Gertrudes

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Gertrudes era bela
Algo de outro mundo
Habitava nela.
Que projetava
Uma outra dimensão,
Onde viviam em comunhão
Todas as criaturas diferentes.
E seus olhares pertinentes,
Dançavam
Ao sabor da sua mão
Sobre as pedras quentes,
Nos cheiros dos legumes
Misturados no seu caldeirão
E no sabor do pão

Pois foram eles, entre outros
Os habitantes dos espaços
Que ela construiu
Trazendo cada pedra nos seus braços
Cresceram neles rodeando-se de terra,
Muitos laços,
Abraços e contestações
E ressoaram nestas pedras as canções
Elas ouviram os seus paços
Gravaram as opiniões
Num mundo que já era uma esfera
Mas que se transformava
Na presença de Gertrudes
Dando passagem à quimera
E o conhecimento
Misturava-se com a crença
Tecendo um panorama transcendente
Cruzando ilusão e fantasia
Num ordinário tear…
Ela, ouvia-os falar.

Gritava-se a saudação
Pisava-se a uva p’ra fazer o vinho
Passava já da madrugada
Mas a Gertrudes não queria acordar
Ela ouvia entre as pedras
Alguém a conversar baixinho
Sobre as sombras que dançavam
Ao luar no seu jardim
E como ele feito arlequim
Lhes despertava a folia delicada
E lhe pintava no calor do alecrim
Com traços arejados pela hortelã…
O Espírito da guardiã
Para que ela reunisse
Todos esses fios
Com mãos de tecelã
Apadroando este ninho

Neste jardim a sucessão dos acontecimentos era relativa
E não deixava outra alternativa, senão
Deixar viver ao mesmo tempo todos os momentos
Independentemente da ausência de alguns segmentos
Esta, era a teoria de Gertrudes
E era para ela o fundamental, que a fazia sentir viva
Por isso ela desenhava tudo numa nova perspectiva
E embrulhava os novelos cuidadosamente, um a um
Guardando-os na mesma cesta

Gertrudes reinava
Gertrudes fazia magia
Travava batalhas
E festejava vitórias
Gertrudes crescia
Cumprindo as histórias
Ela sentava-se no chão
P’ra amassar o pão
Atenta ao calor
Da água na panela
Sobre o fogo na lareira
Gentil e bela
Ela corria
Pelos seixos da ribeira
Dançava em círculos na eira
E entre muros sólidos
De pedra amarela
Ela voava e soria
Ela olhava, mas não via

Passava rua acima
E ocupada na sua rotina não notava
O murmurar das pedras fartas de esperar
Alguém que as viesse habitar
Porque Gertrudes não sentiu passar o tempo
Ela ficou como quem quis ficar

Gertrudes inspirou o ar naquele mundo
E acolheu na sombra dos seus ramos
Os que souberam encontrá-la.
Ela lançou a sua copa na cadência do vento
Cresceu na força do seu pensamento
Deixou brilhar as suas folhas ao luar
Deixou cair as folhas repetidamente
Estendeu os ramos
Procurando abraçar aquela gente
Ela amou uma aldeia inteira
Erguendo-se à beira do caminho
E enrolou a vida em redemoinho à sua volta
Era silente e erudito o olhar da criatura
Ela ficou, e aguentou o vento violento
Sangrando através da pele escura.
Circula-lhe nas veias
A memória ausente dos antepassados
De todos os caminhos por ali cruzados
De todas as viagens acabadas
P’ra ela esta foi a terra prometida,
Ela ficou, acompanhando a cada passo a partida
Gertrudes foi a cor que deu àquela vida
E fez-se árvore, de uma semente que ali ficou caída.

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