Publicado por: almofadas | Fevereiro 17, 2012

A história do gato imaginário

De lágrimas nos olhos, eu fazia mais uma vénia olhando nos olhos a Santíssima iluminada pela chama da lamparina que impecavelmente limpa nessa manhã, já tirara a vida a algumas melgas e uma traça. Sentei-me na cama segurando o terço sem contar os nós. Respirei fundo. “Abençoados os que choram, pois serão consolados”. Parecia-me uma recompensa demasiado pequena para tantas lágrimas, tantos gritos abafados. Não, isto não está a dar resultado, estas vénias, estas cabeçadas no chão da minha cela, os pés gelados na água do pântano, estas preces. Não serve de nada pedir ajuda, esperar que miraculosamente ela apareça. Tenho que ser eu, senão é mais uma perda de tempo.

– Eu choro muito  – dizia-lhe eu sentada na sala ampla da biblioteca dos livros modernos, em frente à máquina de escrever.

Estávamos  apenas nós os dois naquela sala, eu com o meu traje negro de noviça e lenço preto na cabeça, ele com os seus olhos azuis e a camisola de lã lilás, sentado de cócaras à minha frente.

– Experimente não chorar. – Ele tratava-me por Você.

– Como é que eu faço isso? Eu quero tanto não chorar, mas nunca consigo.

– Não chore e pronto, é uma questão de experimentar.

Depois não sei bem como fluiu a conversa, mas ele acabou por me contar uma história que aconteceu com ele, em que ele experimentou materializar um gato imaginário.

– Eu fiquei em casa de um amigo que tinha ido passar o Verão fora de Berlim. Tinha a casa inteira totalmente à minha disposição, e resolvi não sair de casa o Verão inteiro, sem ser para ir buscar mantimentos. Passado algum tempo comecei a ficar aborrecido de estar sempre sozinho e resolvi imaginar que tinha um gato.

– Imaginar como?

– Eu andava pela casa e imaginava o que ele estava a fazer, como ele se roçava na porta, como se lambia sentado no meio da cozinha, como dormia aproveitando o sol no parapeito da janela. Eu resolvi ter um gato, e tive um gato.

– E conseguiu vê-lo?

– Sim, bastante bem, primeiro o gato era meio transparente e só aparecia de vez em quando, mas com o tempo começou a ganhar confiança e a ficar mais nítido.

Eu sorria a olhar para ele, e era impressionante, porque eu conseguia olhar para ele sem complexos nem remorsos, com tanta naturalidade, como se por mim olhasse  a minha alma. Ele continuava:

– O gato já estava comigo há algum tempo, eu pensei que devia dar-lhe de comer e fui comprar comida para o gato.

– Comida de gato mesmo?

– Sim, lembro-me de me sentir ridículo no supermercado a escolher uma latinha de comida de gato para o meu gato imaginário enquanto uma senhora comprava comida para o seu gato verdadeiro.

– E ele comeu? A comida desapareceu do prato?

– Não sei bem… Mas aconteceu outra coisa. Eu pensei que se ele tinha comido ia precisar de ir à casa de banho e fui à rua procurar areia e um recipiente. Dei por mim a vaguear pelas ruas à procura de uma caixa para encher com areia, quando de repente, algo-me disse – Não, não podes! – Eu voltei para casa e disse ao gato – Não há casa de banho para ti.

– E ele?

– Ele olhou para mim e disse-me que lhe tinha dado de comer e que agora ele precisava da caixa para fazer cocó.Eu disse lhe que não ia buscar caixa nenhuma.

– E depois, ele fez cocó no chão?

– Não, ele disse-me  que se eu não fosse buscar a caixa de areia, ele ia-se embora e eu não ia voltar a vê-lo. Tive que tomar uma decisão que não foi  nada fácil.

– Nunca mais o voltou a ver?

– Naquele momento senti que estava a pisar uma linha muito perigosa, penso que se tivesse cedido passava para o lado da loucura e não conseguiria voltar.

Fascinante pensei eu, podemos andar mesmo no limite, desde que  se tenha o cuidado não passar para o lado de lá. Afinal talvez seja possível espreitar sem consequências. Eu sentia-me constantemente no limiar da loucura, talvez a loucura de que ele falava não fosse  loucura de todo. De que me servia manter-me dentro dos parâmetros da normalidade estando confinada a uma existência de angústia e desespero agarrada às orações sem resposta. Quanto esforço seria preciso para que tudo em que eu me esforçava por acreditar se tornasse real. Nós estávamos ali na conversa há algumas horas, não era suposto eu estar a sós numa sala com um homem. Tinha estado a judá-lo a escolher alguns livros com a Madre Alexandra e depois nem sei bem como, estávamos ali. Ficamos parados a olhar um para outro, eu pensava na meditação queria experimentar abstrair-me de tudo e ficar assim, achava que nunca mais me aborreceria se o conseguisse fazer e me deixasse levar pela respiração.

– Os teus olhos dizem muita coisa. – Disse-me ele. – Sabes que o olho de uma pessoa tem mais terminações emissoras de informação do que receptoras, mas os cientistas ainda não conseguiram estudar na totalidade a sua função.

– É verdade que por vezes basta olhar os olhos de uma pessoa para lhe dizer muita coisa sem usar palavras nenhumas.

Era fantástico ter finalmente alguém que me entendia tão bem, que antecipava o meu próprio pensamento, ele ali fazia tanto sentido, que eu nem reparei no olhar repreendedor da Madre Pelaguia, quando me cruzei com ela no corredor conduzindo o Andrej à saída.


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