Publicado por: almofadas | Fevereiro 24, 2012

Outro deslize lamentável

Quanto mais eu olhava para  a vida, mais me apercebia que viver  é como andar à deriva no mar. É obvio que tentamos tomar uma direcção, podemos ter um objectivo, mas não é que o consigamos ver. Se não tivermos uma bússola, se não soubermos ler as estrelas, não sabemos para onde vamos e de qualquer forma não sabemos bem onde estamos se não virmos terra. A igreja era a minha bússola, todos os ensinamentos que ela me transmitia eram as estrelas que eu tentava decifrar para descobrir a minha direcção. Como é que eu podia ser tão estúpida, sempre que me parecia estar a tomar a direcção certa vinha uma tempestade e eu voltava a perder-me.

O Convento era belo, a natureza era bela, mas eu sentia saudades do mar. Eu já não via o mar há  mais de um ano, desde pequena que me habituei a ter saudades das coisas. Sentia saudades das vastas paisagens da Rússia, da neve, dos cheiros das casas da aldeia, do meu bairro em Moscovo, e pela primeira vez na vida eu sentia uma saudade enorme de Portugal, do oceano Atlântico onde outrora os navegadores portugueses ousaram tentar a sorte e partiram em busca de novas terras. Um dia comentei com a Madre Evrosínia que tinha muitas saudades do mar, ela não demorou a responder ao meu apelo e organizou uma vigem à costa da Normandia. Algumas Irmãs nunca tinham visto o mar na vida e estavam entusiasmadas com a viagem. Fomos na nova carrinha do convento, adquirida recentemente com as doações dos peregrinos e com os fundos recolhidos com o congresso de canto, era um monovolume verde  de sete lugares. Foi uma espécie de estreia à viatura. Leonido Borisovich guiava o coche, abençoado como tal pelo Padre Konstantino, num ritual especial, para a benção de coches. Ocuparam os lugares do coche, a irmã Tatiana, a Irmã Natalia e a Irmã Anna (amigas inseparáveis), a Irmã Tânia e eu, e a Madre Evrosínia, claro. Partimos logo a seguir à liturgia e chegamos à pequena aldeia piscatória, muito folclórica e arranjada, como tudo em França, ainda antes do almoço. Abriu-se à minha frente uma magnífica praia de areia amarela, salpicada de rochas cobertas de algas de cores vivas, contornada por uma falésia alta recortada pelos ventos. Assim que chegamos à areia eu desatei a correr, e corri até me deixar cair de joelhos, enterrei as mãos na areia, fechei os olhos  inspirei fundo. Ouvi as ondas na rebentação, senti o cheiro da maresia, porém o som não era igual e o cheiro não era o mesmo, as gaivotas falavam uma língua diferente, Francês certamente, o seu grito era mais agudo e enfadonho. Não era a  mesma coisa, não me matava a saudade, foi uma desilusão à expectativa que eu criara. De uma forma ou de outra, não fazia diferença, era o que era e eu tinha que aproveitar ao máximo, pelo menos a areia nas minhas mãos tinha o mesmo toque e o sabor salgado do mar era idêntico. Eu a Tânia, a Irmã Anna e a Irmã Natalia, fomos nadar. Atirei-me para a água avidamente e bati os braços e as pernas com toda a força que tinha nadando ao longo da costa mas cansei-me rapidamente. O longo vestido de algodão ficou pesado e condicionava os movimentos . Antes da missa da tarde, estávamos de volta ao convento.

A Madre Evrosínia planeava mais viagens com as noviças. Ainda antes do Verão acabar, visitamos as catedrais de Rouen. Planeava-se uma viagem pelas relíquias cristãs em Paris, e uma ao Mont San Michel. Planeava-se muita coisa nova e em Setembro a Madre Evfrosínia partia para a Rússia para tratar da documentação de três raparigas que vinham viver um ano no convento. Chegaram ao convento duas irmãs gémeas da Moldávia para ficarem, e pela mesma altura chegava uma rapariga polaca, enviada pela mãe para ver se ganhava juizo.

Entretanto havia outras mudanças. O quarto da Madre Afanácia era remodelado  e a Madre Superior, mudava-se para o canto posto da casa. O quarto amplo da Madre Superior passava a atellier de costura da Raíssa Petrovna. A biblioteca dos livros novos, onde eu me debruçava antes, passando as minhas traduções a limpo na máquina de escrever também era remodelada e viria a ser o escritório onde eu me instalava mais tarde com a Madre Evfrosínia e dois computadores.

Depois de muito esforço eu tinha finalmente concluído o curso por correspondência, enquanto o escritório novo não estivesse pronto a Madre Superior abensoava-me novamente para a obediência de corte e costura, no atellier da Raíssa Petrovna. Eu sentia necessidade de voltar a comunicar com as pessoas, de partilhar os meus pensamentos, participar em conversas, como uma pessoa normal. Nos últimos meses eu raramente me dava ao trabalho de dirigir a minha palavra a quem quer que fosse, ou mesmo a olhar as pessoas nos olhos. O trabalho com a Raíssa Petrovana ajudou-me a reconquistar algumas capacidades de comunicação. A Raíssa Petrovna era uma pessoa simples e acessível, costumava fazer conversa casual, mas não insistia se eu não quisesse falar.

