Publicado por: almofadas | Fevereiro 23, 2012

Indiferente ao medo e ao resto

Depois deste episódio, deixei de falar. Havia apenas uma pessoa no mundo com quem eu queria falar e essa pessoa já não estava mais por perto. Comecei a refugiar-me na minha cela depois das missas e voltei a dedicar-me aos estudos. Afinal tinha que acabar o curso por correspondência e eu não era pessoa de deixar as coisas a meio. Cumpria a minha obediência na copa, e recusava-me a servir o almoço aos peregrinos no refeitório. Nos dias do turno da cozinha escondia-me na casa de banho depois de enviar a comida para o refeitório, para evitar o contacto ou os comentários das outras irmãs. Onde está a Irmã Vassilissa, – chegavam-me por vezes através da porta fechada as palavras das Irmãs – queria dizer-lhe que a comida estava muito boa. Eu não queria saber de elogios. Nada daquilo me interessava. Eu nem sequer podia comer o que as outras irmãs comiam. Num tachinho pequeno eu cozia os brócolos e as cenouras para mim, preparava a papa de aveia e comia sozinha. Tendo me conta a minha dieta especial, eu ganhei uma nova obediência, alimentar a Madre Afanacia. A Madre Afanácia era a Antiga Madre Superior, tinha um cancro e não saía da sua cela há alguns anos. A dieta dela era idêntica à minha, a única coisa que eu devia fazer era preparar-lhe um pequeno pratinho de comida e levá-lo à sua cela. Ora eu, muitas vezes me esquecia de fazer o meu próprio almoço, e esquecia-me constantemente de alimentar a Madre doente. Ouvia então a vóz da Irmã Katia, que tratava dos doentes.

– Irmã Vassilissa!

Oh não! outra vez não. Corria para a cozinha e peparava o almoço da Madre com todo o carinho, levava-o à sua cela e pedia-lhe mim desculpas por me ter esquecido mais uma vez. Ela punha-me a mão no ombro e sorria.

– Não faz mal Vassilissa, eu detesto ter que comer, para mim é um alívio quando te esqueces do almoço. – Depois fazia um olhar de malandrice como uma criança, que tem um segredo muito maroto.

Um dia soou o sino da casa a meio da noite. A Madre Afanácia tinha falecido. Há dias que ela se sentia pior e tinha deixado mesmo de comer. A Irmã Katia alimentava-a com caldinhos de peixe à colher, mas o cancro acabou por vencer e ela morreu. Todas as irmãs foram à sua cela para se despedirem, e eu também beijei a sua testa ainda quente. Quando uma Madre morria no convento o seu corpo não era levado para a funerária, ficava na igreja até se realizar o enterro e enquanto lá estivesse as irmãs faziam turnos lendo o livro dos salmos ininterruptamente. No dia seguinte os homens da funerária trouxeram uma mesa refrigeradora e o corpo da Madre foi transportado para a igreja de inverno. A Madre Evfosínia apressou-se a agendar as leituras dos salmos, as imãs mais jovens foram colocadas nas leituras durante a noite. Devo dizer que estar na igreja sozinha a meio da noite era assustador e estar na igreja sozinha com um cadáver dava arrepios só de imaginar. No entanto eu não dei a entender o meu medo e recusei a companhia da Irmã Tânia. Eu tinha curiosidade de ver como iria eu lidar com o medo de estar sozinha na igreja com um cadáver, e queria também ultrapassá-lo pois eu sabia que se tratava de um medo irracional. Por outro lado eu tinha esperança que acontecesse alguma coisa sobrenatural, já que ultimamente eu comecei a ter alguma dificuldade em acreditar que o sobrenatural existia mesmo.

A igreja estava escura e o corpo sem vida da Madre Afanácia estava no meio da igreja deitado sobre a mesa de refrigeração que, como um frigorifico normal ligava e desligava consoante a indicação do termostato. Eu entrei e esperei que a irmã Tânia acabasse de ler o salmo para continuar com o salmo seguinte. O corpo começava a libertar líquido que pingava para o chão fazendo uma pequena poça. A madeira do chão escureceu com a humidade e a poça de líquido, do corpo, ou do frigorifico talvez, parecia uma poça de sangue. Eu comecei a ler o salmo, a Irmã Tânia saiu fechando a porta e eu ouvi os seus paços nos degraus da escada. O silêncio da noite era interrompido apenas pela minha voz e pelas gotas que caiam no chão. O meu corpo estava petrificado, eu era incapaz de desviar o meu olhar do livro dos salmos, o ar que me entrava na garganta parecia gelar-me, e eu concentrava-me nas linhas, nas palavras, nas letras. Esforçando me para ultrapassar o verdadeiro terror que me apreendia por completo eu continuava a ler, bem alto para quebrar o silêncio da igreja. Alguns minutos depois deixei de sentir omeu corpo, e o livro que segurava com as minhas mãos. A minha visão lateral começou a dissipar-se e o que eu via eram apenas as palavras do salmo escritas no ar, sem livro, sem mãos, sem chão, sem igreja, era apenas a minha voz e as palavras do salmo no vazio. Pouco tempo depois a visão periférica começou a voltar e a sensibilidade do corpo também, deixei de sentir medo. Já conseguia desviar o olhar, enquanto dizia os versos dos salmos que sabia de cor, e observava os cantos mais escuros da igreja na esperança de encontrar alguma presença, não havia nada. Não havia nada para temer ali e enquanto eu olhava para o corpo da Madre Afanácia, o meu peito enchia-se de amor e admiração. Ela completou o seu percurso, seguiu a sua vocação, tornou-se freira, tornou-se Madre Superior, quanta força de vontade terá sido precisa.

Brevemente chegaria o Verão. Eu via as árvores já cheias de folhas, as framboesas a ganharem cor, preparando-se para serem colhidas, ouvia o bosque a sussurrar  no vazio que me deixou a saudade do Andrej. Tudo parecia incompleto e eu sabia que deveria seguir em frente e silenciar este fogo que me queimava por dentro. E eu tentava não pensar e lembrava-me do que ele me tinha falado, sobre a meditação, sobre os monges tibetanos que seguiam também tal como os ortodoxos o caminho do auto-conhecimento. Apareciam dúvidas maiores na minha alma.

A Irmã Eulália partiu antes da festa de Pedro e Paulo, abandonando o caminho de freira. Chegava o congresso de canto, vinham de novo os peregrinos, e as paredes do convento enchiam-se de agitação. As pessoas que me conheceram no ano anterior, não puderam deixar de reparar que eu estava diferente, mais contida, mais silenciosa, mais magra. Não procurei convívio, não procurei entretenimento, todas as pessoas que ali estavam cheias de entusiasmo eram-me indiferentes. Eu não partilhava o seu entusiasmo, nem os seus interesses, nem o seu modo de vida.

 


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