Publicado por: almofadas | Fevereiro 19, 2012

A Roupa Negra da Noviça

A Páscoa nesse ano festejou-se no dia 19 de Abril, logo a Festa da Santa Trindade, a Espiga, veio no dia 7 de Junho. Estava quase a chegar o meu aniversário. Acontecera tão pouco mas tanto ao mesmo tempo desde que retornei do aeroporto Charles de Gaulle para ficar no convento. A minha vida tinha mudado totalmente, mas eu continuava viva e as mesmas garras me arranhavam a alma, as mesmas plumas pairavam à minha volta. Estava tudo muito melhor, no entanto, penso que não estava feliz pelo aniversário, apenas por completar mais um ano, e me tornar um ano mais adulta. Afinal, ainda há bem pouco tempo, ter dezasseis parecia-me algo maravilhoso, e as pessoas de dezasseis me pareciam tão bacanas e tão adultas. Era era a minha vez de ser assim, eu estava quase a alcançar esse desejo. Não houve festa, nem bolo, nem “Muitos Anos” cantados, nem nada de especial. Havia a tradição de oferecer geados às outras irmãs no dia de aniversário, eu já não me lembro, mas conhecendo-me, penso que não falhei nesse ano, ou talvez tenha feito gelatina porque era altura de jejum, período de privação de alimentos de origem animal antes da Festa de Pedro e Paulo. É indiferente. Alguém me veio chamar depois do almoço, a Madre queria falar comigo, isso era uma grande emoção, alguém me tinha dito que me iria propor a veste negra de noviça. Pelo que tinha sido combinado de início era cedo demais, eu deveria ficar um ano no convento apenas como aprendiz de noviça, mas vontade de vestir aquela roupa lindíssima que eu própria ajudava a confeccionar no atelier da Raissa Petrovna. Aquele fato corrido até aos pés, o sinto, e o lenço, que bem que me iria ficar. Ainda para mais, usar aquele fato trabalhando e vivendo no convento era como vestir a uma bata quando se trabalha no hospital, não era nada de especial, não é que eu tivesse que fazer promessas ou algo parecido. No entanto algumas irmãs eram da opinião que vestir o “podriasnik” era já um compromisso que se tomava com Jesus.

Eu corria escada abaixo entusiasmadissima e batia à porta: “Pelas orações de todos os Santos Padres Nossos, Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de nós.” Para bater à porta da Madre Superior era necessário dizer a oração completa, se fosse a porta de alguma das outras irmãs podia-se dizer apenas “Deus nosso, tem piedade de nós”. “Ámen” – Respondia a Madre. Eu entrava e as minhas expectativas eram realizadas enchendo-me de grande entusiasmo. Quando o fato estivesse pronto, a madre iria abençoar-me com um terço e eu iria vestir o fato na minha cela e depois desceria pela escada para comparecer na minha primeira missa vestida de negro, onde todos os peregrinos me iram ver como uma das irmãs.

Todos me felicitaram nesse dia, e eu segurava muito contente o terço com que a Madre Macrina me tinha abençoado. Algumas coisas mudavam a partir do momentos que eu vestia o podriasnik, eu poderia sentar-me à mesa com as irmãs e ler as Horas na igreja durante as missas, segurar as relíquias e a Cruz durante as procissões. Mudava algo aqui dentro. A minha veste era prova que eu fazia parte daquele convento, e isso era o que eu mais queria. O que melhor me sabia era sentir que todos vinham e iam, enquanto eu ficava e fazia parte daquela estrutura tão bem formada, onde tudo estava organizado e onde todos concordavam com a obediência do fazer. Ser-te atribuída uma tarefa era uma honra. Pouco tempo depois da minha mudança de visual o meu nome começou a aparecer nas folhas do quadro de tarefas para as leituras da igreja. Eu treinava a leitura com a Irmã Eulália, ela refilava comigo.

– Tu não te estás a manter no mesmo tom, pareces a Irmã Natasha, sobes demasiado a nota no final das frases.

A leitura devia ser uma leitura monótono e ritmada, prolongava-se o som na vogal da primeira palavra da frase e depois as silabas e as palavras marcava o ritmo, prolongando a vogal depois de ter inspirado. Faziam-se pausas prolongando as ultimas palavras antes de recomeçar o novo verso. A escrita dos livros da igreja era em russo antigo, e eu rapidamente apanhei todas as letras que variavam do alfabeto russo e todas as abreviaturas de palavras que o russo antigo permitia. ler na igreja era quase tão bom como cantar. Ouvir as orações soando na minha voz pelas paredes da igreja e no ouvido dos presentes. Eu gostava de pronunciar as palavras e de sentí-las no seu profundo significado. Eu sempre achei que quanto mais atenta for a minha leitura, mais fácil será para as pessoas apreender o texto e quanto mais ciente eu for da mensagem, mais fácil será para os ouvintes encontrarem a sua.

Eu esforçava-me muito para ser uma freira genuína,  senti m toda a minha alma que essa era a minha vocação. Eu procurava a sabedoria e a iluminação interior. eu sentia que estava quase, quase a chegar aquele momento eu que eu poderia olhar para mim e ver que eu tinha finalmente chegado àquele patamar de onde se vê a vida de uma forma mais lúcida e não como um emaranhado de coisas que acontecem umas em cima das outras sem dar espaço para respirar. Por momentos eu acreditava nisso e quase me sentia a abrir a porta da casa misteriosa onde se vivia a vida.

