Publicado por: almofadas | Fevereiro 23, 2012

A minha alma partiu-se em estilhaços

Senti um aperto no coração quando ouvi as palávras da Irmã Katia. Eu sabia, mas não queria acreditar que esta foi a minha última conversa com aquele estranho.

– O que se passa ali Irmã Vassilissa? – Perguntou-me a Madre.

– Não se passa nada Madre, – respondi-lhe eu de olhar baixo – apenas estava a conversar.

– E parece-te apropriado uma noviça passar tanto tempo na conversa com um homem? Isto vai parar imediatamente!

A Madre estava muito zangada comigo, e eu fiquei a olhar para ela sem reacção, As palávras da Madre eram ordem e não havia nada que eu pudesse fazer para reverter a situação – eu nunca mais poderia falar com ele. Depois corri para a minha cela e fiquei sentada em silêncio até à hora da missa. Não chorei, não tive vontade de chorar. A minha alma estava apática, e que mais podia eu fazer senão seguir as suas palavras: “Experimenta não chorar”.

Nesse dia, depois das orações da noite escapei-me para o bosque às escondidas, na esperança de o encontrar. Eu queria tanto falar com ele mais uma vez. só para me despedir. No dia seguinte ele deixaria o convento para sempre. Andei entre as árvores, enquanto o dia se perdia na escuridão da noite. Ele não esteve presente no jantar, não o encontrei no bosque, nem junto à lavandaria. A porta da casa já estava fechada quando eu pensei voltar à minha cela. Fiquei parada junto à cozinha, sentindo-me ridícula e insignificante. Estava frio e eu resolvi caminhar para dispersar o desespero que se escondia algures. Atravessei o relvado e chegando à ponte do foço ouvi uns estalidos estranhos, claramente de um animal. Javali – pensei eu – eu tinha pavor de encontrar um javali desde pequena, e congelei por instantes aterrorizada até aos ossos. Depois vi dois esquilos no muro da ponte olharam para mim e fugiram. Voltei para junto da casa, a porta da ceve estava aberta e eu resolvi refugiar-me lá dentro. A cave era grande tinha logo à entrada a porta à casa da caldeira, que era quentinha, mas barulhenta, depois seguindo para o interior estava a arrecadação da cozinha, onde se guardavam os legumes, mais à frente havia uma sala ampla cheia de caixas, vasos tijolos e madeiras cobertas de pó. À direita havia uma passagem, depois um corredor cheio de sacos de roupa que era doada ao convento, que terminava na sala das conservas, onde se guardava os pepinos salgados, a fruta do pomar e as compotas. Abri alguns sacos em busca de um agasalho, vesti-me e passei a noite ali a dormitar encostada à parede de tijolo frio. De madrugada ouvi o sino despertando as irmãs para a vigília. esperei algum tempo, e depois de ter a certeza que todas as irmãs já teriam ido para a oração, para que ninguém me visse a sair da cave, juntei-me a elas. Nesse dia à hora do almoço entrei no refeitório e vi o Andreij sentado na mesa dos peregrinos, nem levantou o olhar e eu peguei nas tigelas de sopa que estavam no carrinho e voltei à copa. Eu sentia a crescer em mim um sentimento de revolta nunca antes sentido, eu naõ conseguia chorar, sentia que a minha mente ia explodir a qualquer instante e eu só queria explodir e deixar de existir para sempre. Sentei-me em cima da mesa, e resolvi seguir um conselho da Youlia Nikolaevna, “partir a loiça pode ser uma boa maneira de aliviar a tenção. Peguei num prato do tabuleiro e olhei para ele. Era um prato antigo pintado à mão, e parecia ter sido fabricado com amor, eu não era capaz de o partir. Demorei algum tempo a escolher um prato que me parecesse insignificante, depois levnatei o braço e atirei o prato ao chão com toda a força. Não me senti aliviada, a tenção e a revolta cresciam ainda mais. Instantes depois a Irmã Tânia entrou a correr dentro da copa. A Madre detestava que se partisse loiça. A Tânia olhou para mim ali sentada em cima da mesa, com o ar mais natural do mundo e para os cacos do prato partido e perguntou.

– Vassilissa, o que se passa?

– Não se passa nada. – Respondi eu com um tom de raiva, peguei na primeira coisa que me veio à mão, uma terrina se sopa, e parti-a ali mesmo aos pés da Irmã Tânia.

– Vassilissa, para!

– Não quero parar! Gritei eu e comecei a partir tudo o que me vinha à mão, pratos, terrinas, travessas.

De seguida entrou na copa a Irmã Tatiana e com uma voz rigida disse:

– A Madre ordenou, que te acalmasses.

Eu saí de cima da mesa, de qualquer maneira já não havia mais loiça ao meu alcance para partir, dirigi-me para a pia e tentei-me controlar, mas qualquer peça de loiça em que eu pegasse partia-se em estilhaços nas minhas mãos, cortando-me a pele.

A Youlia Nikolaevna, veio ver o que se passava, e a Madre Evrosínia entrou na copa logo a seguir ao almoço.

– Vassilissa! Acalma-te imediatamente e limpa esta porcaria.

– Deixem-me em paz!

Eu abri a porta da rua, peguei numa vassoura e em movimentos bruscos comecei a varrer a loiça partida para o exterior. Num pequeno instante em que levantei o olhar vi o Andrej voltando-se e olhando para mim enquanto caminhava na direcção do seu quarto. Senti-me tão envergonhada, corri para o baloiço, e chorei. Chorei desesperadamente, como se a minha vida fosse acabar naquele instante. As lágrimas escorriam pela minha face, o sangue escorria das minhas mãos caindo na terra seca. Eu não queria aceitar a realidade, eu estava tão apaixonada por ele, e era por minha causa que ele  era mandado embora, e eu nunca, nunca iria saber, o que pensava ele, o que sentia ele por mim.

 

 


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