Publicado por: almofadas | Fevereiro 19, 2012

Chaleiras Brilhantes

Depois das aventuras de Setembro a minha vida parecia ter quase voltado ao normal. O quotidiano do convento, tornou-se um pouco mais fácil. Eu passava a maior parte do tempo a estudar, quando ficava cansada dos estudos, e para arrebitar antes da missa da tarde ia dar um passeio pelos bosques do convento. As vezes descia pela escadaria e seguia pelo carreiro directamente até ao lago, depois contornava o lago e seguia um riacho para dentro do bosque. Não era fácil caminhar por entre os amieiros jovens que cresciam à toa entre os ciprestes, tílias e pinheiros mas havia carreiros que se infiltravam pelo mato e e descobriam clareiras. Se fosse até ao limite norte da propriedade via-se do outro lado da vedação um lago de aquacultura e os campos das propriedade visinhas. Do outro lado do ribeiro havia um pântano que se estendia até ao rio que aí delimitava a propriedade, aquele rio onde eu me sentava no final dos longos dias da quaresma, a ouvir o por do sol. Por vezes lá no bosque viam-se corços, nunca vi nenhum macho mas vi duas vezes uma fêmea, ela olhou para mim entre as árvores e depois fugiu. Outra vez vi duas crias a correrem entre as árvores. O bosque era maravilhoso, assim como todo aquele sítio, os muros em tijolo vermelho os vasos de pedra, as flores nos canteiros à volta do relvado gigante em frente a mansão  e os arbustos tosquiados em forma de freira dispostos simétricamente. Felizmente não era necessário pedir a benção à Madre para passear desde que me mantivesse no limite do convento. Na verdade apesar de haver tantas restrições, e proibições o convento fazia-me ver a vida muito mais pelo que se podia fazer, do que por aquilo que não era permitido. Havia um jardim imenso para passear e cuidar, uma biblioteca cheia de livros para ler e traduzir. As missas, os cânticos as velas os cheiros, era tudo fabuloso e era impossível não aproveitar todas estas condições criadas para encontrar a paz.

De facto muitas pessoas mesmo sem serem adeptas da religião, descreveram que sentiram uma enorme paz e tranquilidade quando visitaram o Convento de Lesna pela primeira vez. Essa paz e tranquilidade enquanto se vive lá não desaparece. outras coisas surgem pelo caminho, deixa-se de olhar para a paz, mas quando se retoma o olhar ela está lá, tão serena e imóvel. Eu tentava concentrar-me na oração sempre que o meu cérebro não era solicitado para resolver assuntos relacionados com as obediências ou a adquirir conhecimento, mas havia coisas que me atormentavam a mente. Eu começava a criar um panorama individual de mim mesma. Por um lado havia a minha mãe que me chateava sempre que podia e por outro a as Madres do convento e irmãs com quem eu escolia partilhar a vida em Deus. Depois vinham as tentações. Aquelas situações em que eu dava por mim a fazer coisas sem nexo, momentos de indecisão e rejeição das minhas próprias escolhas. Segui-se um padrão monótono de objectivo, esforço, arrependimento. Por mais que se tentasse nunca se chegava a ser tão bom quanto se podia ser. A monotonia era o ponto forte desta vida, era o que a tornava bela. E era por esta razão que eu agora nos turnos de cozinha já não dormia as sestas no quarto, nem tentava comparecer à totalidade das orações comuns. Em vez disso eu polia as chaleiras para que há hora do jantar se servisse a água quente para fazer o chá em chaleiras de metal brilhante, em vez das chaleiras castanhas de gordura queimada de tantas vezes serem levadas ao lume, que costumavam ir para as mesas. No final do dia arrumava os tachos no armário por tamanhos e feitios. Virava os rótulos dos frascos para a frente no armário das especiarias para que a próxima irmã no turno encontrasse o espaço mais confortável, mais organizado.

Eu gostava de ajudar a Madre Evfrosinia, porque a via tão atarefada com tanta coisa na cabeça, cansada por vezes de passar a vida a explicar a toda a gente como e o que era preciso fazer. Enquanto a acompanhava na cozinha, eu via o que lá dentro lhe dificultava o trabalho e via o que eu podia fazer para facilitar isso. Esta foi uma característica que sempre possuí, observar, antecipar e ajudar. Sou uma boa ajudante silenciosa, deve ter sido por isso que ela se entendeu a trabalhar comigo. Todas estas coisas eu não fazia pelo elogio das pessoas, cumprir a minha obediência o melhor que eu conseguisse ao ponto de o tornar visível. Eu não procurava nenhum elogio verbal, eu gostava de ter a certeza que pelo menos alguém ia reparar que o trabalho fora bem feito, mas sobretudo eu não suportava a ideia de alguém, mesmo que fosse em pensamento criticasse o meu trabalho. Eu não limpava as chaleiras apenas para elas ficarem brilhante e bonitas, agradáveis ao olho de toda a gente, eu limpava-as porque era incapaz de as mandar para a mesa sujas ou mal lavadas. E mesmo que limpá-las desse mais trabalho, no final o cansaço era igual, mas eu saía mais satifeita porque tinha feito um bom trabalho.

Os santos Ensinavam a explorar o corpo, não ceder às suas fraquezas, o que não conseguisse compensar em oração e eu tentava preencher com ocupação e assim continuava os meus dias, quase sem reparar naquele habitante de que eu tinha visto um olhar diferente. Ele frequentava o refeitório, assistia às missas quase sempre, mas nem sempre até ao fim falava pouco com as pessoas, e isolava-se na maior parte do tempo e ajudava o convento a limpar o bosque, dos amieiros rebeldes e das heras que sufocavam as árvores. Aconteceu-me vê-lo por lá algumas vezes e com o tempo dei por mim  com vontade de ir aos bosques na esperança de o encontrar, talvez conseguisse meter conversa com ele, mas raramente o encontrava e sempre que isso acontecia, eu seguia o meu caminho para o lado oposto.


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