RMDG

Rebuçados de Mentol e Dor de Garganta

Alice Coelho

2016

 

 

1

O nevoeiro começava a subir do rio, a lua escondia-se atrás das árvores. Contornei a casa e entrei pela porta das traseiras para um celeiro. As chaves estavam por cima do vão, havia duas chaves, uma serviu para abrir a porta, – de que porta será a outra chave? – Tirei-a e coloquei cuidadosamente no bolso. A porta fechou-se chiando, o cheiro do feno velho dizia que ninguém havia lá estado há muito. Provavelmente virão em breve, espero que não seja hoje. Ao pensar nisso, um formigueiro tocou-me na pele. Algures do escuro ouvia-se água a pingar, eu olhei para lá mas o que eu via parecia-me um túnel infinito. Alguém sorriu para mim da escuridão. Espírito – pensei eu, Ele piscou-me. Certo! Suspirei, queria tanto descansar. Sempre que eles vêm, esse inventa um novo quebra-cabeças, e quem, senão eu, para o resolver. Subi os degraus apoiando-me no corrimão, em cada pingo de água parecia ouvir uma voz que chamava por mim, não sei se, tentando atrair ou pedindo algo. Eu abri a porta de casa, todo o chão estava coberto de malmequeres. Na rua clareava…. Olhei atentamente o espaço. Por cima da mesa de madeira em frente à janela estava um cântaro. Um pedaço quebrado do cântaro estava ao seu lado sobre a mesa. Curioso, será que o cântaro se partiu sozinho sem sair daquele sítio. A luz da janela reflectia-se em forma de janela na parede oposta, e de repente tive uma forte vontade de sair por essa janela. Porém ela era apenas um reflexo de luz numa parede de madeira. Logo de seguida senti me aliviada, então, tudo isto mais tarde ou mais cedo acabará por desaparecer. Se as paredes fossem de pedra tudo seria muito mais complicado.

 

2

Eu dei um passo e os malmequeres estalaram debaixo dos meus pés. Que raio de sítio para secar flores! Tudo me parecia insensato nesta casa, eu apressei-me para a escada que se avistava na divisão ao lado e que conduzia ao primeiro andar da casa. Do primeiro andar eu conseguia ter acesso ao meu quarto secreto que se situava no sótão. É, no entanto, tão repugnante o facto de eu possuir um quarto nesta casa. No mundo existem tantos lugares maravilhosos, e nenhum deles me pertence, sem ser este pequeno cubículo debaixo do telhado e que ainda por cima ninguém sabe que existe. Um dia terei um quarto num outro sítio – pensei eu – porque eu sabia que este iria acabar por desaparecer.

À medida de que eu me afastava da estranha escuridão do celeiro, o som dos pingos de água tornava-se cada vez mais profundo. Conforme subia as escadas, o som dos pingos de água aliou-se subtilmente aos os meus passos e quando parei no primeiro andar da casa notei que ele se tinha transformado no tiquetaque do relógio. Olhei para os lados, as paredes estavam vazias. Tudo aqui é demasiado estranho – para quê que alguém insiste em me lembrar de que o tempo está a passar sem dar a possibilidade se saber que horas são? Olhei para cima. A luz do sol penetrava por uma abertura entre as tábuas do tecto. Levantei uma delas e movi para o lado.

A luz do sol caiu sobre mim repentinamente, por pouco não me ditando ao chão. Elevei o meu corpo e rapidamente me vi dentro da minha pirâmide. Era impressionante a forma ágil como eu me conseguia elevar para dentro desse sítio. Noutro lugar qualquer, não me conseguiria elevar mais de dez centímetros, mas este sítio parecia sugar-me para dentro dele. No chão junto á parede estava um colchão de palha, eu deitei-me fitando a pequena janela do telhado. O colchão estalava debaixo de cada um dos meus movimentos. Alguém deve tê-lo enchido de malmequeres secas em vez de palha – passou-me pela cabeça. Eu tirei da parede um punhal que se encontrava pendurado à cabeceira e num movimento brusco, fiz um golpe no colchão que começou a sangrar. Aterrorizada atirei-me para o lado e sem perceber o que me estava a acontecer vi-me novamente na escuridão do celeiro. Algures por baixo de mim ouviam-se pingos de água.

 

3

Se um dia olhaste para trás e viste um por do sol distante

Pensaste que naquele instante a deslumbrante cor do céu cedeu

As lágrimas caídas de orvalho fresco de outrora

Agora, são arrepios incandescentes, dos dias quentes

Que não se apagam as memórias trepidantes das sonatas

Não murcham flores secas em páginas de livros

As pedras torneadas moldam a melodia das cascatas

E no revivalismo não se acha uma nova arte

Enchem o pote um a um os pingos

Se um dia vires numa noite de Verão a lua prateada

Recorda esta voz cansada que não diz mais nada

Que não se unem os estilhaços transparentes

De uma jarra que caindo ao chão se parte

Foda-se!

É o prelúdio arrepiante de um ser que se esmiuça para ser

São notas falsas de um barítono embriagado

Um coração partido com medo de amar e de perder

É neste mundo sem razão possível para ser

A tranche no contrato, sem juros nem montante calculado

 

4

A minha vida era guiada por um subconsciente que não se submetia a nenhum tipo determinado de controlo. Ou talvez por uma espécie de obrigatoriedade que agia com o meu corpo sem nunca colocar a pergunta “porquê?”. Assim comecei a descer contando os degraus para ter alguma noção da profundidade a que descia. Quinhentos e onze degraus, e os meus pés sentiram o chão húmido do poço.

Não fazia qualquer diferença em ter os olhos abertos ou fechados, porque de qualquer das formas o que eu conseguia ver era o mesmo, ou seja nada, para além da escuridão. No entanto a minha noção de espaço era muito boa e eu consegui descobrir à primeira, a entrada para um túnel. O diâmetro do poço cá em baixo era significativamente maior. Lá em cima a abertura não chegava a ter um metro enquanto que cá em baixo parecia ser um espaço amplo. Eu contornei todo o espaço tocando levemente com a mão na parede húmida. Não havia outra abertura, eu tinha que avançar para a escuridão. Coloquei-me no centro da entrada, ambos os braços esticados para os lados, as minhas mãos conseguiam tocar nas paredes laterais do túnel. Levantei os braços, as minhas mãos conseguiam tocar no tecto. Deixei os meus dedos escorregarem pela superfície do arco e assim de braços abertos de forma a sentir as paredes fiz o primeiro passo.

A água no túnel chegava-me aos tornozelos, eu senti-me desconfortável, o ar estava um pouco abafado a água era fria.

 

5

Ao princípio comecei por contar os passos, mas chegando perto dos cinco mil, perdi definitivamente a conta. Então, pensei que se eu cantasse conseguia ter uma melhor noção de tempo. Cantar no túnel revelou-se bastante divertido. A minha voz aguda vibrava por todo o túnel, e como se passeando ela afastava-se rapidamente de mim para ambos os lados e voltava passado um tempo apanhando-me novamente.

Apareceu então, um pensamento corrosivo, o túnel acaba com uma parede, o túnel não tem saída. Eu continuei a caminhar, afinal, eu sabia que não poderia agir de outra forma.

Esquecendo-me daquilo que aconteceu, tentando me lembrar daquilo que vai acontecer. Eu já não sabia se os meus olhos estavam fechados ou abertos, eu sentia-me cansada o meu corpo tornava-se cada vez mais pesado. Custava-me  levantar os pés para dar mais e mais um passo. Eu tinha a sensação de que em breve ia cair de cara na água e me ia afogar por falta de força para me erguer. E subitamente tropecei nalguma coisa mole e desmoronei-me.

 

6

Eu não sei o que se passou enquanto eu dormia. Talvez andassem galinhas pardas a correr cacarejando de um lado para o outro sobre a superfície escura da água, ou as gotas do tempo tivessem parado de cair uma a uma e escorreram em fios finos. E a água nem água era e muito menos escura. Era apenas vento que terá deixando esvoaçar, as flores do vestido e as chamas do cabelo.

