Publicado por: almofadas | Maio 18, 2016

quem me matou

Há no entanto um pequeno Senão. Lembraste daquele tempo em que achaste que eu estava toda encantada com o João e tu te roías de ciúmes, convencido de que havia algo entre nós. Pois digo-te agora que entendes que nada houve, realmente houve uma simpatia especial e nada mais até que tu resolveste dizer que havia faísca entre nós. Pois é, por vezes uma mera frase pode mexer com muita coisa. Eu pensei então que talvez houvesse do outro lado mais compreensão, talvez houvesse interesse, talvez houvesse até um homem disposto a lutar por mim e a gostar de mim tal como sou. Deixei-me confundir mas digo-te que não houve sequer uma conversa intensa entre mim e ele, não ouve mesmo nada. Quando te quis deixar, tu pensaste que era por ele, mas foi por mim, pelos meus princípios. E para ficar contigo eu tive que ir contra eles. Tentei e quis compreender-te, e sossegar-te, preferi virar as costas aqueles que considerava amigos, sabendo que o iriam deixar de ser, apenas porque tu não gostavas que fossem.

Agora é sempre assim, tu vais eu fico e quando vamos os dois, tu estás e eu acanho-me. Eu não te estou a tentar culpar pois sei que faz parte de mim fechar-me no meu cantinho, mas não deixo de me lembrar. Quando te conheci, foi como desabrochar. Eu que nunca conseguia entrar no mundo, senti que fazia parte. De repente apareceram amigos, pessoas que gostavam de mim, e eu falava com elas, e o sentimento era bom. Não era como era antes, em que me sentia ridícula, e pensava que mais valia mesmo era estar calada porque sempre que falava com alguém a impressão que tinha era de que estava simplesmente a aborrecer as pessoas. Começamos a fazer coisas juntos e pela primeira vez senti reconhecimento, senti-me uma estrela ao teu lado. E é um desafio não me lembrar das primeiras festas aqui em Fontanelas com a malta em que eu me divertia e me sentia com asas, e subitamente tu caçavas-me algo em mim não te agradava, cortavas-me as asas, tinhas conversas comigo que me faziam sentir mal como se eu te tivesse falhado profundamente, porque só te tirei duas fotos a passar som, em vez de vinte ou trinta, lembro-me tão bem desta discussão infelizmente, que me magoou tanto. Lembro-me de todas as vezes depois de estarmos com pessoas, quando chegávamos a casa, tu começavas a questionar uma a uma as coisas sobre as quais eu tinha falado com outras pessoas. Fizeste-me sentir ridícula, fizeste-me sentir novamente insignificante. Lembro-me quando ficavas tão perturbado, por eu ir passear com a Lucinda com a malta, e como deixei de o fazer para não te chateares comigo. E dos dias que eu ficava em casa sem sair por medo. Lembro-me daquela horrível festa da Páscoa, em que depois de tanto tempo em que eu fiquei em casa, grávida e depois com a Lucinda bebe, das poucas (na altura eram poucas mas mesmo assim eram algumas) vezes em que foste sair e eu nunca me importei. Nessa Páscoa eu queria tanto sentir-me livre poder falar e estar com as pessoas sem pensar que mais logo me repreenderias por ter dito algo que não tinha falado contigo antes. E queria também estar um bocado sozinha, sem me preocupar com nada porque tu estarias a tomar conta da nossa filha da qual eu tomei conta mais de um ano seguido sem te cobrar nada. Não me deixaste, da primeira vez que te pedi isso tu não deixaste. Tu só pensaste em ti, só pensaste que eu não queria era estar contigo. Ciúme, bem sei que querias que eu também tivesse esse sentimento corrosivo. Falaste-me de princípios e de sentimentos, falaste-me de que eu não podia querer ter amigos, só te podia querer a ti. Que era impensável eu preferir, nem que fosse por instantes a companhia de outra pessoa, fosse ela homem ou mulher. As coisas azedaram, eu percebi que para estar contigo eu deveria desistir de ser eu, porque sempre que eu me sentia à vontade e me soltava, tu caias-me em cima como uma bomba. Tentei-te deixar, porque tinha medo de me apagar por ti. Tu refilavas, incomodava-te o facto das pessoas gostarem de mim, e do que eu faço. Pensavas que gostavam mais de mim do que ti? Pensavas que brilhavas menos ao meu lado? Infelizmente não consigo deixar de me lembrar quando parei de escrever apenas porque tu não conseguias tolerar o facto de alguém apreciar o que eu escrevo de uma forma que tu não conseguias. E quanto me custou voltar a fazê-lo, por medo. Como me senti perdida e apagada, quanto recuei, para não te ofuscar. Tentei-te deixar, e no momento que o fiz senti que eu não estava apagada, mas que os meus amigos já não me viam da mesma forma, eu já me tinha tornado para as pessoas aquela rapariga que só faz o que o namorado deixa e que comigo já ninguém contava. No entanto, numa introspecção houve uma voz que me disse que eu não estava melhor sem ti e que perder-te seria o maior erro da minha vida. Afinal de contas eu queria alguém que lutasse por mim e tu lutaste, tu não me quiseste deixar, e também eu resolvi lutar, mas não sabia como, portanto fiz tudo como tu querias, afastei-me de toda a gente. Tu podes não ter notado, mas durante um ano, eu não fui ter com ninguém, não telefonei a ninguém, não escrevi, não conversei. E tu ficaste mais calmo. Eu estava contigo mas sentia-me triste. Lembro-me da luta que foi quando eu disse firmemente que queria fazer parte do Cala, para mim era a última hipótese de voltar a ser eu e conseguir aproximar-me das pessoas por vontade própria, e não porque me autorizavas. Lembro-me da luta que foi fazer parte do Cala e das discussões que tínhamos todas as semanas, antes e depois. Venceste esta luta, e eu cá para mim desisti, falhei no teste e percebi que estar contigo implicava não estar com mais ninguém, mesmo assim preferi-te a ti. Cuidei de ti, cuidei da filha e cuidei da casa, e dentro de mim tentei ser feliz.

Ciúme era eu que deveria impedir que o sentisses. E eu fi-lo porque tu eras o eleito. Por amor virei costas a tudo, para que tu pudesses crescer. Mesmo assim não andavas feliz, agora que não era minha a culpa de não te sentires bem era o trabalho, tentei compreender, tentei apoiar mas aborrecia-te, não te sabia dizer as palavras certas. Depois ficaste mais tranquilo com a vida, assim do nada, ficaste mais feliz, mais realizado. Depois eu descobri a causa desse teu súbito bem estar emocional. Perdeste a vergonha de me trair. Venceste? Foi crime a tua glória. Mataste parte de mim.


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