Publicado por: almofadas | Fevereiro 16, 2012

Um pequeno deslize

O hábito de procurar palavras no dicionário veio do convento derivado das traduções, onde eu utilizava um dicionário de russo-francês e depois pela palavra francesa procurava o significado exacto no dicionário de língua portuguesa da porto editora. Grande força de vontade. Eu sentia saudades da língua, penso eu. O que acontece é que em russo as palavras e as expressões são tão bonitas, tão bem combinadas. Pelo facto de conhecer as duas línguas sinto-me praticamente obrigada a traduzir. É como se não me sentisse completa sem ouvir aquelas palavras nas duas línguas, e por vezes fazer soar a mesma frase da mesma maneira em duas línguas diferentes, não é tarefa fácil, mas é fascinante. Traduzir uma frase ajuda-me a compreender o seu profundo significado. Ainda hoje adoro fazer traduções de russo para português, mas sou completamente incapaz de traduzir ao contrário de português para russo. No entanto eu penso que por mais bem feia que seja uma tradução, não traduz nem um terço da alma do texto na língua original. Há um facto que deriva de toda a história cultura e vivência do país que é impossível perceber se não a viveste. Nesse sentido a minha alma é russa. É em russo que eu sinto a nostalgia, e em português, são muito poucos os artistas escritores que falam uma linguagem que eu apreendo. Mas é em português que eu escrevo, e que as palavras fluem de uma maneira que dá vontade de continuar a escrever.