Em Agosto era organizado no convento o congresso de canto e já se começava a tratar dos preparativos. Nós, Noviças, Irmãs e Madres, pouco nos tínhamos que preocupar com isso tudo. Bastava pedir seguir o plano escrito no placar  de parede lá em baixo ao pé da cozinha. A Madre Evrosínia logo ali por cima atendia mais telefonemas, alargavam-se a reuniões na cela da Madre Macrina. A Madre Evrosínia, organizava a dispensa, e apontava as faltas, marcava nos livros de cozinha as receitas, inventava os menus. Que mundo era a cabeça dela, ela tinha agendado com Irmã Natália a chegada dos convidados, para os quais se preparavam os quartos. Planeva-se uma tenda no exterior, espaço de refeição dos participantes. Lá, sevia-se  o pequeno almoço. Nós saíamos da vigília às cinco e meia e íamos preparar as mesas na tenta com todas as provisões em que a Madre Evfrosínia tinha meticulosamente pensado, descrito, adquirido. Eram os queijinhos franceses divididos em doses individuais, embrulhados em papeis coloridos das suas famosas marcas, que nós colocávamos em pratos de plástico e distribuíamos em todas as mesas na quantidade certa. Eu diluía, na cozinha o sumo de laranja e de toranja, previamente descongelado. Na rua ia amanhecendo e já não tardava a soar o sino da Liturgia. A irmã Natalia Carregava os sacos do lixo no reboque do trator. A Irmã de serviço na cozinha  fazia o café, a Madre Evrosínia andava atarefada entre a cozinhe e a dispensa mergulhada nos livros de receitas nas latas de  conservas e nos saquinhos de todos os cheiros e cores. Preparava-se também o Pequeno almoço para as irmãs como de costume. Havia Padres, Madres, Paroquianos de muitas paróquias da Igreja Ortodoxa não só de França, mas também de outros países da Europa, da America e do Brazil.

Eu estava muito entusiasmada porque finalmente tantas pessoas iam-me ver Vestida de Noviça e eu sentia-me tão realizada com isso. Era óptimo não me sentir misturada com os peregrinos, estar ali no mesmo espaço, mas realizando a minha própria função. Independente do frenesim de conhecer e aprender o máximo que se consegue, desfrutar daquele sítio. Foi muito bom aproveitar aqueles dias em que todos se reúnem as pessoas em festejo e se tece diversão e boa disposição de quem está a passar férias num sítio muito acolhedor mas agora estava na altura de embarcar num novo estado. Eu sentia-me satisfeita de receber e observar aquelas pessoas, perceber que tantos se reúnem nesta fé para a salvação. Eu devo admitir que o meu pensamento era exageradamente romântico, mas não havia fanatismo na minha forma de ver a religião. Desde que nasci limitei-me a confiar naquilo que me mostravam e contavam, penso que era ainda demasiado criança para pensar por mim mesma. Porque quando o congresso de canto passou eu vi que me tentei integrar inutilmente no grupo, e participar nos seus convívios nocturnos, como o fazia antes de me tornar noviça. A meio da semana Eu sentia-se exausta, durante todo o dia havia tarefas, convívio quase obrigatório com a comunidade Ortodoxa no estrangeiro. De madrugada a vigília que não se podia perder, era a benção da Madre Superior para começar o dia, já que o trabalho começava logo a seguir, e depois saiamos antes da liturgia acabar, e a benção ficava apenas para os peregrinos. O cansaço da semana foi substituído por um vazio quando a multidão partiu, e esse vazio era tão agradável como doloroso. Para o ano tudo voltaria a acontecer outra vez. Algumas pessoas voltariam, outras não, mas eu ia estar lá fazendo parte do convento.


Responses

  1. A historia esta a ganhar um corpo muito bem definido. Continuo a gostar especialmente do factor expectativa. No entanto neste trecho tens duas ou tres coisitas a corrigir. Nada de grave. Na fluencia do Portugues que usas com delicadeza ( penso que estas a perceber que o Portugues tem tambem um vocabulario muito rico) nesta fluencia -dizia- tens logo ali na linha 9 uma expressao que e’ mais comum ao Portugues adulterado dos Brasileiros. Por exemplo dezesseis so se diz no Brasil. Dez e seis. Em Portugal usa-se dezasseis. E bacana tambem e’ totalmente Brasileiro. Entende-se perfeitamente, mas nao deixa de ser um desviozinho da fluencia inicial. Ha mais uma coisita ou outra mas mais importante agora sera que nao te preocupes com isso para nao abrandares. Esta muito bonito e apelativo. Da vontade de continuar a ler.

    • já corrigi o desasseis, logo vejo o resto, neste momento vou ter que fazer uma pausa para reorganizar os textos e dar-lhes uma nova leitura , sei o que ainda me falta, mas de algumas coisas não tenho a certeza se já escrevi ou nõa, não me quero tornar repetitiva, quero a partir do que já esta escrito começar a caminhar para o ponto da questão. tenho situações engraçadas personagens que merecem alguma evidência individual, penso que por agora tenho os traços gerais antes de uma mudança subtíl que começou a acontecer em mim e que me conduziu à saída


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