Publicado por: almofadas | Maio 25, 2016

um colchão já velho

Bem acomodado entre cheiros de creolina, naftalina e alfazema, um colchão de lã, já velhote ia, embrulhado em bocados de plástico para o sótão. Assim acomodado para não se tornar hospedaria de animais diversos, tais como pulgas, ácaros, traças e coisas do género. Ia lá para cima, pois era muita lã para se deitar fora. A mãe dizia que dava para mandar fazer um casaco, ou coisas em feltro. Contava como material. Materiais guardavam-se.

Eu crescia numa casa com dispensas e prateleiras cheias de coisas que serviam supostamente para fazer coisas. Eu cá só via coisas a ocupar espaço. Parte do meu objectivo de vida era dar uso a todas aquelas coisas que a minha mãe insistia em acumular. Na verdade as coisas tinham valor apenas quando alguém se debruçava sobre um ou outro canto da casa tentando libertar espaço e querendo levar algo para o caixote do lixo. Aí, ela dispersava-se em histórias sobre cada um dos objectos, e o seu valor sentimental ou a sua potencial utilidade apareciam.

Naftalina, creolina, suor, lágrimas e sémen, sangue, mijo, e alfazema para temperar. Qual o valor comercial de 50 kg de lã. Bem, se for lavada, escovada e embalada, quem sabe cerca de 20 moedas por cada quilo, se for fiada então nem se fala… Tretas! Para isso era preciso que houvesse mulher capaz de com as suas mãos desentulhar aquela lã, cujos quilos durante o procedimento ocupariam, quem sabe uma divisão inteira. Eu era mulher para isso. Não fosse eu esse colchão velho de lã. Encharcada de lágrimas e suor, sémen e sangue. atulhada de venaflaxina, quetiapina e ciamemazina. Tão valiosa!

fad verde

Todas estas “sinas”, encaradas de pés descalços, de mãos abertas, calejadas. Alguém me disse um dia, que grande valor traziam esses pés e essas mãos. Quanta coragem foi precisa neste peito firme para resistir à vida enquanto ela pinava comigo derramando o meu suor. Quanta beleza podia nascer desta matéria prima se eu quisesse. Depois de se deitar sobre mim, com tanto carinho e inutilidade, me guardou lá bem para cima. Cinquenta quilos de lá pura, bem conservada, sem mão para lhe dar o seu real valor. Sem divisão que pudesse ocupar…

Serei mulher!


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