Eu sempre tive muita dificuldade em me integrar. Na Rússia porque tinha a pele e os cabelos escuros. em Portugal porque era russa e não conhecia os hábitos e costumes das pessoas. Na infância porque não me levavam a sério, na juventude porque a mentalidade religiosa da minha mãe não me deixava acompanhar as tendências. Quando me tornei um bocado mais adulta continuei a não me integrar porque a minha forma de pensamento simplesmente não se enquadra, e as conversas banais sobre tendências aborrecem-me. Eu pensei que no convento esse problema ficaria resolvido, porque todos são aceites.  Ora, lá eu passei por diferentes fases. Primeiro o zelo extremo de me tornar numa freira exemplar, depois a consciência de que isso seria muito mais difícil do que me pareceu ao início. Em seguida veio uma fase de relaxamento, em que me era indiferente se me tornaria numa boa freira ou não em consequência desta veio uma de arrependimento, por ter deixado o zelo conventual. Outro estado de espírito surgiu quando me dediquei a explorar o zelo pessoal em tudo o que fazia independentemente de ser relacionado com a oração ou não. Percebi que a dedicação física à vida era mais relevante para o bem estar da mente do que dedicação espiritual. Foi nesta altura que comecei a testar os limites da ligação espiritual com o mundo físico e percebi que ambos não são co-dependentes, nem directamente proporcionais. Na verdade para estar bem com a minha consciência bastava cumprir com os horários e as obediências independentemente do lugar onde andasse a minha cabeça. No convento é fácil limitar as opções de escolha. A vida sem obediências é muito mais matreira, é necessário estar sempre a decidir o que fazer e na maior parte das vezes não há ninguém que aprove ou desaprove as decisões tomadas. Com uma obediência a cumprir há sempre aquela satisfação de saberes que a cumpriste devidamente, e mesmo que ninguém o diga. Com o pensamento é diferente, o pensamento é desobediente por natureza, e só o saberá quem o tenha tentado domar. No entanto, para a integração social, apenas importa de limpaste bem o corrimão, e se a escada ficou bem polida. Durante o processo podes ter lido cinquenta “Pai Nossos” ou ter estado a correr numa praia iluminada pelo pôr do sol. Quando servia a refeição ao peregrinos e madres eu podia imaginá-los de maneira diferente. Uma sala cheia de alienígenas pegajosos de tentáculos e formas estranhas de consumir a comida, desde que eu mantivesse a serenidade no olhar e nos gestos era indiferente o que eu via. Depois de alguns meses  no convento, e já integrada pela roupa escura, a rotina começou a ser verdadeiramente aborrecida, e eu tentava escapar-lhe de alguma forma. O silencioso grito de desespero quando soava o sino da vigília às quatro da madrugada por saber que só à noite voltaria a dormir, foi substituído pelo corrosivo sentimento de culpa, devido ao facto de me ter deixado dormir e faltado à vigília. Depois de algumas penosas faltas compreendi que não eram assim tão graves. Não é que alguém me viesse repreender por isso, havia irmãs que  nunca faltavam, mas havia outras que faltavam de vez em quando e isso era normal. Quando percebi isso já se tinha passado muita coisa. O primeiro congresso de canto, de ropinha negra acabada de vestir. Duas semanas na Bretanha em casa da Valéria. Essas foram totalmente concebidas para me tirar dos eixos. Eu fui para lá para estudar física, química e matemática e avançar um pouco no curso por correspondência que eu estava a fazer. O pai da Marussia e da Valeria, é doutorado em física e ajudou-me a estudar durante a primeira semana que eu estive lá. Na segunda semana a família aproveitou a minha presença para não deixar a Valéria sozinha em casa e deixando-nos as duas foram passar uma semana ao convento. A Valeria estava proibida pela Madre Superior de entrar no convento, depois de ter enviado pelo correio uma caixa com coco humano num prato ao Leonid Borisovich. Assim que os pais se foram embora, eu e a Valéria começamos a fazer planos. Estava um dia de chuva que se desenvolveu até ao final da tarde num autêntico temporal, mas nós queríamos aproveitar o tempo ao máximo, e o que nos apetecia fazer era comprar tabaco e ir sair à noite. Em primeiro lugar  eu despi a roupa de noviça para voltar a vestir as minhas calças de ganga que entretanto passaram a ser da Valeria, depois fomos a pé à aldeia vizinha comprar tabaco, foram seis árduos quilómetros (três para lá e três para voltar) feitos à chuva e ao vento,  por estradas que atravessavam campos vazios. Contentes, com um maço de 40 cigarros no bolso, voltamos para casa já de noite. Há cerca de um quilometro pela estrada principal, havia um bar que abria ao Sábado, era Sábado naquele dia, e a nossa única oportunidade de sair. Felizmente a chuva e o vento tinham abrandado, estava uma noite calma estrelada e nós já arranjadinhas partimos pela estrada em direcção ao bar. Quando lá chegamos tinha acabado de abrir e a diversão ainda não tinha começado. Pedimos uma imperial ao balcão, pois apenas tínhamos dinheiro suficiente para uma, que dividimos entre as duas. Entretanto o bar encheu e eu olhava para todos aqueles jovens, tão despreocupados, bebendo e dançando. Sentia-me tão livre nessa noite, tão despreocupada e desprendida de tudo, tão confiante de mim mesma. Ataquei a pista de dança e dancei durante algumas horas. A Valeria não dançou muito porque estava confinada a uma cinta de gesso na coluna, devido a um acidente de carro que tivera há pouco menos de um mês. A maioria dos jovens daquele bar pareciam-me bastante bimbos, os rapazes na sua maioria eram feios e as raparigas dançavam mal. Entretanto comei a atrair a atenção dos rapazes, e de muitos que vieram dançar comigo escolhi um que me pareceu mais giro, dancei com ele, e acabamos a noite no marmelanço dentro do carro, com os amigos a darem-lhe dicas pela janela, enquanto ele tentava conversar comigo, num francês bretão para me convencer a desapertar mais alguma coisa para alem do botão das calças. Não me pareceu correcta nenhuma intimidade maior naquele ambiente, nem quis ficar com o seu contacto, por mais que ele insistisse.  No dia seguinte acordamos aborrecidas, tivemos pena de não termos ficado com o contacto dos rapazes. Procurando algo de interessante para fazer naquela terra absolutamente entediante, passeamos, passeamos e passeamos, durante toda a semana. Arrombámos a janela de uma casa desabitada, e andamos a vasculhar coisas que não eram nossas à procura de acção. Roupa, loiça ferramentas, nada de interessante, sem ser algumas garrafas de aguardente de cidra, que deram origem à minha maior bebedeira de todos os tempos. Por voltas das onze da manhã, de um dia qualquer, tínhamos regressado da nossa expedição à casa desabitada com uma garrafa de litro de aguardente de cidra, conhecida pelo seu forte teor alcoólico. Bebemos meia garrafa muito depressa e fomos dar um passeio até à aldeia. Infelizmente não me lembro de muita coisa, apenas o suficiente para saber que foi vergonhoso, não me lembro de ver ninguém, mas soubemos mais tarde que fomos vistos por muitas pessoas. Os fragmentos de memória que retive contam-me o seguinte. Chegamos à aldeia na esperança de encontrar aventuras e fomos até ao campo de futebol que estava vazío. O álcool batia tão forte na cabeça que  me lembro de utilizar uma das mãos para me apoiar no chão enquanto andava. Depois pensei que ia entrar em coma e morrer, e pedi perdão a Deus persistentemente rezando “Pai Nosso” e “Avé Maria” para que me poupassem, enquanto vomitava agarrada a um pinheiro manso. No caminho de volta a casa bebi muita água da valeta à beira do caminho, a sede era muita e não havia mais água em lado nenhum. Sobrevivi, devem ter sido as orações.