Um caminho, uma porta, um círculo dourado
O fogo encaracolando as chamas do cabelo
Uma língua imaginária, um circuito fechado
A água que alimenta um desejo frio e belo
Uma chave,  janela para o sombrio nublado
Ao longe o por do sol, do outro lado a lua prateada

Penetro intensamente o olhar no céu
Arrasto para lá o meu labirinto de vidro
O meu olhar rasteiro, olhar distante e cerrado
Sinto-me sem importar com nada do que é meu
Estou farta de olhar o céu e desse olhar desconfiado
Não há barreira nenhuma entre futuro e passado

Parece que não sei se haverá alguma solução
Para incentivar locomoção do dia a dia encarcerado
As mãos vasculham os meus bolsos à procura da razão
E os pés buscam no solo um caminho liso e arranjado
Parece não haver motivação,  de olhar para o lado
No meio deste caos descontrolado, perde-se de antemão

Conserva-se a ilusão cansada de sorrisos falsos lá do alto
Desejo leve, flutua entre as cores desse ruivo ondulado
Forte sensação, esperança ardente, ou quase transparente
Provavelmente se compõe assim o som da imaginação
Enquanto a alma se prepara confiante para dar o salto
Ouve-se o brilhar das lâminas no passo abafado da respiração

Falam-se dialectos inventados, para não dar a conhecer
Mostram-se cores vivas, iluminando apenas a fachada
Fingem-se emoções, imaginando o amor e a paisagem
Sem nunca dar passagem, no interior não há mais nada
Vazio distante, imerso nesse frio constante faz esquecer
Não há mais nada a fazer, esperar, esconder aquela imagem

Deliberadamente devolvo o olhar à terra estranha
Emaranhada nas memórias imaginadas e pensamentos
Algures nos aposentos, como se fosse uma teia de aranha
Consome-se à luz da vela a neblina vinda antes da janela
E surge uma porta azul abrindo e desvendando os momentos
Sem exclamação nem artifício, a vida, apenas uma parte dela

 

7

–  O que querem de mim, quem são vocês!!!! – Ouvia-se o eco dos meus gritos soando longe, soando perto. – De mim, vocês…

–  Dentro de ti. – Parecia-me ouvir baixinho.

–  Não…

–  Amanhã…

–   È meu…

–   Malmequeres, me queres mal…

–   Desaparece….

–   Apareçam de uma vez por todas!  – Gritava eu. – O que é este lugar!

–    Mal, meu, manha, queres, sê, não, ti, ama, prece, mais.  – Chegavam vozes de todo o lado.

Penso que era apenas o eco da minha voz, mas parecia serem muitas vozes, e o espaço à minha volta apesar de continuar escuro, já não parecia ser comprido e estreito, parecia ser um espaço amplo, estiquei os braços, movi-me para a esquerda e para a direita tentando alcançar uma parede, mas não havia parede.

Lembrei-me de repente como era ser pequena e brincar no chão ao lado de uma cama alta, de onde pendia uma colcha com franjas brancas. Lembrei-me do conforto de ser pequena, sem preocupações. Lembrei-me de existir simplesmente, e de estar presente em cada sítio onde me encontrava. O que se passa? –  Pensava eu. A escuridão à minha volta condensava-se em neblina negra e abria-se à minha frente um boca gigante que me engolia. Apertava-me com o mesmo frio gelado em que se tinha transformado a minha existência, e eu via numa prateleira de madeira velha coberta de pó, um frasco de vidro sujo, daqueles frascos de perfume antigo com uma tampa de plástico amarelecida pelos dias e a porta aberta de um armário cheio de roupa mal arrumada, uma cama com uma colcha jaquard de malha grossa e velha, a janela partida, as portadas caídas de uma casa desabitada, e uma escada insegura de degraus tortos. Ao longo de um caminho de terra distribuíam-se garagens de chapa galvanizada de zinco, muito antiga, algumas  cobertas de tinta azul ou verde, estalada e suja, outras cobertas de manchas brancas da oxidação do zinco e vermelhas de ferrugem. Havia ao fundo uma construção com arcos em tijolo partido, sem telhado, e estruturas de ferro escondidas atrás das paredes, carapaças de máquinas e correntes. Havia até uma floresta de carvalhos algures nas minhas costas, mas à minha frente havia uma aldeia de caminhos enlameados e hortas escondidas por detrás de muros feitos de tábuas estreitas pintadas de verde e azul. Casas construídas de troncos, forradas com estrume de vaca misturado com palha. Espalhava-se o silêncio pelas ruas e como uma neblina vinda do rio escondia a aldeia e o caminho. Não havia mais eu nenhuma no meio do silêncio, pois eu rodava de braços abertos pisando a lama com pés descalços e corria sem destino no meio do nada, pairava para cima e para baixo, sem corpo nem cabeça , deitava-me de costas e flutuava, enrolava-me pela ausência de chão, ficava parada, desmanchava-me, crescia, desaparecia.

 

8

Eu abanava o meu corpo levemente para a esquerda e para a direita embalando-me e cantarolava baixinho, com uma voz rouca que ressoava em forma de bolha .

Os ramos da floresta, pardos,

pintam-me sombras  no cabelo

Meu espírito perdido na ramagem da floresta

espera que venhas recebê-lo

Nas ondas escuras os rochedos negros soltam garras,

esfarrapando as cortinas

Que dançam entoando o canto das guitarras,

das minhas janelas de vidro partido

Sopra no vento o cabelo ruivo,

de lama ruiva tinge o vestido, o caminho

Vou para ti devagarinho, sem hesitar,

vou procurar, imaginar

Vou ser visão, ser verbo e canção

Vou te cheirar, vou te poder tocar

Só espero que me venhas receber

Só espero conseguir sentir

Só espero conseguir sentir

Em passos largos leva-se a marcha pela estrada fora

Meu espírito caminha incansável nesta marcha,

espera que venhas recebê-lo

Nas ondas ruivas dos cabelos

encontras os perfumes que encantam neblinas

Onde se escondem rebolando pelos mares

os vidros partidos das minhas janelas

Sopra no vento o cabelo ruivo,

de lama ruiva tinge o vestido, o caminho

Vou para ti devagarinho, sem hesitar,

vou procurar, imaginar

Vou ser visão, ser verbo e canção

Vou te cheirar, vou te poder tocar

Só espero que me venhas receber

Só espero conseguir sentir

Só espero conseguir sentir

Vou ser visão, ser verbo e canção

Vou te cheirar, vou te poder tocar

Só espero que me venhas receber

Só espero conseguir sentir

Só espero conseguir sentir

Levei a mão ao bolso, senti lá uma chave. Era uma simples chave, de cabeça redonda e duas pernas, uns relevos manhosos e até um letring qualquer. Hum, pensei eu, lembro-me de colocar aqui uma daquelas chaves à antiga, em cobre, com uma cabeça em forma de anel oval…

Continuei a cantar embalando o meu corpo.

 

9

Abri os olhos devagar antecipando a visão negra da paisagem, e por surpresa minha a paisagem não era negra. Sobre mim pairava uma gárgula cinzenta fitando-me com curiosidade como se já me aguardasse há algum tempo e me observasse de olhos fechados. A expressão magra transmitia um silêncio aterrador e no olhar lia-se apenas um negro profundo e vazio e esse vazio parecia esconder todos os segredos do mundo. Os seus dedos curvados disfarçavam uma tensão serena que fazia pairar tiras de tecido negro e os cabelos finos sob a cúpula de pedra que me cercava. Ela fitou-me por instantes e depois eu mergulhei no seu olhar e tudo ficou escuro. Fiquei deitada e tentei mexer os braços na água, pareciam dois troncos, as pernas pareciam outros dois ainda maiores. Parecia que a cúpula me tinha caído em cima pedra a pedra e me tinha enterrado. Tentei mexer as pontas dos dedos, mas não conseguia perceber se estavam realmente a conseguir fazê-lo. O som abafado pela água parecia trazer-me vozes e  passos. Parecia-me ouvir pés a arrastar a água e uma conversa desritmada. Fiquei assustada por momentos. De repente senti algo a tocar-me na mão, parecia um peixe nadando em água pouco profunda. Ouviu-se um salpico na água algures atrás da minha cabeça. Em seguia algo semelhante tocou-me na anca e depois no pé. Tentei mexer os dedos do pé, sentia-o dormente e os meus dedos gigantes forrados de feltro. Ouvi outro salpico algures à minha esquerda, tentei olhar na direcção do som mas não conseguia levantar a cabeça. Controlei a respiração era a única coisa que conseguia controlar neste momento. Ouvi aproximar-se de mim de todos os lados algo que remexia a água e roçava no fundo, senti as palmadas das barbatanas dos peixes na minha pele. Peixes pensei eu com alívio. Eu devia tentar mexer-me e apanhar um já que estão aqui em tanta abundância, estou mesmo a precisas de alguns nutrientes. Tentei inclinar a cabeça para a direita esticando os lábios na direcção da água. Dei um gole, sabia a lodo. Eu parecia a vitima de um sacrifício estendida no centro de uma cúpula redonda, imobilizada. A protagonista de uma iniciação manhosa. Aos poucos as carpas acalmaram, ouvi passos que formavam um círculo de indivíduos à minha volta. O meu corpo começava a doer, coração esforçava-se cercado pelas costelas. Penso que fechei os olhos nessa altura, ou quem sabe já estariam fechados há mais tempo. Fez-se novamente o silêncio quebrado pelas gotas de água. Então digam lá o que querem de mim! – Queria eu dizer mas a minha voz saiu rouca as palavras mal articuladas proferiram para o ar algo como:

– Pam fga lá qreepf m.

Esperei um pouco antes de tentar falar novamente, mexi os lábios imaginando as palavras soletradas de forma correcta. Verifiquei o movimento dos dedos, pareciam bolas de ténis.

– Ta qshli gui – soltei outro som. ão obtive resposta mas sentia que através da escuridão me fitavam pares de olhos distribuídos em círculo à minha volta.

– Gaa. – soltei eu baixinho, o mais alto que consegui para chamar a atenção. Nada, não ouvia resposta. Suspirei e fiquei a ouvir a água em redor da minha cabeça. Quefá mgui gua cmi pssi bca. Não admirava que não me respondessem, não estavam a entender nada do que eu estava dizer, e eram perguntas tão simples. Pelo menos eu sentia-me acompanhada, apesar de não poder pedir ajuda para me levantar. Imaginei então que me agarravam pelos braços e me arrastava até uma parede onde me encostavam as omoplatas e que a gárgula cinzenta me iluminava ligeiramente com a sua sombra os contornos das faces que me fitavam certamente. Era preciso descansar mais para me conseguir mexer e sair dali. De olhos fechados relaxei o corpo e senti que me afundava, como se as minhas costas não sentissem mais a barreira do fundo. Senti-me a cair imparável entre bocados de terra seca do planeta quebrado, mais fundo do que o profundo das estrelas que se observa no céu nocturno. Caí como se o centro de gravidade do universo tivesse migrado para muito longe, como se o meu corpo não tivesse peso e o ar não fosse barreira, e senti os cabelos longos a roçarem nos braços nus enquanto caía. As galinhas enfatuadas, gigantes sentadas à minha volta fitavam com olhos néscios e dissimulavam a sua estupidez com conversas arrogantes:

– Có, có, có, có, có, có. – dizia uma pausadamente

– Cpó, có, có, có. – respondia a outra

– Có, có, có, có, Qdáa! – exaltava-se a terceira

– Có, có, có, có.  – repetia a primeira em resumo da sua afirmação inicial

– Cpó, cpó, cpó, cpó qdá!!  – manifestava-se uma quarta

Outras três ouviam a conversa com cara de importante e nariz empinado enquanto uma mais pequenina se atrevia a fazer a sua intervenção:

– Cócócóccócó, qdá, qdá, qdá, cpó, cpó, có, có, có.

– Có, có, có… Có, có… Có. – interrompia logo a primeira, que era claramente a líder daquele grupo de galináceos pardos.

– Cró, ´coóc cócpó, qda qpó – soltaram em coro as três galinhas silenciosas até então, em defesa da mais pequenina contra a líder arrogante.

A conversa parecia não estar a chegar a lado nenhum, e eu não percebia nada do que elas estavam a dizer. Os olhos pequeninos e redondos espreitavam sobre o bico afiado, e desmascaravam totalmente a hipocrisia daquelas criaturas. Entretanto o meu corpo ia caindo, eu puxava os cabelos e tirava como se fosse um chapéu a parte superior do meu crânio. O cérebro lá dentro não aguentava o atrito da queda e soltava-se subitamente, consegui-me virar no ar, a mão esquerda segurava com força as madeixas de cabelo e a direita tentava apanhar o cérebro para voltar a colocá-lo no seu sítio. Tudo parou por instantes, não se ouvia o vento a deslizar pelas fibras do vestido, nem se aproximavam as rochas negras lá em baixo, apenas a minha mão se movia lentamente tentando alcançar o cérebro rebelde, que lhe escapava, e no instante seguinte se esbarrava contra as rochas e se desfazia em milhares de gotículas de cinzento e vermelho, brilhando sob a luz da lua. Ergui o meu corpo repentinamente e uma golfada de água com sabor a lodo subiu pelo esófago expelindo-se para for a do meu corpo. Senti-me mais leve, estava sentada agora, os braços e as pernas pareciam estar funcionais, mexi o pescoço, para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo. algures atrás de mim via-se um arco meio iluminado de azul.

 

10

Lá no palacete forrado de madeira, da janela do segundo andar espreitava a rua que em varandinha abria a vista para o pátio estreito e uma nespereira. Não havia grande coisa para fazer, o autocarro iria partir apenas depois das oito e ainda demoraria alguns quartos de hora até chegar à paragem que se avistava ao fundo da rua. Lá estava o armário cheio de roupa velha e fora de moda, com cheiro a mofo e naftalina, os móveis cobertos de pó e de bibelôs pirosos. Havia sempre muita coisa engraçada em casas desabitadas e nos interiores cobertos de pó. A minha irmã estava deitada sobre a colcha jaquard e lia um livro que deixara uma marca rectangular na camada de pó sobre a mesa de cabeceira denunciando a sua proveniência.

– Ouve! Ainda temos tanto tempo.Vamos revistar os bolsos da roupa toda. Peguei num casaco de malha e encostei-o ao meu corpo vendo-me no espelho fosco do armário.

– Boa! Vamos revistar as gavetas dos móveis também.

Começamos com entusiasmo a nossa busca. Eu encontrei uma moeda pequena com um busto masculino. Era um homem calvo segurando a luneta sobre o olho, do seu lado esquerdo havia um pergaminho, atado com uma fita. Era uma moeda de 30 tinha um motivo geométrico a fazer o contorno da cara e nenhuma inscrição sem ser o número em si. Guardei-a no bolso, ou outros achados foram colocados sobre a superfície lacada de uma cómoda. Uma cassete, um alfinete com uma pérola, provavelmente falsa. Um brinco de mola com um grande vidro vermelho incrustado num pentágono de latão oxidado, era muito feio. Uma carta dobrada em quatro – um rei de paus, e uma borracha. Foi tudo o que encontrei num armário cheio de roupa que agora formava um monte ao meu lado. A minha irmã andava entretida a examinar as gavetas dos móveis.

– Então? Encontraste alguma coisa interessante? – Chamei por ela. Ela tinha subido ao andar de cima e eu conseguia ouvir os seu passos sobre as tábuas de madeira.

–  Shh! Não fales alto. Não vês que alguém pode ouvir da janela.

Ninguém podia saber que nos escondíamos ali. As crianças não podiam andar sozinhas naquelas ruas e ainda para mais aquela casa era conhecida por ser desabitada, se alguém nos ouvisse certamente teríamos um guarda a bater à porta dentro de pouco tempo.

Os candeeiros da rua acendiam-se e lançavam sobre a parede através da luz amarela a sombra da trepadeira que se entrelaçava sobre a janela. Por vezes ouvia-se um carro a descer pela superfície de alcatrão. A gare era lá em baixo na praça junto à muralha. Subindo o coreto de ferro amadureciam as bagas doces do lilás, mas este verão não havia crianças para as colher. Tinham-se acabado os jogos à apanhada  no circulo rodeado pelas dezoito luas cheias dos candeeiros, e no bebedouro o repuxo de água corria intacto. Apenas as tílias dançavam com as suas sombras pela calçada branca. O autocarro descia a rua deixando pelo caminho os trabalhadores cansados que se apressavam para o conforto das suas casas, soando nas fechaduras mal iluminadas as chaves. Ao fim da rua, virava à direita, passava pelo rio e contornava pela esquerda a praça em direcção á gare. Lá de cima o castelo pendia em sentinela nas suas torres gastas pela erosão. Saiam os últimos operários deixando vazios os bancos lisos. Ninguém embarcava. O condutor preenchia as fichas no seu bloco, copiava para o papel as horas de um relógio de bolso, guardava a caneta, desligava o motor. Caminhando sozinho pela praça ele observava as torres rigorosas do castelo, e vigiava as sombras dos arbustos. Inquietando a serenidade do repuxo do bebedouro, ele voltava ao veículo.

 

11

Talvez tenha passado despercebida nesse dia

A admiração e a inspiração, ficou escondida

Mas algo que posso ter denominado alegria

Terá surgido algures nesse mesmo instante

Ponta de luz, ou lua cheia, tua desconhecida

Se te quiseres manter longe… ficarás distante

Pensei então que a angústia do pensamento

Entrelaçada em lianas de tristeza enfadonha

Fossem apenas casualidades do momento

Frutos da auto-estima fraca e de vergonha

Assim entre as ruas frias onde tudo acontecia

Encruzilhavam-se  dissertações embriagadas

Havia verbos conjugados no pretérito perfeito

Num desencantamento,  soando a hipocrisia

Distantes e alheias , as almas mais chegadas

Não possuíam coração nem p’ra untar o peito

Talvez se os olhos vissem encontrassem nela

Matéria química que produzisse essa energia

Um coração na mão e um vidro na janela

Para manter chama que resiste à brisa fria

E não soasse num desmantelar estridente

De tocha erguida e apagada contra o vento

A procissão gritando e aplaudindo o inconsciente

 

