a julgar quando ela deixava a loiça mal arrumada ou se escapava antes de terminar a tarefa deixando-a para outra pessoa acabar, ou em vez de lavar os jarros e trocar a água limitava-se apenas a reenchê-los. O meu perfeccionismo na realização de qualquer obediência levou as pessoas a confiarem em mim e a deixarem-me trabalhar na maior parte das vezes sem supervisão. Era na verdade a minha forma de conseguir liberdade para ter um leque de obediências mais diversificado.

No meu primeiro Outono no convento, eu tinha a liberdade de escolher se pedia a benção da Madre para ir apanhar folhas ou se ia para pomar adubar as framboesas. Depois de me despachar na copa, eu podia ir estudar para a minha cela, ou se a Madre Evrosínia estivesse ausente do seu recanto, podia ir traduzir os meus preciosos textos para converter portugueses ao ortodoxismo. A primeira brochura que eu traduzi, retratava em traços gerais o caminho para o Reino Céu. Se não me engano era mesmo assim que se chamava, a mim convenceu-me profundamente e eu estava convencida que iria convencer também as outras pessoas. A segunda brochura que eu traduzi foi sobre os anjos. A terceira brochura chamava-se “O Dragão de Sete Cabeças” e descrevia de que forma é que a religião ortodoxa estava certa em relação a outras seitas e religiões. Eu nunca cheguei a traduzir esta na totalidade, foi na verdade o fim ao meu desejo de pregar e convencer todos de que a religião ortodoxa era a única correcta. Aconteceram outras coisas entretanto. Foi ainda antes do Natal que o convento adquiriu mais um habitante masculino. No convento viviam apenas dois homens descomprometidos. O Ivan filho do Padre Constantino e da sua Madre – Tatiana. O Ivan era meu amigo e a madre Evrosínia conhecia-o desde bebé. Ele era de total confiança, já nos tínhamos tornado amigos antes de eu ser noviça, e não havia problema algum se eu estivesse a sós com ele no seu atelier de pintura/quarto. De vez em quando eu ia ter com ele para conversar, pintar ou tocar guitarra. Desde que não o fizesse demasiadas vezes, não havia problema. O outro homem que vivia lá era o Romão. Era ucraniano e emigrante em França, vivia no convento em troca de mão de obra ajudando o Leonid Borisovich em todas as reparações e obras que fossem necessárias. Ele era bastante reservado e eu nunca falava com ele. O filho de Leonid Borisovich e da Raissa Petrova, Serguei costumava passar o verão no convento e também ajudava no que fosse preciso. Ele era divertido e as vezes juntava-se às irmãs na mesa redonda junto à copa, bebiamos chá e contávamos anedotas. Ele também nunca tinha comprometido a confiança das Madres e o convívio com ele era autorizado, qb. Mas este visitante era diferente de todos os outros. O Andrej, filho da Noviça Galina, veio visitar a mãe que não via há alguns anos. Ele não era o exemplar da raça humana mais bonito que eu já tinha visto, mas havia alguma coisa nos seus olhos azuis que me atraiu imediatamente. Veio de Berlim e iria ficar no convento durante algum tempo. Ele não era ortodoxo. Apesar de não ser costume a Madre Macrina abençoar a estadia de uma pessoa não ortodoxa no convento, para ele foi aberta uma excepção.


Responses

  1. Outra caracteristica das boas obras literarias e’ esta ; Um leitor fica com vontade de saber o que vem a seguir. Isso e’ extremamente bem explorado nas novelas e Soap operas na televisao.
    And you got it

  2. Foi o que eu pensei, por esta razão é que me pareceu bem introduzir esta personagem que foi extremamente importante para a história, logo no inicio, e só mais tarde contar como eu a conheci. Penso que o livro vai ser bastante saltitante e independentemente da ordem cronológica dos acontecimentos, vou conseguir criar a imagem total que procuro.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: