Publicado por: almofadas | Abril 3, 2014

no jardim da grande cidade

Quanto mais a lua brilhava mais se levantava a vontade de partir e de deixar aquele lugar, o que me impedia então. O Romão? Não ele não era um impedimento, talvez até houvesse entre nós alguma cumplicidade, mas não era suficiente para me prender a ele ou a qualquer lugar que fosse. Mesmo que ele me contasse aquelas conversas disparatadas sobre o quarto amarelo onde através de eléctrodos se descarregava para o servidor gigante a informação que ele processava, e que eu estava ligada a ele. A quem? Ao Romão ou ao servidor. Fosse como fosse, eu já corria pela ala escura entre os pavilhões gigantes. Corria, corria, e e à minha volta era tudo de muros e paredes altas. Suspirei, porque me prendia tanto o pensamento aquele lugar macabro onde sabe-se lá o que era feito às crianças. Se calhar o Romão tinha razão quando me dizia que eu não conseguiria partir, e no entanto aqui estava eu sentada entre tílias num banco de jardim, na grande cidade.

Ouvi uns saltos altos a ressoar pelo passeio, “Vadia” disse-me uma voz de mulher preconceituosa, que passou por mim no som dos saltos, “Prostitutas, este jardim está cheio”. A sua conclusão acordava-me, trazia-me à realidade dos confins da minha imaginação pouco fértil, pois era toda ele obstáculos e escuridão. O quê? Prostitutas? Eu olhava em redor, não via ninguém, apenas a luz dos candeeiros redondos escondidos entre as folhas dos arbustos altos. Depois olhei para os meus pés, as botas de cabedal, seguravam-nos com elegância. Bem, mais valia que fosse uma dessas, pensava eu, sem saber bem o que isso seria. Assim pelo menos estaria a fazer alguma coisa neste jardim deserto, talvez tivesse algum lugar para onde ir. Levantei-me e encostei-me a um candeeiro, pus as mãos nos bolsos, dobrei uma perna apoiando o pé no poste, molhei os lábios e simulei um olhar sedutor para o vazio. Para minha surpresa o passeio no jardim não estava vazio, o meu olhar deparou-se com um jovem, de cabelo cortado à máquina, cara redonda, e sorriso atrevido. Ele olhou-me dos pés à cabeça como se me tivesse a dar uma lambidela gigante e isso fez com que me sentisse ao mesmo tempo repugnada e atraída por ele. Foi uma espécie de calafrio que me subiu pela barriga deixando um vibrar desconcertante no peito. Nisto aproximou-se o seu companheiro que vinha cambaleando pela alameda de árvores, olharam os dois para mim com ar guloso, e seguiram.

No banco estava pousada a minha mochila, e junto a ela um caderno, sentei-me, abri uma página ao calhas e fiz um desenho, era um rio que nascia na montanha numa cascata que se de derramava sobre pedras negras, e depois seguia numa corrente calma serpenteando pelos vales para se vir misturar com o mar numa baía confortável. Nas minhas costas ouvi estalar os ramos nos arbustos e o farejar dum cão. Era um rafeiro simpático, Cheirou-me o pés e olhou-me nos olhos. Duas orelhas carinhosas e um nariz peludo. Fez-me sinal, e eu dei-lhe uma festa. Estendeu-me a pata, e eu sentei-me no chão a brincar com ele. “Tipo estes friques”, retive eu duma conversa de um casal que passeava por ali. O Rafeiro deu-me uma ultima festa e continuou o seu caminho. Sentei-me no banco e encolhi os joelhos, não estava frio, a cidade era quente, eu sentia-me sozinha. Não tinha a minha mãe, e a Sofia, eu nem queria pensar nela, a minha avó na biblioteca, esse era o meu porto de abrigo, esse era o sítio onde eu queria estar. Encontrar o Boris, conversar com ele em cima do telhado, contemplar a beleza dos prédios antigos e das cúpulas sagradas do centro da cidade. Eu era tão pequenina quando isso aconteceu, depois apareceu a minha mãe com a Sofia e levou-nos para outra cidade, uma cidade sem cúpulas, uma cidade com castelo. E tudo ficou diferente, depois disso toda a minha vida era feita de muros e armazéns. Assim voltava ao épico cenário de sempre e no entanto, o azul indigo na manhã vibrava na superfície do mundo, a cidade acordava do silêncio, eu assistia.


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