Publicado por: almofadas | Fevereiro 23, 2012

Tão breve encontro

Depois da Semana da Páscoa a rotina voltou ao normal, eu visitava frequentemente a Madre Alexandra, requisitava livros na biblioteca  e muitas vezes ficava a ler os livros em voz alta na cela dela. A Madre Alexandra sofria de cataratas e não conseguia ler. Ela era muito amorosa dizia-me que eu era a favorita dela, o que me sabia muito bem ouvir, mas não me fazia sentir vangloriada pois ela chamava todos de favoritos com a mesma genuinidade. Ela era a pessoa mais aberta que eu conheci no convento, aberta às ideias aos pensamentos das pessoas, era possível divagar, questionar explorar os temas que se lia dos livros, ela ajudava-me um pouco a compreender as palavras que ao início tanto me assustaram: “Um Homem não é nada, nem ninguém, se não tiver Deus com ele”. Se, se compreendia, ou não compreendia, eu não sei, eu queria acreditar em Deus e conseguia fazê-lo, acreditar em Deus fazia-me sentir mais forte, pois tudo aquilo de que eu me senti incapaz até então seria possível com a ajuda divina. Eu procurava munir-me de palavras para que quando chegasse a hora eu saber o que dizer e como argumentar a favor da minha fé.  Nesta altura ajudei a madre Alexandra a catalogar os livros, nos cartões da biblioteca, foi uma espécie de obediência que eu arranjei por vontade própria, sem nenhuma iniciativa por parte da Madre Superior. Arrumava os livros nas prateleiras e ia explorando aos poucos o conteúdo da biblioteca.

Depois da alegria da Páscoa eu tinha ganho uma nova força e um novo sentido de vida, que foi ligeiramente abalado por pequenos problemas de saúde. Pelos visto alimentar-me de couves durante uma semana inteira teve as suas consequências ao nível do organismo. Eu tentava sofrer a minha dor em silêncio, mas infelizmente ela deixou de ser silenciosa. Começou tudo com uma simples dor de estômago, e uma leve azia que eu tentava ignorar e desenvolveu-se em dores de estômago insuportáveis e arrotos constantes. A Madre Evfrosínia retirou o meu nome dos horários das leituras da igreja e do coro, eu não dizia duas palavras sem dar um arroto bem sonoro. Levaram-me ao médico, passei a uma dieta rigorosa de papas de aveia e legumes cozidos. a parte dos arrotos melhorou e eu pude voltar para o coro. Pude também voltar a falar com as pessoas sem me sentir embaraçada por estar sempre a arrotar.

Eu já tinha dado muitos passeios pelos bosques, na esperança de me encontrar cara a cara com o Andrej e de ter coragem para trocar palavras. Já tínhamos trocado alguns olhares e eu tinha a certeza de que eu também lhe despertava alguma curiosidade. Eu não conseguia resistir mais, e vendo que nenhum momento se proporcionava para que naturalmente se iniciasse uma conversa, decidi tomar eu esse passo e iniciá-la.

Foi num dia a seguir ao almoço. Ele tinha saído do refeitório e dirigia-se para o seu quarto na casa de hóspedes. Eu levava um alguidar de roupa para a lavandaria, eu antecipei-o, e sentei-me no chão pousando o alguidar, a dar festas a um gato. Quando ele ia a passar olhei para ele, e ele sorriu-me, correspondi-lhe o sorriso e disse:

– Estes é que têm uma boa vida, não é? Esparramados ao sol o dia inteiro.

Ele sorriu novamente e eu afundei-me no seu olhar.

– Como é que se sente aqui no convento. – perguntei eu – vendo que ele não sabia o que dizer.

– É interessante, – respondeu ele – a natureza é bonita, é pacifico, aprende-se muita coisa. – depois fez uma pausa – Como é ser freira?

– Eu não sou freira, sou noviça apenas, –  respondi eu – para ser freira terei um longo caminho a percorrer, não sei se serei capaz.

Eu disse-lhe isso para lhe dar a entender que ainda não estava certa sobre o meu caminho, senão não poderia falar com ele. Senti-me envergonhada por ter dito isto mas de outra forma ele podia-se afastar e eu não queria isso. levantei-me segurando o alguidar. dirigi-me para a lavandaria ainda olhando para ele mas ele disse alguma coisa e eu parei. Não me lembro do que falamos exactamente, mas a conversa fluiu, ficamos a conversar um pouco afastados um do outro, mas depois o gato veio-se roçar aos meus pés e eu baixei-me para lhe dar um festinha.  O Andrej sentou-se cocaras às minha frente, eu achei surpreendente como ele conseguia estar sentado naquela posição, tentei-me por de cocaras também, mas desequilibrava-me e caía para trás. O meu padrasto Igor costumava sentar-se assim e isso deve ter servido de pretexto para -lhe falar sobre a minha infância na Rússia. Ele falou-me sobre a sua vida em Berlim.

Comecei a “apanhá-lo” frequentemente naquele percurso, por vezes ficava sentada nas escadas de acesso à cozinha à espera de o ver passar. Já não era difícil começar a conversar e sempre que nos cursávamos, falávamos muito. Eu contei-lhe como foi a minha vida antes do convento, como fugi de casa aos quinze e como depois acabei por ficar no convento. Ele, tal como eu, era oriundo de Moscovo, viveu lá com a mãe e com o pai até se mudarem para Munique, na Alemanha. O pai dele era bebia muito e morreu de enfarte quando ele tinha treze, a mãe entrou em depressão  e tornou-se fanaticamente religiosa esquecendo do filho. Ele fugiu para Berlim e viveu lá até aos trinta e três. Eu ouvia as suas histórias encantada, contava-lhe as minhas. Eu encontrava o cada vez mais vezes e abordava-o cada vez que o via, a Madre Alexandra também gostava muito dele e eu já não me sentia mal em procurá-lo. Falávamos sobre a vida espiritual que, para minha surpresa existia além da Igreja, eu falava-lhe sobre a minha experiência e sobre quanto era difícil dominar a mente. Eu sentia-me feliz e realizada, a minha consciência estava tranquila pois eu não tinha intenções secundárias. Talvéz até tenha imaginado, durante a missa da Santa Trindadae, segurando o ramo de flores, que me casava com ele, mas foi apenas um pensamento fugaz.  A presença de Andrej fazia-me senti mais completa e eu nunca pensei que isso poderia mudar até ao dia em que a Madre Superior resolveu interromper umas das nossas habituais conversas junto à porta da cozinha, ali mesmo debaixo da sua janela. A Irmã Katia veio-me chamar, disse que a Madre exigia a minha presença na cela dela.

 


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: