Publicado por: almofadas | Outubro 9, 2016

O almoço

Era um daqueles dias, em que a caminho do trabalho, já descendo a rua rua eu parava por instantes com vontade de olhar pra trás, como se me tivesse esquecido de algo. Porém demorava-me apenas com a mão na alça da mala enquanto mordia os lábios e pensava. Abrandava o passo e naquele momento em que os pés estavam paralelos como se fosse parar, não parava, seguia rua abaixo, como se não me tivesse esquecido de nada. Estava sol e os fumos coloridos dos escapes dos carros misturavam-se no ar quente de agosto.

O paredão junto ao rio brilhava e conforme eu avançava secava em círculos fazendo-me imaginar o girar das escovas que o lavaram. Do outro lado da avenida olhares conhecidos convidavam a atravessar e eu espreitava de esguelha por baixo da pala do chapéu para não interpretar emoções, e fazia o sinal com a cabeça que passaria na volta.

A final do dia as luzes amarelas dançavam sobre as aguas castanhas do rio. Eu atravessava a ponte devagar. Agora era o turno da noite. Limpar a cozinha do “varandas”. levar os almoços ás velhotas, depois os restos aos meus meninos. A matilha do cemitério.

O meu almoço tinha ficado em casa.


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