Publicado por: almofadas | Maio 18, 2016

tudo ou nada – é a mesma coisa

 

Um dia sereno de inverno, cheio de sol, de ar gelado a bater na cara. Uma rapariga seguia sozinha pela estrada que atravessa o campo de uma povoação até à próxima. Focando o seu olhar nas pedras do asfalto que brilham em cores diferentes a cada paço seu. Deixando para trás algo que lhe pesava tremendamente, seguindo para lado nenhum, olhando, dentro de si para o lado de onde fugia.

Quando fugimos de alguma coisa, significa que isso nos persegue. Continuará a perseguir enquanto fugimos. Ficamos tranquilos por instantes, mas sempre reticentes… Será que vai surgir mesmo à nossa frente quando menos estamos à espera, será que nos observa pelas costas enquanto caminhamos descansados.

Ela saiu por sua livre vontade, saiu mas voltou para levar algo que lhe faria falta. Nessa altura foi expulsa. Fechou a porta acompanhada com as palavras não voltes mais a esta casa. Mandaram-me embora, logo não estou a fugir. – pensava ela. Desta forma, aparentemente tranquila, mas profundamente triste ela seguiu pela estrada fora. Transbordada pelo sentimento de raiva, fúria ela enfiava num caixote de lixo imaginário todas as brigas a que foi obrigada a assistir, toda a loiça suja, toda a roupa por passar a ferro, todas as mágoas que lhe colocavam nas mãos para reconciliar, todos os bonecos partidos das crianças. Uma a uma ela pensava eliminar aquelas coisas que nunca lhe davam paz. Sem ter a quem telefonar, sem ter para onde ir, ela sentia-se livre, mas só. Completamente só numa luta que pelos vistos era apenas dela. Há anos atrás ela pensou ter escapado, mas no momento em parecia estar tudo em ordem “a coisa” apanhou-a inesperadamente, e segurou com força.

Após uma noite fria na rua com os seu pensamentos tudo era como era. Na manhã seguinte ela já se via reintegrada no seu contentor imaginário que continha todas aquelas coisas que ela quis rejeitar no dia anterior. Zangada, aceitou aceitar. Aceitou dar o seu melhor. Fugir era impossível, talvez fosse possível resolver.

Olhando para trás, ouvia palavras que a repreendiam, não podes faltar ás aulas, tens que fazer os trabalhos de casa, vai lavar a loiça, vai passar a roupa, faz o jantar, põe a mesa, lava a loiça, não podes ir sair, vai arrumar o teu quarto. – Tudo! Cheguei a fazer tudo isto perfeito, mas não encontrei a paz. – E acabando com largas reticências correspondentes às palavras que ela não queria sequer repetir na sua cabeça.

Talvez eu não me tenha esforçado o suficiente, eu vou tentar outra vez, eu tenho que conseguir resolver isto, eu tenho que conseguir criar a harmonia. Tudo isto para se convencer de que ainda havia alguma possibilidade. E nunca deixou de acredita que era capaz. Tudo que sempre fez fê-lo com amor.

Passaram anos. Desapareceram nas voltas dos ponteiros do relógio, a partida, o novo começo, a morte e a ressurreição, mais um começo. – Será que quando alguém revém dos mortos vira zombi mesmo? Mas afinal o que sou eu? Tudo o que faço nunca é demais é sempre a menos. Tudo me parece um caos, impossível de resolver. Já não quero resolver nada!

Ela olha novamente para a estrada, passo a passo, o campo a sua volta, o alcatrão sempre da mesma cor. Ela sussurrou para si mesma apenas, em frente. São apenas alguns passos entre a ultima batalha até uma nova batalha. Ela sabia tudo, o mais importante seriam sempre os passos.


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