Publicado por: almofadas | Março 1, 2012

A música de Tsoy

É evidente que tanto a Madre Evfrosínia como a Madre Superior, se estavam a esforçar muito por me manter no convento. Eu fazia asneiras, alienava-me das pessoas e apesar de ser muito eficiente nas minhas obediências, a minha alma estava a ficar cada vez mais distante daquele lugar. O meu irmão veio visitar-me em Dezembro, trouxe-me um rádio portátil com leitor de CD’s e cassetes. As irmãs tinham liberdade para ouvir música, dizia-se que a música podia ser ouvida desde que não nos afastasse de Deus. Depreende-se logo, o tipo de música que não se podia ouvir. Podia-se também ver filmes. Algum entretenimento era necessário para o equilíbrio mental. Estava no dever da Madre gerir esse entretenimento, ou seja proporcionar e supervisionar.

Aos Domingos e em dias de festa, as Irmãs podiam aproveitar a tarde para passear e era permitido sair do convento com a benção da Madre. Não havia lojas nem cafés a menos de sete quilómetros, por isso quando saiamos do convento íamos explorar os campos. O melhor passeio era uma volta de oito quilómetros, que atravessava a aldeia de Provémont subia a colina passando pela aldeia vizinha Chauvincourt, que se avistava no topo, depois descia passando por um bosque de choupos, algumas casas rurais com cavalos, e ovelhas. Depois de um  entroncamento entrava-se numa das estradas principais que atravessava os campos de beterraba branca e seguia passando pela refinaria para Etrépagny. Passávamos por uma instalação industrial abandonada, e cortávamos por outra estrada que atravessando o campo nos levava de volta  Provémont, do lado oposto. Depois dos campos de cultivo estendiam-se relvados fofos que penetravam os bosques cheios de chilrear de muitas aves. Depois das árvores abria-se uma clareira junto ao rio, que corria, ora deixando crescer a relva jovem nas suas margensns, ora se espalhando e inundando a terra cheia de juncos, habitat  de patos bravos. Toda esta beleza e a quantidade de aves  nas redondezas devia-se à reserva de caça que ocupava os terrenos circundantes no lado Sul da propriedade onde viviam as freiras. Encontrávamos entre as arvores, aves presas em gaiolas para atraírem outras aves, ouvíamos os tiros que espantavam patos bravos, que batiam as asas  e grasnavam  levantando voo. Com tantos Domingos Eu já tinha explorado tudo o que havia para explorar num raio de cinco quilómetros. Havia bosques magníficos, campos, ribeiros, aldeias e cemitérios antigos. Quem me acompanhava nos passeios era geralmente a Irmã Eulália, ou a Marussia. A Irmã Eulália partiu, mas a Marussia, resolveu ficar no convento para se tornar noviça. Agora era ela a noviça mais jovem, só que depois do episódio com a Polaca, a Marussia, não voltou a falar comigo. Para controlar os conflitos entre as mais jovens, a Madre reunia-nos na mesma sala a ver um filme, que muitas vezes via connosco, ela e Madre Evrosínia. Chegamos a ver quatro ou cinco vezes o “Orgulho e Preconceito”, A Madre Evfrosínia tinha que o ver connosco porque era ela que traduzia para quem não compreendesse o Inglês. À terceira vêz ela recusou-se a gastar mais horas da vida dela com o mesmo filme e a tradução passou para mim. A certa altura, eu já sabia as falas do filme de cor.

Eu andava a pedir um rádio à minha mãe, há algum tempo. O rádio e alguns CD’s, que me faziam muita falta. O Meu irmão trouxe-me o rádio e dois CD’s de uma banda russa, Kino. Era a nossa banda preferida, as músicas todas elas de autoria de Victor Tsoy, com letras fabulosas que desmontavam a vida em metáforas simples e verdadeiras. Eu ouvia aqueles dois albuns todos os dias. Primeiro comecei a ouvir o Album Negro, que começa com uma das minhas músicas favoritas. –  Eu desligo a televisão, eu escrevo-te uma carta, para te dizer que já não consigo olhar para esta merda, para te dizer que já não tenho forças, para te dizer que já quase me entornei,  mas não te esqueci. Para te dizer que o telefone tocou, queria que me levantasse, que me vestisse e fosse, aliás que corresse, mas eu mandei-o… disse-lhe que estava doente e cansado, que não tinha dormido nada esta a noite. – E depois o refrão – Eu estou à espera de uma resposta, não tenho outra esperança. Já falta pouco para acabar o Verão, este Verão. – A minha música, devolveu-me algo que me pertencia, mas que eu tinha perdido pelo caminho. Era como voltar a falar comigo em primeira pessoa. Todas estas palavras eram tão verdadeiras, tão acertadas. Durante toda a minha vida eu tive comigo pessoas, de quem eu gostava muito, mas que estavam longe e eu amei a saudade, de poder pensar nestas pessoas, de lhes escrever , era como se eu não tivesse amigos no presente, apenas no passado. A minha vida, será isto a partir de agora, apenas a lembrança de quem passou, preenchida pela lembrança dos que vão passar. O meu Irmão tinha ido à Rússia e trazia fotografias e histórias dos nossos amigos. Estava tudo tão diferente e tão igual ao mesmo tempo, eu queria muito voltar. Continuar a minha vida lá, onde nasci e onde pretenso.

