Publicado por: almofadas | Março 6, 2012

Sala de Reuniões

       Apesar das saudades, das terras e das pessoas, apesar de saber que a minha vida iria ser apenas a lembrança daqueles que já não estão comigo, eu achava que o mais sensato era ficar, adaptar-me, aprender a valorizar o meu meio e as pessoas que nele habitam. Foi preciso descontrair e deixar de procurar para encontrar o lugar onde me encaixar. Eu já estava integrada há muito tempo, digamos que aquele grupo, já me tinha dado rumo para entrar, e eu seguia-o agora, finalmente com a minha mente, que parecia ter chegado atrasada. As pessoas já tinham elaborado sobre mim a sua opinião, mas eu sempre achei que não era digna de possuir uma opinião sobre as pessoas, porque não as podia julgar, nem questionar os seus actos, pois isso cabia a Deus fazê-lo, e não a mim. Apenas a omnisciência divina pode ter a clareza de julgar uma atitude ou postura. Reparámos num galho no caminho do próximo e não nos apercebemos que está um tronco no nosso. Comecei a questionar-me mais sobre o que pensava das pessoas e a elaborar a minha visão sobre as coisas. Parte de mim fugia daquele lugar e mesmo assim eu quis ficar.
       Em breve chegaria a nova juventude ao convento, mais duas Gémeas, a Nádia e a Anna, e mais uma Nádia. Elas pareciam fúteis e mundanas, e eu não queria nada com elas. Deixei-as ao encargo da Irmã Tânia, e ocupei-me das minhas obediências. Chegava a Quaresma, mas de jejum, eu tinha passado o ano inteiro, alimentada a legumes cozidos e papas de aveia. Ai, minhas ricas couves que agora não as podia comer. Eu andava cansada, as tardes eram mais longas e novamente solitárias, as manhãs mais compridas de missas. Abria-se o canto das aves ameaçando o chegar da primavera. A Madre encarregava-me de ensinar lavores à nova Nádia. Fui-lhe mostrar o atellier das Raissa Petrovna, as caixinhas de fitas e miçangas coloridas. Aos poucos fomos-nos conhecendo. Ela aprendia bem e entusiasmava-se ao fazer as coisas, era agradável estar com ela e para nossa comodidade, fomos pedir à Madre benção para levar os lavores lá para cima, para a minha cela. A Madre não se opôs, e nós Fomos organizar o nosso atelier. Primeiro fomos à procura de uma tábua grande para utilizar como bancada de trabalho , encontramos entre os materiais da Irmã Natalia uma tábua mesmo à medida para colocar por baixo da a clarabóia lá na minha cela. Trouxemos prateleiras e caixinhas para guardar os materiais, e mais algum mobiliário. Havia uma coisa curiosa que se passava com a mobília dentro da mansão, podia-se movinetar a mobília pela casa substituindo ou retirando peças dos corredores. Trocando prateleiras com outras irmãs. Quando eu me mudei para a minha cela o Serguei construiu-me uma estante e uma prateleira para a lâmaprina, a prateleira ainda lá estava, mas a estante, já tinha vivido meses no quarto da Irmã Eulália, e depois foi transferida para o quarto da Irmã Tânia, e era muito cobiçada pela Irmã Natasha que morava na cela ao lado, eu substitui-a por uma de madeira velha e gasta, que na minha opinião era muito mais bonita do que a nova. Desde que no final tudo ficasse bonito não havia problemas, se houvesse mobília disponível, podia ser utilizada por quem precisasse dela. O nosso corredor e hall do sótão foram-se enchendo aos poucos de cómodas, estantes, e mesinhas, que serviam para guardar pouca coisa e que se podiam trocar. Eu própria mobilei a nossa casa de banho, coloquei-lhe um espelho, uns ganchos para pendurar as toalhas e dois móveis de apoio, que estavam disponíveis na altura. Encontramos tudo o que precisávamos,agora éramos nós as duas ouvindo música e fazendo lavores na minha cela. No entanto, passado pouco tempo, tanto nós, nos fartamos de lá trabalhar, como a a Madre pensou ser melhor organizar uma uma sala de lavores, tendo em conta que agora havia várias jovens que podiam beneficiar do convívio de uma actividade. A sala ficava mesmo no topo da escadaria principal. A sala fechada mais próxima da entrada, era obviamente a sala de reuniões. A sala central da casa, de onde se via todo o relvado e o caminho para a igreja, o bosque de tílias, o silêncio estático dos arbustos, chamas imóveis e escuras. Aquilo tudo tinha uma beleza refinada, que planeava o mundo de outra forma.