Este foi o meu primeiro deslize. Pouco tempo depois do meu regresso ao convento, soube que a história se tinha tornado pública. Aparentemente os pais da Valeria pediram aos vizinhos que mantivessem um olho em nós e eles assim o fizeram muito atentamente, só faltou a documentação fotográfica. A história chegou em segunda mão aos ouvidos da minha mãe, e através dela à Madre Evfrosínia, a Madre Superior nunca chegou a saber. Eu prometi que me arrependia profundamente pelo sucedido e que não me voltaria a comportar da mesma maneira. Devo dizer que álcool no contexto do convento é muito destrutivo. Ouvi outros relatos sobre os problemas causados pelo excesso de álcool no organismo de outras irmãs. A Irmã Natália, alemã, gostava muito de beber um copinho de vez em quando, e já teve a sua parte de vergonha nos corredores da mansão. Geralmente as irmãs encobriam qualquer eventualidade, se uma freira desmaiasse de bêbada fora do quarto, haveria outra irmã que a levaria ao aposentos sem que se soubesse muito mais. A irmã Sofia também teve uma aventura engraçada que eu presenciei. Foi andar de bicicleta depois de um almoço festivo em que se serviu vinho à refeição, acabou por adormecer caída numa valeta agarrada ao seu meio de transporte, e foi trazida de volta pelo Presidente da Junta. Não havia nenhum castigo especifico para esse tipo de acções. O castigo era a auto repreensão e a vergonha. Confessava-se qualquer pecado ao padre, o padre perdoava e tudo voltava aos eixos assim que a consciência voltasse a estar tranquila. Depois destas pequenas férias eu voltei às minhas obediências, à minha rotina. Voltei aos estudos, às traduções, ao dicionários. Foi aí que me foquei  verdadeiramente nas tarefas. Manter-me ocupada parecia ser a solução.


Responses

  1. Fez-me sorrir . Varias vezes. Esta espectacular e acho que e’ nesta mesma toada que O Convento vai ser um livro de sucesso.
    Este deslize podia mesmo ser o inicio da historia.
    E mais uma vez parabens pelo teu Portugues. Tambem tenho enfrentado essa enorme dificuldade de traduzir expressoes e significados noutras linguas. E’ por isso mesmo que nao consigo fazer a traduçao do Anjo de Guarda. Por falar nisso…ja o leste?

  2. Ainda não li. Não li livro nenhum este ano, e acho que não vou ler enquanto não acabar o meu.🙂

  3. Fair enought

    • mas logo a seguir eu prometo que será o primeiro que vou ler

  4. Vou brevemente a Portugal. Gostava de to oferecer. Apesar de ter sido escrito num estado extremamente delicado( fisicamente e emocionalmente) acho que fala essencialmente de amor. Nao sei bem. Ainda nao o consigo ler.


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