Desde que a irmã Eulália deixou o convento eu nunca mais tive uma amiga e sentia alguma falta dela. Apesar de não nos darmos bem ela era aquela pessoa que me fazia companhia se eu precisasse. Eu escrevia-lhe cartas, mas ela nunca respondeu. De repente eu vi na nova rapariga polaca uma oportunidade de fazer uma amiga. Estranhamente, eu não me consigo lembrar do nome dela, por isso vou chamar-lhe, a Polaca. A Polaca ficou no convento menos de dois meses, deixando o convento depois de se ter enamorado pelo Romão,  foi sem dúvida uma má escolha da minha parte como amiga, pois revelou-se uma má influência. Eu comecei por observá-la sozinha e perdida naquele mundo tão diferente do que ela estava habituada a viver lá fora. Abodei-a com a intenção de ajudá-la a integrar-se. Mostrei-lhe os recantos do convento, expliquei-lhe como funcionavam as coisas lá dentro. falei-lhe de mim e ela falou-me dela. Era uma peça, devo dizer, e apesar de ter aquele olhar perdido e solitário nos primeiros dias rapidamente demonstrou boas capacidades sociais. e travou amizades com quem lhe convinha. Ela procurava tudo o que eu tinha tentado evitar, combinava noitadas, arranjava bebidas alcoólicas e cigarros. Eu deveria ter-me virado para mim, para Deus e para aquilo que eu já tinha conquistado naquela vida mas em vez disso eu deixei-me levar pela sua euforia. Devia ser um problema do mês de Setembro em que eu claramente tinha tendência a deslizar.Deixei-me seduzir pelo álcool e pela diversão, ria a falava da minha vida passada como se ainda fosse a mesma. Acabamos por nos embebedar as duas na cela dela, e levadas pela bebedeira envolvemo-nos intimamente, até não sei bem onde. Foi uma atitude lamentável da minha parte, e enquanto eu pensava que me safava apenas com a ressaca, já por si dolorosa aproximava-se algo muito pior.

No dia seguinte a Polaca lembrou-se de contar à Irmã Tânia que se tinha envolvido intimamente comigo, contou-lhe que eu me sentia atraída por mulheres. A Irmã Tânia sem pensar duas vezes foi falar com a Madre Evrosínia. Desta vez a Madre Evrosínia falou com a Madre Superior, e de resto a notícia espalhou-se pelo convento como uma bomba.

Imaginem como é encarada uma noviça que se sente tentada pelo corpo de uma mulher. Não é que isso fosse verdade, mas a verdade não interessava, as pessoas estão sempre muito mais disponíveis para acreditar em boatos. Infelizmente este boato era de alguma forma verdadeiro, o que me fazia retrair-me novamente dentro de mim mesma, e passaram meses primeiro que me voltassem a olhar com naturaliddae. Agora o que eu lia nos olhares das outras irmãs, as que ousavam olhar para mim, era repreenção. Ninguém ficava na mesma divisão comigo, e quando se cruzavam comigo no corredor, as irmãs afastavam-se e não me davam o bom dia com uma vénia como de costume. A Madre Superior chamou-me à sua cela e leu-me um sermão mais comprido que eu alguma vez ouvira. Eu analizava toda a minha vida no convento e pensava que certamente eu não estava talhada para isto, afinal de contas até agora eu tinha provado ser uma desilusão e uma vergonha, para todos e para mim mesma.

Quando falei com o Padre Konstantino na confissão, (eu era umas das últimas a confessar os pecados), percebi que ele já tinha ouvida a história em diferentes versões da boca das outras irmãs. Ele disse-me que eu não merecia castigo maior do que o que já tinha recebido, o desprezo e a condenação por parte das pessoas com quem vivia, e a vergonha de mim mesma. Eu arrapendi-me profundamente do que tinha feito, e mais uma vez tinha que recomeçar tudo de novo. Eu que estivera tanto tempo sem falar com as pessoas, podia interpretar isto como um sinal que me dizia, continua a prezar o silêncio, o silêncio é sagrado. Por outro lado eu não deixava de pensar numa coisa. Se uma das virtudes  é não julgar os outros como podiam todos, e tão abertamente, julgar-me.  Encarar todo aquele julgamento, toda aquela condenação era sufocante. Eu só queria fugir, desaparecer, deixar o convento, eu senti-me totalmente posta de parte, e mesmo depois do pecado perdoado, voltar a sentir a aceitação daquele local foi difícil. Foi certamente através da dedicação às obediências que voltei a ganhar a confiança das irmãs.

A minha vida voltava ao normal devagarinho. Eu voltava ao silêncio. Passado algum tempo mudava-me com a Madre Evrosínia para o escritório grande, e para além dessa, ganhava uma nova obediência, cuidar da loja e livraria do convento.


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