Publicado por: almofadas | Fevereiro 22, 2012

A Quaresma

A primeira semana da quaresma era muito rigorosa. Não havia turnos de cozinha, porque não se cozinhava. De manhã servia-se pão de farinha integral, duas maçãs, pepinos salgados e as couves. Eu resolvi dispensar o pão e aproveitar a quaresma com as suas restrições alimentares para emagrecer um pouco. Não havia ninguém que me dissesse o que comer, eu levava um prato cheio de couves, e dois pepinos, era o que comia ao almoço. Guardava as maçãs para o lanche.

O Ambiente era muito silencioso. As irmãs deviam passar o dia nas suas celas, a menos que fossem indispensáveis nas suas obediências. Era a única semana do ano em que não se servia o almoço aos peregrinos. A Quaresma culminando com a Páscoa é a época mais importante  no ciclo litúrgico. A Quaresma tem tudo a ver com a vida espiritual e o percurso de auto-conhecimento de cada pessoa. Na vida que eu tinha escolhido todo o ano era dedicado à oração, à contenção, mas durante a quaresma todos os princípios eram reforçados. Era o tempo de manter o corpo mais contido, privado de sono e de comida, era o tempo de se conter as conversas e as palavras, era o tempo de rezar mais e dominar a mente. Para mim era uma boa desculpa. Eu não sei bem como, mas as minhas relações com as pessoas naquele meio não eram as melhores. Eu não gostava de participar em conversas, sobre factos do mundo ortodoxo, que eram relatados sempre com uma nota de fanatismo. Irritava-me a malingua da Irmã Eulália e a vaidade de Irmã Tânia. As conversas e ensinamentos da Youlia Nikolaevna eram simplesmente esgotantes. A Irmã Neonilla falava numa língua que eu não conseguia apreender por mais que me esforçasse, e passado algum transformava-se num daqueles sons que se ouve ao longe. A única pessoa com quem eu tinha conversas dentro daquelas paredes era a Madre Alexandra, por vezes conversava também com a Raissa Petrovna.

Começou a primeira semana, as couves salgadas em Novembro eram deliciosas, mas manter-me sem comer mais nada o dia inteiro não era fácil. Aos dias da semana na Quaresma, não se celebrava a liturgia. O dia começava com as orações da manhã, seguia-se a vigília da meia noite e logo a seguir a vigília matinal e depois disso servia-se uma liturgia especial, dando às pessoas a oportunidade de comungar com oferendas sagradas, transformadas na liturgia de Domingo. As missas da Quaresma tinham mais leitura, os cânticos eram mais lentos e mais tristes. Cantavam-se orações especais que evocavam o arrependimento e a humildade que se buscam neste período. ” Sentado Adão junto ao paraíso, chorava a sua nudez: pobre de mim que me deixei levar na tentação e fui afastado da tua glória. Oh paraíso, meu paraíso, meu maravilhoso paraíso...” Começando e terminando cada vigília lia-se a oração da quaresma de santo Efrém, o Sírio, acompanhada de dez prostrações completas, que implicavam colocar-me de joelhos, tocando no chão com a testa. “Senhor e Mestre da minha vida, afasta de mim o espírito de preguiça, o espírito de dissipação, de domínio e de vã loquacidade! Concede a Teu servo o espírito de temperança, de humildade, de paciência e de caridade. Sim, Senhor e Rei, concede-me que eu veja as minhas faltas e que não julgue a meu irmão, pois Tu és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.” Depois das longas e monotonas leituras dos salmo, juntamente com o despertar da manhã saia o coro para o centro da igreja, e de joelhos cantava o salmo 140 (141) “Senhor, rogo-te,  ouve a minha oração. Escuta-me! Recebe a minha oração como o fumo do incenso que sobe na tua presença; e o levantar das minhas mãos, como um sacrifício da tarde. Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca, uma sentinela aos meus lábios. Não deixes que o meu coração se incline para o mal, que se ocupe de coisas más, que se junte com os que praticam a maldade, participando nos seus gozos e desmandos.” Cantava-se num silêncio absoluto, e as melodias eram tão belas que se enchia a alma de paz apenas ao ouvi-las, e se elevava na beleza a oração pedindo genuinamente que o Senhor me escutasse. À tarde, lia-se na missa penas a vigília da tarde, que terminava antes do por do sol. Depois desta as irmãs ficavam dispensadas das orações comuns até ao próximo dia e eram bem vindos os passeios pela natureza.

É verdade que toda esta concentração, todo este silêncio, toda esta serenidade, traziam paz à minha alma, eu perdia-me ao final do dia nos caminhos do bosque, vendo as copas das árvores afundando-se no crepúsculo e tinha esperança de estar a tomar o caminho certo para receber em troca uma alegria nunca antes sentida. Não era fácil o percurso, mas  luz da Páscoa a promessa da alegria era o que precisava para me sentir mais forte e não ceder. Eu interrompi os estudo, durante a Quaresma, dediquei-me a estudar apenas os livros da igreja. Ansiava pelos ensaio do coro aprendendo novos cânticos que cantarolava para mim mesma enquanto passeava rezando o terço. Eu tinha finalmente chegado a ser a irmã devota que sonhara e sentia-me tão bem. A Madre abençoou-me para cantar no trio de joelhos, no centro da igreja, na “liturgia das oferendas pré-santificadas”. Finalmente soaria o meu soprano sozinho, a minha voz a guiar a mais magnífica das melodias daquelas missas. Eu estava radiante, e ele também lá estava contemplando a beleza do meu mundo, o Andrej de olhos azuis e camisola lilás.

Não, eu nunca lhe tinha dirigido a palavra, mas estava certa de que ele já me tinha notado. A passear, a cantar, atenta às minhas tarefas de olhar sereno e calmo. Eu pensei que talvez acontecesse ali um milagre e com a minha ajuda aquela alma perdida encontraria o caminho do Senhor. Eu cantava cada palavra da oração do coração, com tanta força e beleza, para que chegasse  ao coração dele, para que ele ouvisse e sentisse que este era o caminho da salvação.

Começaram os preparativos da Páscoa, a cozinha cheirava a frutos secos e a baunilha, pintavam-se os ovos, lavavam-se os vidros das janelas. Começavam a chegar os peregrinos. Abriam-se as portas da igreja grande na semana santa, a igreja enchia-se flores e velas, chorava-se a Paixão de Cristo. Na véspera do dia Santo as irmãs confessavam os pecados uma a uma, para comungarem no Domingo de Páscoa. Vinha uma sensação de leveza infinita, a alma vibrava de alegria. Cantava-se “Cristo ressuscitou dos mortos”, na igreja acendiam-se velas vermelhas e eu fazia directa com a Valéria para ver o sol a dançar no céu. De madrugada o sol dançava mesmo ameaçando saltar do circulo de luz a que estava confinado e tocavam-se os sinos.

 


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