12

tínhamos que ser muito discretas, foi lançado um alerta nacional, inúmeros jovens e crianças fugiram das suas casas alegando maus tratos. As crianças menores de 18 não tinham direito a opinião e agora muito menos, nenhuma criança podia ser vista na rua sem o acompanhamento de um adulto. Devido a esta revolta o estado foi forçado a tomar medidas. Qualquer criança com idade inferior aos 10 que fosse encontrada na rua, sem a supervisão de um maior era levada para um orfanato, Os maiores de 10 eram enviados para um reformatório onde eram forçosamente educadas a servir, os adultos, para que chegando à idade dos 12 ou 13 consoante o seu desempenho, pudessem ser distribuídas pelas famílias cujas crianças da mesma idade os tinham deixado como forma de substituição. Qualquer família que tivesse perdido uma criança tinha o direito de se dirigir a um orfanato ou reformatório e requerer uma criança nova, que deveria corresponder em sexo e idade à criança que tivessem em falta, salvo algumas excepções em que eram aceites trocas. Para as trocas de crianças preenchia-se um formulário especial e era necessário aguardar em fila de espera, para que alguém requeresse uma troca contrária. No entanto, como o estado era forçado ao mesmo tempo, a defender o interesse das crianças, não era autorizado que a mesma família recuperasse a criança perdida. Nós tínhamos fugido três vezes, uma vez da nossa própria casa depois da nossa mãe nos ter abandonado com um padrasto bêbado. Houve uma espécie de boom, e ninguém sabe ao certo como começou, mas parece que na mesma noite centenas de crianças resolveram fugir de casa. As autoridades tomaram medidas rápidas e as crianças começaram a ser apanhadas e detidas, levadas em carrinhas como cães para um canil de abate. Também nós fomos apanhadas mas consguímos fugir da estação de triagem. Vivemos durante dias abrigados em tubos sobre as estradas, em valas e nos ramos de árvores. Da última vez que fomos apanhadas fecharam-nos numa jaula improvisada numa carrinha velha, não foi difícil abrir o fecho, mas não queríamos arriscar outra vez, por sorte tínhamos ficado na mesma carrinha.

 

13

O sol já descia em queda livre pelo céu azul em direcção ao mar, mas a sua luz amarela ainda vencia a muralha dourando a praça. O Sr Francisco parava o carro, a Sofia saía imediatamente e soltando algures pelo meio um “Até amanhã” fechava a porta com força. Eu saía devagar

– Até amanhã Sr Francisco, obrigada. – fechei com cuidado a porta do carro.

– Mana, guarda aí! – a Sofia atirou na minha direcção a sacola de pano cru que caiu junto aos meus pés e que eu pousei junto ao muro com outros sacos coloridos e toalhas de praia. Ela entrava na roda de crianças dançantes à volta do coreto. “Senta, levanta, Corre… Agora salta!” E todos saltavam de mão dada. “Senta, levanta, corre!” E os miúdos corriam à volta do coreto de mão dada. Um rapazinho tropeçava e caía, fazendo cair em dominó toda a roda, mas a Sofia não caía, dava-lhe um puxão com força e levantavam-se todos logo em seguida.

– Agora salta! – Berrava ela muito alto e todos saltavam

– Senta, levanta, salta!

– Agora corre! Os miúdos desatavam a correr pela calçada branca, o objectivo era subir para cima do coreto sem ser apanhado. Um autocarro parava e abrindo as portas soltava para a praça uma nova multidão que rapidamente se misturava com a primeira, fazendo crescer o monte de sacos, bolas e toalhas de praia junto ao muro. Eu escapava-me da confusão virando-lhe as costas e caminhava em direcção à muralha. Nos banquinhos por baixo das tílias  juntava-se um grupo de jovens. Abraçavam-se, falavam ao ouvido e fumavam. Eu passava por eles, subia por umas escadas sobre a muralha de tijolo e escolhia um lugar com vista para a praça. Eu queria mesmo era ir para a praia agora que ninguém lá estava e ficar a olhar para as ondas, e para as embarcações ancoradas na baía até cair a noite. Eu estava farta daquela cidade e da algazarra de crianças que formavam uma, duas, três rodas à volta do coreto e giravam cada uma para seu lado fazendo-me tonturas. Eu estava sentada na muralha, a uma altura de dois metros da calçada branca que quase estremecia com o bater de pés. Estar ali isolada era o meu maior descanso, enquanto a Sofia se entretinha a brincar com as outras crianças eu podia desligar-me por instantes e sonhar um pouco com túneis misteriosos.

Eu tinha saudades das ruas da Capital, das idas ao teatro com a minha avó e do Boris. A minha avó cansada de arrumar os livros nas prateleiras velhas da Biblioteca Municipal, reformou-se e foi para o campo plantar batatas e semear milho. Tive que esquecer o pequeno quarto  no topo do edifício alto e dos passeios pelas caves com o Boris. A minha mãe ocupava uma cama num quarto comunitário, numa casa onde vivia muita gente. Ela ocupava quatro metros cúbicos  daquele quarto, a cama e as prateleiras sobre a cama onde ela guardava tudo o que era nosso. Eu fazia muitas perguntas à minha mãe mas ela raramente respondia, normalmente ficava a olhar para mim pensativa, e um dia disse-me. “Tu queres tanto que alguém te confirme que o que tu estás a pensar está correcto e que as tuas conclusões estão certas e conclusivas e o caminho que pretendes seguir é mesmo esse, mas ninguém te pode dar essa confirmação. Para saberes se podes seguí-lo, terás que ter a certeza de que aquilo que sentes corresponde exactamente ao que sentes para teres a confiança necessária e dares o primeiro passo. Em cada próximo passo saberás se o anterior foi certo.” Foi num dia quente de verão.

 

14

Virou a esquina e seguiu em frente

A rua escura, noite sem lua

Noite de verão que se afoga

Numa neblina quente

Rua vestida de calçada nua

Uma jaula ao fundo da rua

Abrange no olhar cerrado

A noite escura, o ar sem gente

Estende o nevoeiro cansado

Dorme profundamente o formigueiro

Os passos leves soam no silêncio

Levam consigo o ar parado

Coleccionam rua e escada

Enfrentam o gelo da porta fechada

Muito maior do que a noite sem lua

Mais solitário do que a noite cerrada

Ao virar da esquina, no fundo da rua

 

15

– Espera Boris! Se a palavra é a quinta arma, então qual é a quinta cor.

– Diz-me tu!

Pus-me a pensar. Ele daria um bom professor quando crescesse, conseguia atrair a minha atenção permitindo falhas no seu discurso e dava-me a oportunidade de as desvendar fazendo-me pensar e analisar o que acabava de me transmitir, mas era muito difícil receber ordens e ensinamentos vindos de uma criança, bem, mesmo que eu também o fosse, mas não me queria sentir estúpida ao seu lado.

– Então deixa lá ver se me lembro bem. – fechei os olhos e imaginei as cores: via o sol a esconder-se no mar e a linha vermelha do horizonte – Amarelo, vermelho, branco, lilás. Será azul a outra cor?

– Sim! – confirmou – Azul é a cor do amor!

– O amor é azul, a sabedoria é lilás. Então! E as outras são o quê?

– O sol aqui simboliza a manipulação, é ele que nos permite que tudo se torne visível, bem visível, ou mal visível, portanto manipula a nossa percepção. O entusiasmo é vermelho, é a essência. Mas Indiferença é o negro.

– Outra vez. – disse eu – Lilás – sabedoria; azul – amor; vermelho- entusiasmo – Que raio! Pensava eu, para quê essa relação? – Amarelo- manipulação; branco- palavra; negro – indiferença. E lá vão seis caro amigo.

– Sim! E tendo em conta que destas 6 duas têm as cores opostas, quais são as cores que faltam?

Pus-me a pensar nas cores opostas: Amarelo – lilás, branco – negro, vermelho – verde, azul – laranja.

– São o verde e o laranja. – Disse por fim.

– Falta uma, o castanho.

– O castanho?! Isso nem é uma cor.

– Exacto! O castanho é a cor corrupta, é a cor que devemos desmanchar e para isso dela tiramos as cores de que necessitamos.

– Olha Boris! Não estou a entender nada do que me estás a dizer! – disse eu perdendo a paciência.

– Já vais entender, espera.

– Mas para quê essas associações todas de cores e outras coisas.

– É para te ajudar a entender, é para simplificar.

– Pois eu acho que estás a complicar tudo.

– Cala-te e ouve! – interrompeu ele grosseiramente. – A manipulação esconde a sabedoria. Se do castanho tirarmos  o amarelo ficamos com o lilás que é composto pelo amor e pelo entusiasmo. O vermelho e o amarelo juntos fazem o laranja que é neste caso é a cor da mentira. O verde é a cor da verdade.

– Como é que podes combinar o amor com a manipulação e obter a verdade?

– É assim. Imagina as cores por esta ordem: Castanho, vermelho, laranja, amarelo. Se o laranja é a mentira a cor que ficou de fora foi o azul.

– O laranja é a mentira porque tu assim o dizes, para mim isso pode não fazer sentido.

– Para de ser teimosa, tem que fazer sentido! – disse ele revoltado – Faz com que faça sentido! Imagina que alguém é manipulado com muito entusiasmo em função de uma causa qualquer ou interesse, o resultado é algo que traz prazer à pessoa que manipula. Em contrapartida se alguém pretende transmitir a verdade a outro alguém que não a consegue ver, pode manipular esse alguém para lhe fazer chegar a verdade, fá-lo com amor porque acredita do fundo do coração na sua verdade e assim consegue fazer essa verdade visível, obtendo em troca tranquilidade e paz, ou seja prazer.

– Tudo bem! Como queiras! –   Não ignores a tua verdade!

 

16

Eu quis saber porquê

Mas ele não me respondeu

Virou as costas e fingiu que não me vê

Eu perguntei “como é que é?”

Ouviu-se-me “não há” no terminl da linha,

Que eu não via!

Mas na verdade ele não sabia.

 

17

– Ó Senhor Francisco – Perguntava a Sofia. – A minha irmã está sempre a dizer que nesta terra não se plantam hortas porque a terra é suja e os frutos crescem com larvas, isso é verdade?

– Não, claro que não, então olha as tílias e os castanheiros. Das tílias bebemos o chá dos castanheiros comemos as castanhas e nada disso vem com larvas.

– Pois é… e as bagas do lilás, são bem doces e não têm larvas nenhumas. Mas porquê, porque não se plantam hortas aqui, porque só se plantam hortas depois da Vermelha.

– A terra aqui não é fértil, não é boa para fazer crescer as culturas.

– A minha irmã diz que a terra aqui é amaldiçoada, e só as árvores que têm as raízes muito profundas é que conseguem crescer.

– Então e o lilás? E as flores da Leonor, e as ervas á beira das estradas e nos campos.

– As flores da D. Leonor são bonitas. – Sofia sorriu e olhou lá para baixo para o jardim da D. Leonor, onde a irmã se entretinha a arranjar os canteiros  – Mas isso não são hortas, Senhor Francisco. Nas hortas crescem legumes. Aqui nos campos crescem as ervas, mas nunca se fazem fardos, lá em Túbalo, onde vive a minha avó fazem-se fardos com as ervas dos campos. –       Tu gostas muito dela não gostas?

– De quem? Da minha mana?

– Da tua avó.

– Gosto muito, eu gostava tanto de viver com ela, mas lá não há nenhuma escola, por isso é que a mãe veio para cá. Agora vamos lá tão raramente. A avó não vem para cá, porque aqui não se plantam hortas, e ela gosta muito de plantar.

– Um dia vamos lá, vamos lá visitá-la.

– Eu gostava tanto, desde que a minha mãe se foi embora, nós nunca mais lá fomos. Este é o segundo verão que passamos cá. A Sofia começava uma nova conversa, fazendo perguntas umas atrás das outras:

– Porque razão é que o caminho de ferro não passa pelo meio do pinhal.

– O caminho de ferro foi construído à volta do pinhal para que não fosse preciso abater as árvores.

– Ó Senhor Francisco, também não há nenhuma estrada que passe no pinhal. Para mim é mais que óbvio, o pinhal é assombrado. Até as casas construídas mais perto do pinhal estão desabitadas.

– Não Sofia o pinhal não é assombrado, é secreto. As casas foram desabitadas para que as pessoas não perturbassem a serenidade dos segredos que ele esconde.

– Também foi por isso que fecharam a fábrica de sapatos?

– Sim, para não fazer barulho, ali junto ao pinhal. E para não poluir mais o rio.

– Foi por isso que a minha mãe se foi embora. Eu gostava de viver ali junto ao pinhal. A minha irmã levava-me para o telhado da casa à noite e nós ficávamos a olhar, e eu via sempre uns olhos vermelhos que me vinham cumprimentar  do escuro, e não eram assustadores, eram malandros, parecia que me chamavam para irmos brincar.

–       E tu ias?

– Não! Estava escuro… e isso também era só da minha imaginação. – ela sorriu envergonhada  –   Ó Senhor Francisco, mas porque é que construíram ali um muro de betão com arame farpado e nos separaram do pinhal? –       Vou te contar uma história: “Há muito tempo atrás. Quando nós ainda não habitávamos a terra havia uma cidade linda construída numa planície ampla por onde passava um rio de água cristalina. Era a Cidade da Montanha, as casas da cidade eram todas construídas de madeira que as pessoas tinham tirado ao pinhal que crescia ali naquela planície. Os habitantes da cidade esculpiram os troncos das suas casas com ornamentos de flores e plantaram sebes verdes em torno das suas casas. “Havia nessa cidade uma senhora muito velha, era chamada a sábia da cidade e todos vinham pedir-lhe conselhos. A velha sábia dizia-lhes onde cortar as árvores, onde construir as casas e a cidade crescia cada vez mais bonita. A planície ficava cada vez mais vazia, as raízes das árvores cortadas eram arrancadas e transformadas em lenha. Tudo parecia perfeito naquela cidade. Os jardins estavam arranjados, as ruas eram varridas pelos habitantes da cidade, a cidade não tinha nenhum governador e todos se entendiam entre eles. Havia pastores, agricultores, pescadores, lenhadores, carpinteiros, costureiras e outros profissionais que se ajudavam mutuamente cobrando com favores os seus favores. Cada casa nova que se erguia naquela cidade era abençoada pela velha sábia e todos achavam que a sua benção era santa. Cada criança que crescia naquela cidade escolhia a sua profissão pela profissão que mais falta fazia na sua vizinhança para poder contribuir justamente e receber a contribuição justa na sua vida. “Mas a velha sábia tinha uma irmã mais velha, com quem tinha crescido ali no meio do pinhal. Dizia-se que elas não tinham pais e que tinham nascido num amanhecer entre as flores silvestres. Essa irmã falava a linguagem do rio, e sabia interpretar o vento, ela amava a montanha e as árvores. Um dia quando se tornou adulta  ela disse que não queria viver mais no meio das árvores, que iria subir a montanha e observar o mundo lá de cima. A irmã mais nova que tinha nascido num amanhecer diferente ficou revoltada com a partida da irmã e jurou cortar todas as árvores, e construir uma cidade mais bela do que o pinhal, do que o rio e do que a montanha. Quando a mais velha partiu ela viajou até outras terras procurando pessoas que quisessem vir habitar numa cidade magnífica e nunca antes vista, chamou e aliciou os habitantes da terra com os cantos e encantos que tinha aprendido com os pássaros e com as árvores, as pessoas acreditaram nela. Atravessaram as terras baixas, subiram o rio e construíram a sua própria cidade, embelezaram as ruas, aqueceram as casas, criaram famílias. A irmã mais velha nunca mais voltou da montanha e a mais nova vivía gloriosa na sua cidade imaginando os olhares supremos e orgulhosos da irmã. Um dia a velha sábia ficou tão velha que já não conseguia deslocar-se para abençoar as casas novas das famílias que se formavam e já não sabia dizer onde cortar as árvores porque já não havia mais árvores para cortar. Pensou então que deveria ter ensinado a alguém os cantos e encantos que aprendera na sua infância com os pássaros e com as árvores. Chamou uma rapariga que viu passar da janela e ensinou-a a cantar. A rapariga cantou com a velha sábia que já mal cantava, e enquanto cantavam as duas parecia encantador o canto e a rapariga também parecia sábia, mas já não era possível ensinar os encantos dos pinheiros, e o canto das aves que viviam agora em gaiolas já não era o mesmo. A rapariga cantou, e a velha partiu, fechando para sempre os olhos. Veio nesse dia para a cidade um mercador de terras distantes, subindo o rio cristalino na sua embarcação. Viu a cidade e ficou deslumbrado. Chamaram a rapariga para que o viesse receber e para que lhe cantasse. Passearam-se os dois pelas magníficas ruas de casas esculpidas e jardins arranjados, e amaram-se. A casa da velha sábia era feita para uma só pessoa, Então decidiram aumentar a casa e construir por cima um novo piso e uma torre alta. Eram precisas novas árvores para aumentar a casa, mas a planície já não tinha mais árvores. Viajaram então até à montanha onde ainda se elevavam alguns pinheiros curvados. Cortaram as árvores, arrancaram as raízes e repararam que a terra da montanha era branca e que fervia em água. Então usaram-na para pintar de branco a sua casa. Vendo isto todos os habitantes quiseram pintar de branco as suas casas, e todos os dias tirava-se mais terra branca da montanha.  E ficou branco o rio. E a cidade da montanha passou a chamar-se Cidade Branca. “Passaram meses, e do amor da rapariga com o mercador nascia um filho e subiam o rio maculando as águas cristalinas as embarcações cheias de presentes. Falava-se da Cidade Branca pelo mundo fora e vinham novos habitantes pretender o seu lugar nessa cidade. Começaram a construir casas em pedra negra e caiar a pedra de branco. A rapariga sábia carregava outro filho, e não abençoava as ruas nem as casas como a velha sábia lhe tinha ensinado. Ainda cantava, mas não havia encanto na sua voz. Os mercadores vindos de longe não entendiam a troca justa e instaurarem a moeda. O mercador e pai dos filhos da rapariga, agora mulher passou a governar a Cidade Branca e ela perdeu a sua beleza. “Entretanto a irmã mais velha da velha sábia, olhava lá de cima. E tinha visto como desaparecera o imenso pinhal e como tinha crescido a cidade em círculo, em torno da casa da irmã, e como chegara a embarcação  do mercador, e como se corrompiam as almas daquela gente sem os encantos da natureza e como feriam agora a sua montanha, e como nasciam os filhos da rapariga que ousou brincar com os encantos. Ela olhou para o céu, olhou para a planície e clamou: “Ó Vento meu pai, Ó terra minha mãe como deixastes que se corrompesse o meu recanto neste mundo, como deixastes que nascesse este lamento na minha alma. Ordenai-me que sopre contigo meu pai, ordenai-me que faça tremer contigo minha mãe.” E o vento ordenou-lhe que esperasse. Ela esperou, esperou lá de cima e todos os anos no inverno ela soprava no vento o seu encanto, e batia com o pé o ritmo do seu canto, e todos os anos nascia uma nova criança no centro da cidade. Passaram cinco anos e rapariga que se achava sábia teve cinco filhos, dois rapazes e três raparigas. Ela, a irmã da montanha via construírem-se cofres na cidade branca sob a ordem do mercador e viu vender-se a montanha para o mundo, enchendo de ouro os cofres e de branco as embarcações que desciam o rio, até à baía e ao mar.  E pensava se não se teria gasto já o encanto daquele sítio quando um dia viu um jovem caminhando por um carreiro pedregoso entre as urzes da sua montanha, e viu uma jovem caminhando ao seu encontro pelo outro lado da montanha. Soprou então com o vento e enviou pássaros que os guiaram pelo carreiro até se encontrarem, e quando o jovem avistou ao longe, caminhando sobre as pedras uma jovem de vestido branco e cabelo solto ao vendo, ela também o avistou e caíram juntas sobre a terra as suas lágrimas de emoção. Eles deram a mão e contemplaram a paisagem, sorriram os dois o por do sol e choraram os dois as árvores arrancadas e a planície vazia, e decidiram partir. Sentaram-se os dois de mão dada e nasceu entre eles um amor genuíno ligado pelo amor que ambos sentiam pela terra e pelo vento, e os dois choraram a noite e as estrelas e partilharam com o amanhecer a sua mágoa e nasceu das suas lágrimas uma trepadeira lilás que lhes ofereceu bagas doces. O sol que nascia do mar iluminou o rio e a montanha. A trepadeira lilás desceu pelos rochedos brancos da montanha e indicou-lhes a entrada para uma gruta e o chão coberto de cristais brilhantes que eles pisaram juntos. E nesse instante a terra ordenou que cantasse bem alto a sua filha e o vento soprou bem forte, e rachou sobre a picareta forte dos trabalhadores a pedra branca da montanha e soltou-se um nuvem de fumo negro e lançou-se sobre a cidade um rio de lava vermelha e incendiou as casas. Os jovens enamorados viram reluzir nos cristais da gruta as chamas em que ardia a cidade e viram o brilho dos cristais iluminando no escuro uma passagem subterrânea e correram pelo interior da terra fugindo daquele sítio. A cidade ardeu durante nove dias e nove noites até que dela restaram apenas as brasas, e a nuvem de fumo negro se dispersou pela terra brilhando com duas brasas púrpuras os seus olhos e condenando a consciência de todos os que os olhassem. “Enquanto a cidade ardia os jovem e a jovem que se encontraram na montanha correram pelo interior da terra e desceram até ao mar saindo da terra junto à rebentação das ondas salgadas como as suas lágrimas. Viram-se então na cidade de tijolo, junto à baía, e procuraram a praça mais bela da cidade e plantaram no centro da praça as sementes que tinham colhido das bagas do lilás como símbolo do seu amor e do amor que sentiam pela terra e pelo vento. Atravessaram juntos as ruas da cidade e subiram outra colina e andaram até que não se conseguisse ver mais o fumo negro que restava da Cidade da Montanha. Caía nas suas costas a neve repleta de cinzas sobre a terra e eles andaram até que a neve caísse branca. Instalaram-se numa aldeia e tiveram cinco filhos, duas raparigas e três rapazes e ensinaram-os a amar o mundo e ensinaram-os a ensinar às pessoas a simplicidade dos encantos da terra e a beleza dos cantos do vento.”

– Ó Senhor Francisco. – disse a Sofia depois de reflectir um bocado. – Então o arame farpado foi posto ali para as pessoas não destruírem o pinhal?

–  Sim Sofia, nós precisamos das árvores para viver, se não as sabemos respeitar, não podemos caminhar no meio delas

 

18

Queres saber o verdadeiro motivo?

Senti que me usaste

Como se fosse isco vivo

Para pescar momentos ideais

Queres saber a verdadeira razão?

Repreensão!

A luta pela perfeição.

Movida por impulsos tão leais

De aperfeiçoar em mim

Tudo aquilo que querias

Para que eu pensasse em primeiro lugar

Na forma como te sentias

E quando eu falhava tu repreendias

Para que eu nunca deixasse de acompanhar

Fazendo me acreditar

Que isso  era indispensável

P’ra esta caminhada ao teu lado

 

Fizeste-me sentir o único motor da tua vida

Marchei ao ritmo da tua batida

A tua opinião era incontestável

Quanto à minha

Foi vendida

Em troca de  tranquilidade

Posta de lado em tua função

E tanto vagueou

Que se perdeu, perdendo a razão

Pouco de mim ficou

O corpo que marchava ao teu lado

Já não era meu

Até que  minha alma se virou p’ra mim

e perguntou: “Entõ e eu?”

Não vou aprofundar.

Só sei que já não fui capaz de tolerar

E afastei-me na esperança de me encontrar

Ainda davam p’ra voar as asas que abri

 

19

– Lá estás tu novamente a ladrar para a lua.

– Preparem-se irmãos porque amanhã é um novo dia.

– Todos sabem isso, Oh idiota!

– Não deixa de ser verdade, e depois nem todos o sabem da mesma maneira. Eu só o digo porque pode haver alguém que se vai questionar.

– Porque razão este idiota está para aqui a ladrar tanto sobre o que já todos sabem?

– Exacto! Será que ele quer dizer outra coisa com isso?

– Oh imbecil, mas então porque razão é que não dizes logo o que tens para dizer, se tens alguma coisa para dizer.

– Mas eu não tenho nada para dizer. Eu olhei para a lua e percebi que ia chover amanhã.

– Então porque não dizes isso, que vai chover amanhã.

– Ninguém me perguntou.

– Queres que alguém te pergunte o que tem assim de especial amanhã ser um novo dia para dizeres que amanhã vai ser um dia diferente?

– Não!

– Então?!

– Amanhã vai ser um novo dia!

– Sim! Já sei isso.

– Amanhã vai ser um novo dia. – Ele repetiu a mesma frase com entoação diferente e olhando para mim na expectativa de eu estar a entender.

– Esquece eu não entendo. Vai acontecer alguma coisa amanhã?

– Vai chover!

– E depois?

– Depois deve parar de chover.

– E depois?

– Depois vai chegar um novo dia.

– E depois?

– Não precisas de saber mais nada.

– Também não precisava de saber isso.

– Então para quê que me perguntaste.

– Porque te vi a ladrar para a lua.

– Isso incomoda-te?

– Nem por isso. – Estas conversas com ele, que não pareciam levar a lado nenhum enfureciam-me.

– Mas alguma coisa te incomoda, pelo facto de que amanhã será um novo dia.

– A ti é que parece estar a incomodar, não paras de falar nisso.

– Eu nem sequer estava a falar, eu estava só parado à janela a apreciar a lua.

– Mas disseste para nos prepararmos para isso.

– Eu disse: “preparem-se irmãos”.

– Estás a preparar alguma coisa para amanhã? Vai ser um dia especial?

– Não necessariamente.

– Então porque disseste isso?

– Tem que haver alguma razão para se dizer qualquer coisa?

– Não necessariamente.

– Então estás a ver. é só isso:”amanhã vai ser um novo dia.”

– Queres que me vá embora?

– Não necessariamente.

– Para com isso! Estás-me a irritar.

Ele olhou para mim e sorriu, voltando a olhar para a lua com um ar satisfeito.

– Disseste isso só para me irritar. Só para eu pensar que havia alguma coisa e ficar intrigada com isso.

Ele continuou a olhar para a lua e eu fiquei parada ao lado dele a fazer o mesmo para ver se me encaixava alguma coisa na cabeça esta situação. Estava uma noite escura iluminada por um quarto crescente ligeiramente enevoado. O vidro da janela reflectia o hangar e o magnífico servidor que parecia uma autêntica nave espacial. Aliás eu estava convencida que na verdade aquilo era uma nave espacial pronta para nos levar daqui para fora numa situação de emergência por mais que o Romão perdesse o seu tempo a explicar-me as suas funcionalidades que eu não entendia. Lá em baixo candeeiros de luz azulada iluminavam o caminho de alcatrão velho, entre edifícios de tijolo cinzento com telhados improvisados de chapa canelada assentes em estruturas de aço chumbadas no tijolo com betão. Lá mais à frente o pátio silencioso e a estrada de candeeiros amarelos atrás do portão de ferro. O meu olhar saltava a escolinha de madeira e voltava ao reflexo do vidro. Uma luzinha vermelha intermitente chamava-me a atenção.

– Para que serve aquela luz?

– Actividade cerebral do meu menino.

Ele dirigiu-se para ela confirmou alguma coisa num dos paineis de instrumentos da máquina.

– Queres café?

– Obviamente! – Respondi eu com uma confiança inesperada e senti-me envergonhada logo em seguida.- Posso fazer?

– Obviamente!- respondeu ele e sorriu piscando o olho.

Estúpido – pensei eu com alguma satisfação, e de repente no entusiasmo de partilhar o café com o Romão e de fazê-lo trouxe-me uma satisfação ainda maior e o facto de lhe chamar estúpido na minha cabeça estabeleceu uma relação de intimidade  em que entrava no jogo o meu ser. Eu sabia melhor que bem, fazer um café no seu estaminé. Já o tinha visto fazê-lo centenas de vezes enquanto entretinha os meus dias a trepar silenciosamente pela estrutura metálica do telhado, enquanto ele cuidava dia após dia do seu aparelho espacial.  Eu sabia fazer o café sem deixar nos manuais, espalhados sobre a bancada, pitadas de café moído, sem entornar café quente para cima de mim ou para cima da electrónica. Sabia o lugar do café, a moca estava lavadinha e desmontada sobre o escorredor pendurado por cima da pia num cantinho ao lado da porta da casa de banho. O bico onde se fervia a água era um estrutura elaborada de fios eléctrico,s uma lâmpada e umas lentes que ele usava habitualmente para desmontar circuitos eléctricos colados ou plastificados. Eu sabia controlar a temperatura do aparelho de aquecimento. Eu só não sabia era onde servir o meu  café porque ele só tinha uma chávena virada no escorredor  e eu nunca tinha visto mais nenhuma no seu estaleiro. Mesmo assim eu estava pronta para o surpreender com a minha capacidade de observação e capacidade de aprendizagem. E depois ele não me tinha pedido para fazer o café para ele, eu ia fazer o meu próprio café. Era uma boa maneira de me meter com ele. Mostrar descaradamente que fiz o café apenas para mim e estou a bebê-lo enquanto ele pode ficar a ver. Não havia confiança entre nós para ele me vir tirar a chávena e dar um gole, a não ser que ele fosse atrevido…

Nisto quando de repente perdida na minha imaginação, me deparo com o seu olhar perdido na observação do meu procedimento de ingestão do café, e ele se depara com o meu, faço-lhe um sorriso e estendo-lhe a chávena com naturalidade – toma já bebi a minha parte. E não houve entre nós nenhum momento de intimidação. Normalmente eu desaparecia e aparecia sem ele se aperceber e onde é que eu vim nem para onde fui. Eu escolhia um momento em que ele se distraía embrenhado no trabalho e desaparecia. Hoje ele não aparentava voltar ao trabalho apagou as luzes deixando apenas as de segurança que iluminaram o hangar de azul. Eu listava ideias dentro da cabeça para uma saída original e imprevista. Ir embora quando ele estivesse a dormir não era maneira de acabar o dia e ficar ali a dormir com ele embrenhava-me numa intimidade que me era estranha e desconfortável. Ficamos os dois sentados no sofá virado para a janela e ele acabava segurava a chávena com o café já completamente frio. Ele pousou a chávena silenciosamente na minha mão.

A lua espreitava agora pela outra janela, eu dava um gole de café frio e subitamente soltava palavras inesperadas dirigindo-me para o Romão.

– Talvez eu me vá embora amanhã.

– Porquê amanhã?

– Porque amanhã é um novo dia.

– Vais para onde?

– Vou para a Capital.

– Passa aí antes de ires, bebemos mais um café.

– Está bem.

Já não havia motivo algum para ficar a espiar aquele estabelecimento. Trepar estruturas metálicas à procura da descoberta e da vantagem em relação ao resto do mundo tinha deixado de fazer sentido. Ainda me restava um destino vivo – A biblioteca, e para lá que eu ia sem hesitação alguma, talvez ainda hoje, deixando o Romão na expectativa do café de amanhã.

 

20

Não era nada sobre o quadrado amarelo, ou cubo, ou lá o que era. Não era nada disso que eu queria contar. Era ele ali  trabalhar, naquela sala, de volta daquela nave espacial. Mas não era nave nenhuma, era apenas um servidor. Ele nunca me escondeu isso. eu é que tinha imaginado. que era uma nave. Quanto ao servidor, ele sabia apenas sobre o seu funcionamento. Quanto à informação que nele estava contida alimentada por todos os computadores daquela instituição que se dedica somente ao estudo, compreensão e consequentemente à manipulação daquelas mentes infantis. Ele nunca me disse que eu estava apenas deitada sobre uma cama numa sala iluminada, com ventosas ligadas ao meu corpo, a aparelhos ligados ao computador, ligado ao servidor. À nave espacial que apenas ele sabia conduzir. Bolas! Não era nave espacial nenhuma, e a minha presença ali era impossível. Pois eu estava apenas deitada, apenas imóvel, como um livro aberto no púlpito. Blá, blá, blá. Apenas nada acontecia. Eu tinha que partir. Estava à minha espera a paragem do autocarro num a rua movimentada da cidade. Junto ao jardim, na estrada enfeitada de semáforos e passadeiras. E eu ali sentada em frente à janela num sofá velho. A lua estúpida e redonda lá fora  a olhar para mim.

Eu levantei-me e  cheguei a ele tentando olhá-lo nos olhos. “Eu vou-me embora soava-me na mente. Eu respirava lentamente segurando a ansiedade.  Depois simplesmente parti sem lhe dizer mais nada. Já não me interessavam os repetidos episódios e tentativas de fuga. Ele dizia que era impossível eu partir, pois eu nem sequer estava ali com ele na sala do servidor. Ele dizia-me que a minha presença com ele era apenas fruto da sua própria imaginação. E eu sabia. Eu lembrava-me daquela noite em que nos arrastavam catalogando como provas as nove caixas de madeira, tiradas do sótão do palacete abandonado. Eu lembrava-me da sala de triagem confusa e escura, depois a luz nos olhos, as ventosas no peito e beliscando as fontes. Carrinhos com máquinas quadradas, mesas e prateleiras, elevadores, marquesas, diferentes ondas cerebrais. Era na presença dele que me sentia desde então. Qual seria a informação que continha aquela máquina gigante nesta sala alta sobre o telhado suportado por vigas de madeira grossas. Ele não tinha respostas para mim. Isso era absurdo, porque era ele que recebia a informação, era ele que a copiava e catalogava. Era ele que inseria os códigos para que os dados se agrupassem em tabelas e criassem gráficos para que outras pessoas os pudessem analisar. A consciência estava ali em frente a cada um dos ecrâns dos computadores espalhados pelos departamentos de estudo. A análise e a compreensão. Na sala de reuniões, nos corredores e nos elevadores. Eu queria sair pela janela e evitar aquilo tudo. Afinal de contas se era apenas para eles saberem, de que me servia isso tudo. A minha grande oportunidade de contribuir para o aumento da sua consciência sendo um notável objecto de estudo. Era mais o que faltava. A minha partida não era uma decisão nem uma escolha, era a única possibilidade.

 

21

Era um túnel de pedra comprido, a perder de vista, arredondado de fundo coberto de água. Olhei muito atentamente em direcção à luz parecia-me ver um vulto mesmo por baixo.  Caminhei para lá em passos lentos agarrada à parede. Conforme me aproximava conseguia distinguir cada vez melhor os contornos do que me parecia um vulto. Era uma rapariga de cabelos longos, vestindo uma gabardina masculina. Totalmente encharcada ela segurava as mão no peito com os braços em cruz, escondendo uma das mãos na gabardina. Ela estava encostada de lado contra a parede. O peso do seu corpo pendia sobre o ombro colado à parede, perna esquerda ligeiramente flectida, a cabeça encostada às pedras e os cabelos cobrindo a cara. Se eu inclinasse a minha cabeça parecia que ela estava literalmente deitada  sobre a parede. Aproximei-me e toquei-lhe no braço.

–       Deixa. – Disse ela passado alguns instantes – Não vale a pena, elas vêm e vão, ficam a olhar, conspiram e desaparecem.

–       Quem perguntei eu?

–       Não vale a pena.  – respondeu ela passado instantes, muito lentamente parando para respirar entre as palavras.

–       Estás cansada?

Perguntei eu, tentando arranjar alguma manhã para que ela me explicasse do que estava a falar. Apertei-lhe o ombro, era magro e frio. Ela suspirou levemente deitando o ar for a muito devagar como se me quisesse dizer “sim estou muito cansada, tão cansada que não pretendo gastar as minhas forças para te responder a essa pergunta.

Finalmente lembrei-me de olhar para cima, para a fonte de luz da qual me tinha esquecido por instantes neste encontro. Continuei a segurar-lhe o ombro para que não desaparecesse. Lá em cima via-se claramente uma grade coberta de folhas, mas era alto demais para se alcançar.

– Estás a falar das galinhas?

– Não importa o que são. – respondeu estendendo as palavras e continuando imóvel

– É aqui a saída?

