Publicado por: almofadas | Abril 14, 2016

Os pequenos lírios

Saí de casa apressadamente antes que o telhado voltasse a ruir. Saí é uma forma de dizer apenas… eu fui expelida, defecada, vomitada, qualquer uma destas palavras define melhor aquilo, que visto de fora era aparentemente, uma mulher de mala ao ombro saindo de casa para tratar de assuntos. Assunto, meti-me no carro com essa na cabeça. O primeiro assunto a tratar era recuperar o ritmo da respiração e do batimento cardíaco, e depois fumar os cigarros que fosse preciso a ver o mar. Conduzir é uma excelente maneira de controlar o choro. Se realmente precisas de tratar de algo e o objetivo é resolver problemas em vez de procurar. Conduzir a chorar é como conduzir à chuva sem limpa para-brisas.

Visto o mar, as ondas, as gaivotas, o calor do sol no carro. As lágrimas não se atreveram, os olhos bem abertos, pois há muito coisa para ver, principalmente na primavera. Aos poucos o maxilar ficou mais solto, os ouvidos deixaram de zumbir, mas o centro da testa continuava carrancudo. Sem mais assuntos a tratar naquele lugar, e passados apenas 2 cigarros, dei corda às rodas e continuei.

Minutos depois, quase a chegar ao destino. O peso da cabeça escorrega para dentro, fica preso na garganta. Apetece mandar tudo “p’ró galheiro”. Foda-se! Que nó no peito! Ameaça um aguaceiro nos olhos, e em vez de parar eu continuo tomando a decisão súbita de ir ver o mar novamente mas noutro sítio. Que isto sei bem é só uma questão de tempo até passar. Volto a respirar, consegui fugir do aguaceiro. No entanto aquela parte que caiu algures para dentro do corpo, antes de ter ficado preso na garganta. Agarra-me com força pelas costas e pelo peito. Uma nuvem densa, as mãos tremem, cerro os dentes e viro na primeira à direita. Ora vamos lá experimentar uns caminhos novos!

Esquerda, direita, ruas estreitinhas, cruzamentos, casas, canaviais. – Nada mau querida! Mas, se o teu destino é o mar, vais acabar de certeza com o carro atulhado num caminho cheio de lama. Caminhos de terra são a única forma de chegar às arribas da Tojeira. – Calma, vamos ver até onde isto vai. Não sou tola o suficiente para me enfiar em caminho duvidosos, sei bem como isso acaba. Tenho assuntos para tratar, não tenho tempo para andar a desentulhar carros. Sigo pelos melhores caminhos que encontro, sem encontrar aquele que realmente quero. Acabo por seguir num de terra batida, já com relva na parte do meio e sem lama, só que paralelo ao mar. Em terceira e com calma, mais à frente vejo uma lomba e o caminho começa a descer para o vale. Marcando a descida, na zona mais larga do caminho, onde seria possível fazer inversão de marcha, quatro poças cheias de lama, perfeitinhas para afogar os quatro pneus durante a manobra. Mesmo assim tento, estou determinada em voltar para trás. Ao terceiro movimento do volante a roda da frente entra na primeira poça, e diz-me decididamente rodando, para a frente nem pensar. Elaboro os mesmo movimentos no sentido inverso sem pensar duas vezes. Em terra firme, desligo o motor e deixando o carro atravessado no caminho, acendo mais um cigarro. A ventoinha do radiador gira freneticamente, deixando-me nervosa, saio do carro para poder avaliar a situação e ver uma forma possível de fazer a manobra.

A nuvem é densa mas eu estou determinada a não ceder e nem olho para ela. olho à minha volta. A Paisagem é bonita, campos, flores, o mar lá ao fundo. Uns armazéns de transformação agrícola, umas vedações em ferro fuleiras. Se conseguir subir com cuidado uma lomba mesmo à minha frente evitando a lama, posso dar calmamente a volta no terreno em frente, parece uma eira, tem ervas baixas e nenhuma lama, porque é mais elevado. Vou à bagageira do carro procurar um saco. pelo caminho já vinha a “topar” os vigorosos Trevos do Rei, repletos de flores amarelas, para as febres e as dores de cabeça. Enquanto espero que o carro arrefeça tenho tempo para apanhar algumas. momento ideal, já que nunca consigo ter tempo para isso. Começo a apanhar as flores ainda triste e começo a cantar a minha melodia de rima. Aquela que nunca ninguém ouviu, e nem sei se é bonita, é uma espécie de chama-rimas. É uma melodia que cola tudo, e torna as frases muito simples. Então sai-me qualquer coisa do género: que mesmo triste colhendo as flores sou melhor do que aquele que não as vê. Sinto que isso é realmente verdade. Tanta gente no mundo que passam dias sem olhar para uma flor, sem saber as suas propriedades. Para eles é indiferente, eles têm moral, têm sapatos caros e dinheiro. Eu gosto mesmo das plantas, eu tenho esta sensibilidade, tenho a capacidade de observar a beleza das pequenas coisas e encantar-me com isso. Para mim isso é muita moral.

Apanho as flores amarelas para dentro do saco pendurado no braço. Ainda tenho tão poucas. Tenho que apanhar muitas se quiser ter chá suficiente para curar as maleitas do próximo inverno. Apanho mais algumas e volto pra junto do carro, para ver se a ventoinha já se acalmou. As botas de pantufa que “gamei” à Catarina estão todas molhadas. Quero tanto ter umas botas de cabedal! De repente vejo no chão, exatamente no sítio por onde tenho que passar a roda do carro para não derrapar na lama, um raminho de lírio roxos, selvagens, a nano espécie. Como eu os ADORO! São os meus preferidos. São sorrisos que brotam sobre chão árido, são tão perfeitos, tão idênticos ao grandes, mas pequeninos. A ventoinha ainda gira e eu dou mais uma volta à “eira” colhendo flores amarelas. A caminho do carro quase me esqueço de colher os pequenos lírios. Um raminho de flores para a Lucinda, ela fica sempre tão contente quando eu lhe apanho flores… Querida!…


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: