Publicado por: almofadas | Março 18, 2016

final do livro

Passaram anos! Parte dela ainda se sentia presa dentro daquele túnel que há muito esquecera. Colocada numa prateleira daquelas, lá de cima, onde raramente se chega a limpar o pó. Uma parte dela imaginando uma saída algures: lá longe uma cascata que rebenta do interior da montanha e se acrescenta as correntes do Rio do Sul. Outra parte imóvel dentro daquele espaço amarelo suspensa ligada por circuitos invisíveis ao grande servidor, apenas doando informação, que ela própria não conhecia. Saltava pelas traves do ângar, de onde observava a nave especial. Aquele objeto imenso decorado de luzes e fios. e o Romão, aquele único que lhe poderia explicar algum nexo naquela existência. Se ao menos ela existisse! Como na infância limpando o chão da pequena casa, para evitar que os adultos tropeçassem nas suas coisas e derramassem as angustias do quotidiano. Fugindo; escondendo-se; protegendo a sua irmã; procurando. Perdida na grande cidade, nas avenidas, alamedas, nos túneis de metro e estações de comboios. Empurrada de todos os lados por pessoas que passam apressadas, correndo entre as pedras da água do rio a caminho do mar. Rasgada pelos circuito de energia que lhe é retirada para aumentar o código da “grande nave”, deixando um frio, uma chapada na pele, como as caudas de peixe que rodeavam em pesadelos longínquos. Agora sentia a pele a romper colada nas escamas e cortada pelas barbatanas, como se estivesse a ser erguida numa rede de pesca entre milhares de peixes. Aparecia na confusão a luz, brilhando sobre o corpo ainda dorido, ainda dormente. A luz vibrava sobre a pele e soltava-se ao vento tudo o que era peso e dor, como se fossem escamas secas. Brilhavam ao sol pairando à sua volta, como se fossem pétalas coloridas. Quando dei por mim, não havia corpo nem matéria.

A rapariga poisava o livro sobre o banco de jardim. Tinha uma capa amarela e a lombada era preta. o que restou de mim foi uma presença que ondulava reluzindo ao sol acendendo as labaredas ruivas dos cabelos ondulados. Cheirava-me a girassóis. As pétalas coloridas transformaram-se em linhas curvas e retas que formavam letras e fluíam em cascata umas atrás das outras, saltando e formando palavras. Frases inteiras. Desenhava-se um cortinado de renda sobre uma janela azul, cheirava a bolos de canela e café.


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