       O centro da sala era ocupado por uma mesa oval, e virada para as janelas altas uma estante com livros, todos bonitos, com tudo o que é importante para a Igreja. Entre as janelas estava a televisão. A Madre Evfrósinia trouxe da Rússia, várias cassetes de vídeo de filmes e desenhos animados clássicos, que toda a gente conhecia e em dias de festas semanais, em que a vigília da tarde era festiva e tal como nas vésperas de domingos, ou festas grandes, o jantar era tomado na cela, mas a vigília da madrugada era comum, a Liturgia começava oito. Depois do pequeno almoço, as obediências era retomadas como em dias normais, e a tarde podia ser mais folgada, no nosso caso a folga permitia-nos, ver filmes enquanto fazíamos lavores. As Gémeas gostavam de fazer tricô, e ensinaram-me a fazer meias com cinco agulhas. Eu nunca tive muita paciência para o tricô, gostava mais de crochê, e por birra minha nunca tinha aprendido a tricotar com a minha mãe. Desta vez consegui aprender, e fiz dois pares de meias de lã para os meus irmãos. Para arranjar lãs, utilizávamos o mesmo métodos que a Liuleka usava para nos oferecer meinhas de lã quentinhas que nós usávamos no inverno. Desmanchávamos camisolas de lã e enrolávamos a lã em novelos coloridos. Esse também era um passatempo interessante, porque enquanto uma desmanchava a camisola puxando a linha a outra enrolava o novelo para ficar bem redondinho, e depois, obviamente, arrumava-se os novelos numa cesta para mais tarde se utilizar. A lá era também utilizada para fazer os terços, que muitas irmãs faziam, e a reciclagem de camisolas era organizada pela irmã Natália que arrumava as roupas doadas, na cave. Este passou a ser outro sítio que visitávamos com frequência. Se procurássemos bem encontrávamos coisas giras e confortáveis que podíamos usar, e procurávamos botões, fechos, fitas, tanta coisa que se prende à roupa e que se pode reutilizar.
       Na comunidade russa em geral, existe um hábito a que nos acostumamos de pequenos e que se  pratica em grupos de família e amigos, principalmente no convívio entre crianças e adultos. Enquanto uma pessoa lê um livro em vós alta, as outras fazem lavores: bordados, tricô, crochê, macramé; um trabalho que envolva habilidade manual, enquanto a mente está entretida com o enredo de uma história. Acompanhando a leitura fica aberta a expressão de ideias, sejam elas sobre o lavor ou a leitura. Na minha opinião esta era a melhor forma de socializar ali dentro, e acabamos por nos divertir bastante. Finalmente consegui exprimir-me, e sentir-me à vontade, às vezes inventava histórias ridículas, a partir de contos tradicionais, que nunca mais acabavam, porque acontecia sempre mais alguma coisa. A Madre Evfrosínia, lia-nos livros sobre a história da Igreja e explicava como se tinha formado a religião ortodoxa, qual importância e o significado das coisas. Eu gostava muito das aulas de catequese, e mais tarde passamos a ter aulas sobre a história da igreja e hábitos religiosos. A Irmã Liudmila gostava de ler vidas de santos e tinha alguns preferidos. Eram bastante interessantes as histórias de santos contemporâneos, e eu cheguei a ler duas biografias que me cativaram muito. Em geral os meus santos preferidos eram os loucos, as descrições das suas vidas eram engraçadas e sábias ao mesmo tempo.

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