Publicado por: almofadas | Fevereiro 20, 2012

Aqui estou eu de mãos vazias

Aqui estou eu, indefesa, indecisa e consciente da minha debilidade. Aqui estou eu de punhos fechados, determinada a seguir em frente como um quebra gelo com o dever de abrir caminho. Aqui estou eu indiferente e alheia a tudo fechando os olhos na esperança que alguma corrente me leve. Aqui estou eu a caminhar sozinha, por mais que tudo ou nada me faça diferença, os dias voltam a acender a luz solar e o sino da liturgia surge para me chamar, as obediências e a oração ali  na ordem de tarefas, levam-me pelos dias fora.

A minha mãe veio-me visitar com os seu novos filhotes, o meu querido pedro e a Sasha, que já aprendeu a andar e era engraçada. O Pedro, com pouco mais de três anos, chamou-me “funha” assim que me viu, era o que eu o chamava, significava mal cheiroso na nossa linguagem. Soube bem, saber que ele não se esqueceu de mim. A minha mãe de aparência devota e orgulhosa por ser mãe de uma noviça. Depois foram, e eu sentia-me perdoada, mais tranquila.

Veio a celebração da festa do convento, da Nossa Senhora, da ícone padroeira de Lesna. Tratava-se dos preparativos, como sempre tudo deveria ser limpo  e polido, vinham os peregrinos, da Europa e da América, juntavam-se os padres das paróquias parisienses, fazia-se a festa. Na semana seguinte as missas passavam a ser servidas na igreja de inverno, no interior da mansão, a igreja grande ficaria fechada até à semana santa. Passava-se a usar apenas o lenço negro. Em breve chegaria o Natal. Por esta altura salgava-se a couve branca. A Madre Evfrosínia saía da sua toca para receber as caixas de couves que em vez da carrinha que visitava semanalmente o convento para deixar os legumes, vinham num transporte maior. As couves eram cortadas e esfregadas com sal. Era uma daquelas tarefas em que todas as irmãs que estivessem disponíveis vinham participar. A Madre Evrsosínia controlava o trabalho, doseava o sal.  A Irmã Neonila, mulher do campo, que percebia muito de couves, não deixava de dar a sua opinião e contava como ela salgava as couves no início do Inverno, que na Ucrânia chegava assim que começasse o mês de Dezembro. A couve salgada levava-se para a arrecadação situada na cave a Irmã Katia coordenava os trabalhos na cave. A couve era posta em potes de barro grandes, colocava-se uma tampa sobre a couve e uma pedra para fazer pressão, depois do Natal estaria pronta para servir.

No Natal fazia-se a árvore, nesse ano a árvore foi comprada e não era tão grande como no ano da tempestade, eu desempacotava os brinquedos, tão mal arrumados no ano anterior e embaraçados nas grinaldas. Vinha a Marussia e a Valéria que recebeu de volta a benção para entrar no convento. Eu e a Marussia tratávamos das luzes e dos enfeites. Conseguimo-nos entender bem neste trabalho pela mesma motivação de deixar tudo lindo e festivo. Perdemos a tarde toda para dispor as luzes na posição certa, de uma maneira que melhor não pudesse ser. Uma mangueira de luzes coloridas sobre os três arcos da entrada principal e as de luzes brancas no limite dos degraus para iluminar a escadaria. Ficou espectacular, devo dizer, parecia uma autêntica entrada de casino. Depois do anoitecer quando a Madre veio apreciar o trabalho que tínhamos feito, fez uma grande careta, ela detestou, mas suspirou fundo e deixou ficar. A irmã Neonilla trazia os panos engomados para colocar sobre os ícones do refeitório, a Irmã Nadezhda enfeitava a igreja h refilava a com a gata Caramella que tinha ido dormir para o altar. Corria com ela à vassourasa e ela saia em passos largos e narir empinado, subia a escada e deixava um presente à porta de cela da Irmã Nadezhda. Mau feitio de gata. Aguardar o Natal era bom, a companhia da Marussia e da Valeria aliviavam-me os dias. Houve um dia que logo de manhã caiu um grande nevão. Todas as irmãs saíram à rua a seguir à liturgia para ver a neve. Ao final do dia já não havia nem sinais de neve, mas nós fomos a tempo de construir um boneco de neve gigante, que demorou uma semana inteira a derreter. Voltou-se a unir o grupo Eu a Lera a Marussia e o Ivan, tocávamos guitarra, cantávamos canções, e bebíamos bebidas alcoólicas em quantidades moderadas, durante o dia. Mas à noite depois das orações eu voltava para a minha cela. Eu tentava seguir aquela linha procurando o equilíbrio entre a diversão mundana e a devoção da irmandade. O álcool e a companhia sabiam-me bem e eu facilmente me deixava levar. Durante a missa da tarde, na leitura dos salmos, era permitido sair da igreja, principalmente se estivéssemos no coro para beber água, ou mesmo um chá. Houve um dia, devia ser véspera de domingo, porque cantava o coro completo e a missa era festiva, eu estava a perder as estribeiras de mim mesma, e durante a leitura dos salmos sai do coro para beber uns shots de vodka com o Ivan e a Valéria. Eu pensei que ninguém reparava e não haveria problema, era só para aquecer a alma. Não houve problema nenhum na verdade, o único problema era a minha compulsividade, que logo a seguir à missa acabar corri para beber mais um shot, e outro a seguir ao jantar, e depois de concluídas as obediências na copa, um passeio à beira do lago com a Valéria e alguns cigarros. Cheguei à minha cela embriagada e triste. Eu imaginava que seria uma boa ideia arranjar uma garrafinha de alguma coisa forte para ter no quarto. Corri escada abaixo até à cozinha, abri a porta da farmácia à procura de álcool e foi aí que descobri, que no convento só havia álcool canforado. Arranjar bebidas alcoólicas dentro do convento não era muito simples. Eu não iria mentir à madre para conseguir ir ao supermercado, nem me atreveria a pedir que alguém me comprasse. Desisti facilmente de ideia de ser alcoólica, e tive que me contentar com algumas eventuais bebedeiras em dias de festa. A Irmã Natalia ensinou-me a beber vinho em grandes quantidades com Naturalidade sem que ninguém percebesse. Quanto se recolhiam as garrafas de vinho das mesas, nos dias de festa em que o vinho era permitido pela Madre, tais como o Natal, as garrafas com os restos ficavam na cozinha. Bastava beber o vinho de uma caneca de chá, com uma colher enfiada. Logicamente que eu me armei em engraçada e pendurei também o papelinho do pacote de chá. O Natal passou e voltei a ficar sozinha, a Irmã Eulália, não-me fazia grande companhia, ela estava cada vez mais decidida a deixar o convento. Passei a passagem de ano na cela dela bebemos espumante, ela sonhava com a sua terra e sua nova família.

Eu arrumava cuidadosamente os enfeites de Natal na caixa par que no próximo tudo estivesse organizado. Tirava as luzes do “casino” e a Irmã Anna dava-me dicas sobre poda de rosas, já que podava as roseiras ali junto às janelas da fachada. Eu tinha um longo ano pela frente. Brevemente chegava a Quaresma, a minha primeira Quaresma completa, eu tinha esperança que fosse a Páscoa trazer-me por fim a felicidade e alegria que eu buscava.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: