Publicado por: almofadas | Fevereiro 24, 2012

Vassilissa multifunções

Quando a Madre Evfrosínia me informou que eu iria tomar conta da loja, eu fiquei muito assustada. Isso implicava muito trabalho e muita responsabilidade. Implicava também conviver com os peregrinos, visto que uma das minhas responsabilidades era servir o chá aos Domingos a seguir ao almoço. A loja era grande, era do tamanho de uma casa e ficava por baixo da casa dos hóspedes, do lado direito da casa das irmãs.

Antes de mim quem tomava conta da loja era a Madre Evrosínia. Ela conhecia todos os livros e escritores ortodoxos, ela sabia aconselhar um livro se alguém lhe apresentasse uma questão, sabia descrever sumariamente o conteúdo de qualquer livro, que lhe mostrasses, era impressionante. A Madre Evrosínia adorava ler, e tinha tantos livros  que a cela dela parecia mais um armazém de livros que uma cela. As estantes estavam cheias tinha livro empilhados no chão em todas as superfícies horizontais livres. Eu Não sei onde ela arranjava tempo para ler tanto. Eu já tinha lido alguns livros e esfroçava-me por ler o máximo que conseguisse, mesmo assim não chegava nem aos calcanhares dela, nem gostava assim tanto de ler. Eu lia livros por auto-obrigação, para aprender. Dificilmente me apanhariam a ler um romance, os meus livros de eleição eram de história, teologia, e vida espiritual e monástica. No convento eu só lia livros relacionados de alguma forma com a religião. Não era proibido ler outro tipo de livros, mas eu achava que com tantos livros ortodoxos para aprender, eu não podia perder tempo a ler romances. O trabalho na livraria exigiu que eu lesse mais, eu queria saber aconselhar os peregrinos na escolha de um livro, e para isso eu tinha que  conhecer os conteúdos.

Logo à entrada estava um balcão onde eu servia o chá, e o lado dispunham-se mesas e cadeiras como dum café. Por trás das mesas estavam as bancadas de livros. Era um espaço com cerca de cem metros quadrados ocupado essencialmente com livros. Ao fundo havia uma vitrine, cruzes, medalhões com figuras de santos e artesanato.  Havia ícones em postal e em quadro, pintadas à mão e impressas. Vendiam-se também acessórios de igreja, incenso e óleos santificados, lamparinas e óleo para lamparinas, velas de cera de abelha, estampas para hóstias, terços. Enfim qualquer coisa que um ortodoxo pudesse precisas no seu dia a dia ou na sua paróquia. Por baixo das bancadas de livros havia estantes baixas com mais livros e material de reposição.

O meu dever era manter aquele espaço impecável, essa era a única forma que eu tinha para lidar com as minhas obediências. Organizar, repor, conhecer, aconselhar. impar todo de uma ponta a outra. Era muito trabalho, era até demais. No escritório eu fazia traduções quando tinha algum tempo livre, ajudava a Madre Evfrosínia com os horários que passava para o computador e imprimia. Diga-se que não era apenas uma lista de nomes tarefas e horas, cada folha de agenda a ser pendurada no placar era escrita com um estilo de letra escolhido, uma ilustração, uma cor, alguma coisa que embelezasse, era como a Madre Evfrosínia fazia e eu fazia igual. Ajudava a com as encomendas de livros e calendários. Era muito agradável trabalhar com ela, ela bebia por dia litros de café, habito que eu também já tinha adoptado. No escritório nós tínhamos uma chaleira eléctrica e café solúvel, ambas bebíamos o café sem açúcar. Nós éramos muito compatíveis no trabalho, eu fazia tudo tal e qual como ela queria e raramente falhava. Escolhemos juntas a cor das paredes, as plantas e até o regador que compramos numa loja de decoração em metal pintado. A Madre Evrosínia levava-me muitas vezes com ela nas suas viagens de negócios para tratar das necessidades do convento. Além da loja e do escritório, eu continuava também a trabalhar no atellier da Raissa Petrovna, sempre que a Madre Evfrosínia não precisava de mim, se a Raíssa Petrovna não tivesse costuras para mim eu dedicava-me aos lavores, fazendo marcadores de livros para se vender na loja. Eram marcadores para os livros litúrgicos de fitas compridas debruadas com bordados a ouro e miçangas. Fio finalmente dispensada da copa, e participava nos turnos de limpeza e de cozinha.

A cozinha continuou a ser o meu local preferido e o turno de cozinha era a minha obediência de eleição, já que todas as outras obediências eram dispensadas nesse dia. As minhas obediências que agora não eram poucas não deixavam dissipar a mente, portanto eu tirava o dia quando me calhava o turno da cozinha, para descontrair e não ter que pensar em mais nada sem ser em fazer o comer e limpar a cozinha. Como agora era eu que agendava as tarefas, eu escrevia o meu nome no turno da cozinha todas as semanas e não de duas em duas como era suposto. Ninguém se opunha, e eu aproveitava.

Aparentemente estava tudo a correr bem, mas eu cada vez mais achava que não pertencia ali e queria sair. Cheguei mesmo a falar com a minha mãe várias vezes para saber o que ela achava sobre a possibilidade de eu voltar para casa, ela dizia que sim algumas vezes, depois mudava de ideias. Inquietava-se com isso a Madre Evfrosínia, e convencia-me de que esses pensamentos eram do demónio, tentações para abandonar a vida conventual. Ela contava-me que no percurso de uma freira surgem muitas tentações, o demónio procura despistar os que seguem  o caminho de Deus, e isso é normal. É preciso ter sabedoria, humildade e persistência para não ceder. Eu vacilava. Não havia problema nenhum com as obediências, eu não me importava por ter muito trabalho, aliás quanto mais, melhor – para não me aborrecer. O que me começou a incomodar foram as missas e as orações. Eu sentia que passei tanto tempo a rezar, a chorar e pedir a Deus, para que se silenciasse este grito interno que me sufocava, que já era tempo de sentir algum alívio que fosse, porém, quanto mais rezava mais intenso se tornava o grito, quanto mais trepava,  mais fundo caia. Eu deixei de ler a minha regra, de repente deixou de fazer sentido concentrar-me em orações prescritas. Em vez disso eu inventava as minhas próprias orações, leves, e ligeiras e respirava fundo, estas orações não nasciam no centro da cabeça mas sim num outro sítio mais profundo e nelas eu queria apenas uma coisa, descobrir-me. Durante as missas pensava na paz e tentava não pensar, sentir o cheiro do incenso, ouvir o estalar das velas, apenas sentir, e procurar sentir amor, o amor de Deus, dos santos e dos anjos, e sentir-me em união com o todo. Mesmo assim, eu só frequentava as missas porque eram obrigatórias e ia apenas à liturgia e às missas em que constava o meu nome nas leituras ou no coro.


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