A minha cela era fria, era cela que ficava mais longe da caldeira, onde a água quente não chegava. Mas com o  tempo eu aceitei em suportar o frio e por vezes ficava simplesmente deitada no silêncio da noite gelada, entoado pelas corujas e pelos mochos. Agora tinha a música que ouvia baixinho e deixava-me levar pelas ruas e pelos comboios, semáforos e prédios, e eu sonhava em voltar. Sonhava que apanhava o comboio e ia ter com a minha avó e ela estava lá, na sua cazinha que agora já não era a mesma que eu conheci, mas eu chegava lá no mesmo autocarro através dos montes, e numa aldeia depois de um vasto campo aparecia a aldeia em casas de madeira com hortas e galinheiros, e numas das casas morava a minha Liuleka. Ela também sonhava comigo, e escrevia-me que me via e que eu queria ir ter com ela, mas havia um rio entre nós.

O meu comboio está parado há demasiado tempo, eu parto novamente, está na hora. O vento lá fora está á minha espera, lá fora o Outono é meu irmão. Depois dos dias amarelos avermelhados o Inverno vai começar e há de acabar, o mal meu mal é da  mente não fiques triste sorri. Eu vou voltar para casa, segurando o escudo ou levado sobre ele. Em prata ou na pobreza, mas o quanto antes. Fala-me dos que se cansaram dos impiedosos dramas de rua. Fala-me sobre a catedral dos corações despedaçados e sobre os que caminham para lá. Eu sonhei que o mundo era governado pelo amor, que era governado pelo sonho e que uma estrela arde maravilhosa, por cima disso tudo. Eu acordei e percebi que estamos perdidos. Depois dos dias amarelos avermelhados o Inverno vai começar e há de acabar, o mal meu mal é da  mente não fiques triste sorri. Eu vou voltar para casa, segurando o escudo ou levado sobre ele. Em prata ou na pobreza, mas o quanto antes.

A chegada da minha música ao convento afastou-me ainda mais da oração. Eu já não perdia horas no meu quarto em reverências ao Padres Nosso, estava cansada, agora ouvia música, sentada no chão da minha cela fazendo lavores, fitas de ceda, penduradas sobre botões bordados, debruadas com miçangas e pêndulos, para colocar em livros sagrados, e embelezar a oração de que as possui.  Eu pretendia manter-me focada e isto ajudava-me, concentrava-me no que estava a fazer, ficava bonito, eu tinha muito jeito e muita imaginação. Uma vez criei umas fitas que foram um enorme sucesso. O botão que se encaixava na lombada do livro era um tomate vermelhinho com fitinhas vedes a fazer as folhas no topo., depois, no final de cada fita estava pendurado um pequeno tomatinho que eu fiz forrando uma conta de madeira, com tecido vermelho. Ficou muito engraçado. Ofereci um à Madre Evfrosínia, e a Irmã Liudmila também me pediu um.
Um dia,  depois da campainha do correio  ouvi o meu nome na voz da Irmã Tânia. Eu raramente recebia cartas, talvéz uma por mês, da minha avó. Pensei que fosse finalmente a resposta da Lilia (Irmã Eulalia) Corri escada abaixo e recebi das mãos da Irmã Tânia um pequeno envelope almofadado como remetente constavam as iniciais A. T., e uma morada alemã. Subi para a minha cela, e deixei o envelope em cima da mesa voltando ao escritório. Eu fazia sempre isso com as cartas, quando recebia uma carta eu não me apressava em abri-la como a Tânia, eu guardava sempre as cartas para o final do dia. Era quando me sentava relaxada, na minha cela depois de me despachar das obediências,depois de lavar a cara e os dentes, é que eu gostava de me sentar a ler as novidades do exterior. Antes de ir para a missa da tarde eu abri o envelope e encontrei no interior um pequeno livro de capa bordou com o título “O Fiel Ruslan”. Abri o livro, não tinha nenhuma inscrição, poisei-o na estante, e só voltei a pegar nele passados alguns dias. Contei à Madre Alexandra o que tinha recebido, ela disse-me que era um bom livro, que ela o tinha publicado uma vez numa revista que editava na Alemanha, e que o Autor lhes agradeceu especialmente por não terem alterado nem uma vírgula. Comecei a ler o livro devagar, era tão pequeno, mas demorei tanto tempo a lê-lo. Contava a história de uma cão educado para guardar prisioneiros nos Gulags, O Ruslan, e como ele sobreviveu e se adaptou ao mundo quando os Gulags foram desfeitos, as pessoas libertas, e os cães abandonados. Eu sabia que o livro me tinha sido enviado pelo Andrej, e que se ele escreveu a morada do remetente no envelope, era porque me dava abertura para lhe escrever uma resposta. Passaram-se meses primeiro que eu lhe respondesse. Eu lutava contra a tentação de quebrar a obediência que me dizia não voltar a falar com ele. Por outro lado se já tinha lido o livro que ele me enviara era como se já tivesse falado. O meu pensamento estava novamente ligado a ele, e eu não tive outra solução senão responder. E já não sei o que lhe escrevi ao certo, mas disse-lhe, que sentia a sua falta pois nunca tinha encontrado uma alma tão semelhante à minha e que lhe pedia desculpa, pois foi por minha causa que ele teve que partir. Falei-lhe como sofro o dia a dia e partilhei com ele a minha angústia. Que grande seca de carta, deve ter sido, mas verdade é que partilhei com ele tudo aquilo que não podia partilhar com mais ninguém, pois só ele não me julgava, nem questionava os meus pensamentos, ele apenas compreendia. Até agora todos me criticaram, puseram em causa a moralidade das minhas acções, e ensinaram-me uma moralidade que me obrigava a lutar contra tudo à minha volta. Eu estava farta das minhas falhas, e dos meus deslizes, mas aprendi a arrepender-me e a reconhecer que agia de forma insensata e impulsiva. E tentava ser mais tranquila, menos vacilante, para isso eu precisava de uma decisão imediata.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: