Publicado por: almofadas | Março 27, 2016

seria melhor ter vontade de rir

Sim! Ainda tinha nas unhas cravado o sangue, já seco e negro. Como se eu presa dentro do meu próprio corpo tivesse tentado libertar-me. Seco, negro e inútil, como a sujidade que se remove das coisas. Um desperdício, como a terra que fica nas unhas depois da horta. E senti- o ainda, o odor, olhando para as minhas mãos, o odor adocicado a ferro e corpo. Sim e senti ainda a dor que me rasgava as veias e era como se em vão tivesse tentando romper caminho através da minha própria pele. Era o corpo, esta fraqueza constante, o peso das costas sobre as pernas; o peso das mãos e dos braços. Havia dias, que uma agonia me trazia  para a garganta um sabor áspero. Como se literalmente eu estivesse enforcada algures pendurada num tronco, sufocando lentamente, afastando-me dos sons. Movimentava-me com dificuldade através do ar que parecia mais denso que a água e as noites destes dias pareciam curtas demais para que o sono repusesse as forças. Fraquejava!

O dia a dia, a poeira aquela que anda no ar e que assenta sobre tudo o que é superfície, pesava tanto como se os anos estivessem agarrados à carne. Nem mesmo as palavras se conseguiam soltar, fundiram-se com o peso das horas e prendiam-me ao fundo como se fossem chumbo. Traíam-me pois haviam sido elas a ensinarem-me a voar, noutros tempos. Quando o mundo ainda era feito de algodão doce e eu achava que as nuvens também seriam assim como se já as tivesse tocado. Ele estava lá do outro lado da porta de aço e eu batia nela desfazendo-me em sangue e lágrimas, enquanto ao longe ouvia sua voz afastando-se e os seus passos ecoando cada vez mais longe, algures noutro mundo. “Não! Eu não quero que vás buscar ajuda! – gritava eu – Quero que fiques aqui comigo. Preciso apenas de ouvir apenas duas palavras, uma palavra, só para mim, e talvez sinta o teu calor mesmo através da porta de aço
E foi aí que um rasgo de luz surgiu, por baixo dessa porta uma minúscula, uma fenda de luz, era tão fraca mas no meio de tanta escuridão, luz era uma coisa inconfundível. Eu conseguia ver e sabia que por ali havia uma saída. No entanto era este corpo esgotado, pesado e ferido que não me deixava sair. Deixei-me cair e encostei a face ao chão e rasguei a pele para que ao menos o meu sangue pudesse correr livre. Para onde quisesse, até ao outro lado da porta talvez! Senti então, pela primeira vez, que o calor que estava dentro de mim era verdadeiro. Agora eu conseguia vê-lo: era vermelho, escorria pelos meus braços até à face deitada sobre o chão frio. Era quente e espesso envolvia-me como aquela carícia que há tanto esperava. Era eu quem escorria pela fenda enquanto o corpo ouvia o cimento seco do chão, absorvendo-me. O sangue quente corria, senti o meu calor a chegar à terra e senti pertencer-lhe, quis absurdamente pertencer-lhe para sempre largando esta luta fútil…
A terra não se abria para me receber. O chão tremia e tecto derrubava-se sobre mim caindo pedra a pedra esmagando-me. Enterrava-me ainda viva. Pedras de culpa, mais pesadas do que o granito, terra fria e seca. Imobilizava-me! Como!? Como encontrar perdão? Morrer não bastava! Contra as forças da própria natureza. Contra aquilo de acreditava ser capaz. Movi-me lentamente através das pedras, deixando que a terra fria e seca me entrasse nas veias e se tornasse húmida e quente.
Parecia um trabalho vão tão inútil como varrer uma estrada de pedra batida. Para quê? Perguntava a mim mesma? Teria sido mesmo necessário enfiar-me neste túnel. O cheiro adocicado a ferro corpo e terra, cabelos e sangue, enjoava-me tudo era demais. Como perdoar-me por ter seguido aquele caminho. O que fazer agora? Como conseguir sair. O que fazer agora, já que o sacrifício não era aceite.
Sangue não lava pecados, e derramado em vão arrefece depressa, é ele mesmo o pecado.
Como se tivesse acabado de nascer. Imunda e agoniada. Exausta e enojada pelo processo. Desejava o calor do sangue que já não corria, a carícia infinita, o unguento interior. Desejava alguém me agarrasse e me dissesse coisas bonitas… Não merecia! Nada podia ser mérito! Pois tanto a fuga é imperdoável, como o sangue que permanece negro e seco entranhado nas unhas, colado à pele. Como se tivesse acabado o mundo.

Sujeito-me assim a viver doando tudo o alguém de mim queira levar!? que leve! Só penso como conseguir perdoar-me por tudo, por este caminho sem retorno e doo-me nas esperança que as mãos que me agarram, enquanto me quererem, sustentem este invólucro, corpo inútil.

Não! Não foste tu! Não foram os teus passos afastando-se ao longe. Fui eu, era eu já estava morta, Já estava morta quando entrei naquele lugar. quando nasci, já estava morta. Aqui o castigo era viver dentro do meu próprio cadáver. Aguentando de dia para dia aguentando o seu cheiro putrefacto. Já sem achar sentimento nem conforto nas palavras bonitas. Desejo, se ao que sinto pudesse chamar desejo, que tudo à minha volta fosse mentira! Mas não! Tudo à minha volta é tão real quanto consigo ver. Como perdoar-me? Como conseguir aceitar o facto de não conseguir ver nada diferente, e que nem o frio medonho que senti foi o conforto da morte que procurava, mas sim o corpo algures esquecido lutando por vida. Era terra seca que agora enchia as veias e o sangue quente já não corria pelos braços. Secava e repuxava a pele. Mais uma chapada, a única carícia que eu merecia. E eu pensei querer merecer mais.

 

À noite como sempre levantava-se o nevoeiro, deixando as suas pequenas gotas sobre tudo por onde passava. Alimentando de brilho as folhas jovens e garantindo a beleza do orvalho brilhando sobre as flores frescas quando nascesse o dia. As papoilas de pétalas leves reluziam com os primeiros raios de sol que através das copas densas das árvores se infiltravam na floresta.

Passaram muitas primaveras. o cheiro do sangue seco, o fedor do corpo morto, nunca existiram para quem parasse agora naquele lugar. As papoilas leves e delicadas não falavam para contar sobre o mar de mágoa sobre o qual tinham crescido. Pela manhã, eram apenas os raios de sol rompendo através das copas das árvores, brilhando nas gotas de orvalho e no chilrear dos pássaros. Era mais uma primavera.

Longe da fera, dormia eu

Longe da fera

Ser Primavera sonhava eu

Ser Primavera

Tempo que era, era meu

Tempo de espera

Pelo que só o tempo trás

Sem saber que o faz

Sonho ser fera

Ter sua presa! Ter sua manha!

Tempo que estranha, estranho eu

Alma de fera, eu não sou

Para onde vou

Nada me espera, menos eu

Sou Primavera

Sonho meu

Sou Primavera!

 

Porque será que me apetecia gritar? Não seria muito melhor ter vontade de rir, desenterrar o esqueleto e dançar com ele um “rumba”, em vez de derramar sobre a terra fresca, lágrimas pelo que já existiu.

 


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