– É tão alto.  – disse ela quebrando a voz com um soluço, como se proferisse as palavras mais dolorosas em toda a sua vida.

– Não dá para subir?

Olhei novamente lá para cima, realmente era alto demais para que uma pessoa conseguisse subir, o túnel alargava um pouco naquela zona e afunilava a uns quatro ou cinco metros acima numa abertura estreita.

–  É a única luz. – a sua voz tremia, ela chorava.

– Talvez haja outra? Vamos procurar melhor.

Eu cá não me contentava em que a única luz existente na minha vida fosse proveniente de uma abertura estreita longe do meu alcance, fechada por uma grade coberta de folhas. Também não me apetecia sair dali e naquele momento aquela era sem dúvida a única luz e a melhor coisa que eu tinha encontrado até então. Apetecia-me sentar ali e conversar com a rapariga. Mais uma rapariga, talvez o seu nome também fosse Anna. Ela suspirou novamente, mas desta vez o seu suspiro não foi tão prolongado, desta vez ela parecia dizer-me que bem tentou seguir e procurar outra saída, mas não foi possível afastar-se daquela  luz e embrenhar-se novamente na escuridão. É possível que ela tenha ficado ali escutando o barulho das copas, esperando ouvir vozes de almas vivas.

–  Como vieste aqui parar?

–  Eu vim, tinha que vir.

–  Tinhas que vir? Porquê? Por onde entraste?

–  Não é preciso entrar para vir aqui parar.  – a sua voz soava lenta nas palavras e aborrecida em contraposição à minha ansiosa e impaciente

–  Explica-te melhor, por favor. – Supliquei eu farta dos enigmas deste lugar.

–  Eu não conheço outro lugar. Aqui está o sol, aqui está o mar. Aqui o som é o olhar. –   Lá isso é verdade. – confirmei eu, e fitei o escuro à minha frente, atrás dela. – De onde é que vieste? Deste lado ou daquele?

Apontei respectivamente. Ela não me respondeu, esperei alguns instantes, sem nunca lhe largar o ombro. Desviei levemente o cabelo que lhe cobria a face para poder ver a sua cara. A pele dela era muito pálida, os olhos parados olhavam o vazio sem pestanejar afundados em olheiras pesadas, os lábios imóveis e entreabertos estavam secos e gretados. Parecia que estava morta. Abanei-a levemente pelo ombro, ela levantou o olhar por instantes.

–  Nunca olhes para trás.

–  Queres dizer com isso que vieste dali. – apontei para trás dela.

A madeixa de cabelo voltou a cobrir-lhe a face, e eu deixei ficar, a cara dela era um pouco assustadora, e olhar que ela me dirigiu parecia penetrar-me gelando-me até aos ossos, tirava todo o significado à vida e ao redor. Não me inspirava confiança, esta rapariga, nem me parecia ser boa companhia ou influência. Eu devia seguir caminho, mas tendo em conta que ela veio do sítio para onde eu me dirigia, eu queria saber como era o caminho, o que iria eu encontrar.

–  Diz-me por favor, quanto tempo andaste até chegares aqui?

–  Não é o tempo que importa.

–  Diz-me como foi o caminho, o que viste? Encontraste alguém?

– Não vi nada pelo caminho, vendaram-me os olhos

–  Quem?!  – exclamei eu com autoridade na voz, mas incerta de que ela me fosse responder.

–  Fui eu, disseram-me que fui eu.  – a voz dela quebrava-se outra vez.

–  Quem disse?

–  Disseram todos.

Mais uma conversa sem nexo. Que estupidez este túnel, mais valia um porão cheio de gente, ou não. Ou um jardim ao menos com uma velhinha sentada num banco de madeira que me indicasse o caminho. E qual seria a onda das galinhas gigantes que me cercavam, e a chave no meu bolso. Aqui parecia ser eu a tomar controlo da situação, mas antes também me parecia ser eu a portadora da lógica maior. Larguei o ombro daquela criatura deprimente e, logo em seguida os seus joelhos flectiram e o seu corpo escorregou pela parede húmida deixando-a sentada no chão. Imediatamente inclinei-me acompanhando a sua queda. Olhei para ela, estava imóvel como dantes. Se fosse uma rapariga pequena eu teria agarrado nela e teria continuado o meu caminho carregando o seu corpo, mas esta era pesada demais, eu não conseguia suportá-la. Olhei para cima, a luz chegava cada vez mais ténue, provavelmente anoitecia.

 

22

Mesmo que ele me contasse aquelas conversas disparatadas sobre o quarto amarelo onde através de eléctrodos se descarregava para o servidor gigante a informação que ele processava, e que eu estava ligada a ele. A quem? Ao Romão ou ao servidor. Fosse como fosse, eu já corria pela ala escura entre os pavilhões gigantes. Corria, corria, à minha volta era tudo de muros e paredes altas. Suspirei, porque me prendia tanto o pensamento aquele lugar macabro onde sabe-se lá o que era feito às crianças. Se calhar o Romão tinha razão quando me dizia que eu não conseguiria partir, e no entanto aqui estava eu sentada entre tílias num banco de jardim, na grande cidade.

Ouvi uns saltos altos a ressoar pelo passeio, “Vadia” disse-me uma voz de mulher preconceituosa, que passou por mim no som dos saltos, “Prostitutas, este jardim está cheio”. A sua conclusão acordava-me, trazia-me à realidade dos confins da minha imaginação pouco fértil, pois era toda ele obstáculos e escuridão. O quê? Prostitutas? Eu olhava em redor, não via ninguém, apenas a luz dos candeeiros redondos escondidos entre as folhas dos arbustos altos. Depois olhei para os meus pés, as botas de cabedal, seguravam-nos com elegância. Bem, mais valia que fosse uma dessas, pensava eu, sem saber bem o que isso seria. Assim pelo menos estaria a fazer alguma coisa neste jardim deserto, talvez tivesse algum lugar para onde ir. Levantei-me e encostei-me a um candeeiro, pus as mãos nos bolsos, dobrei uma perna apoiando o pé no poste, molhei os lábios e simulei um olhar sedutor para o vazio. Para minha surpresa o passeio no jardim não estava vazio, o meu olhar deparou-se com um jovem, de cabelo cortado à máquina, cara redonda, e sorriso atrevido. Ele olhou-me dos pés à cabeça como se me tivesse a dar uma lambidela gigante e isso fez com que me sentisse ao mesmo tempo repugnada e atraída por ele. Foi uma espécie de calafrio que me subiu pela barriga deixando um vibrar desconcertante no peito. Nisto aproximou-se o seu companheiro que vinha cambaleando pela alameda de árvores, olharam os dois para mim com ar guloso, e seguiram.

No banco estava pousada a minha mochila, e junto a ela um caderno, sentei-me, abri uma página ao calhas e fiz um desenho, era um rio que nascia na montanha numa cascata que se de derramava sobre pedras negras, e depois seguia numa corrente calma serpenteando pelos vales para se vir misturar com o mar numa baía confortável. Nas minhas costas ouvi estalar os ramos nos arbustos e o farejar dum cão. Era um rafeiro simpático, Cheirou-me o pés e olhou-me nos olhos. Duas orelhas carinhosas e um nariz peludo. Fez-me sinal, e eu dei-lhe uma festa. Estendeu-me a pata, e eu sentei-me no chão a brincar com ele. “Tipo estes friques”, retive eu duma conversa de um casal que passeava por ali. O Rafeiro deu-me uma ultima festa e continuou o seu caminho. Sentei-me no banco e encolhi os joelhos, não estava frio, a cidade era quente, eu sentia-me sozinha. Não tinha a minha mãe, e a Sofia, eu nem queria pensar nela, a minha avó na biblioteca, esse era o meu porto de abrigo, esse era o sítio onde eu queria estar. Encontrar o Boris, conversar com ele em cima do telhado, contemplar a beleza dos prédios antigos e das cúpulas sagradas do centro da cidade. Eu era tão pequenina quando isso aconteceu. Tudo ficou diferente, a vida era feita de muros e armazéns. Assim voltava ao épico cenário de sempre e no entanto, o azul índigo da manhã vibrava na superfície do mundo, a cidade acordava do silêncio, eu assistia.

 

23

– Acorda!

Berrava a plateia e o artista levantava-se tocava duas ou três musicas, mas depois voltava a parar. O seu olhar tornava-se turvo e incapaz de tocar. Mas a plateia continuava aos berros:

– Acorda! Acorda!

Ninguém se ia embora, apesar de estarem todos fartos das quebras. As  portas da sala estavam trancadas e a plateia farta demais para ficar calada.

 

24

Abri cautelosamente uma pequena janela, e desci até ao solo por um tubo de escoamento, pela parede. Esta jogada já tinha sido planeada, pensada e repensada vista e revista. Depois mantendo-me bem encostada à parede do hangar, caminhei lentamente, até acabar a parede, olhava atentamente em todas as direções, não se via ninguém, não se ouviam vozes. corri depressa até à sombra de uma cerejeira que crescia junto ao muro, trepei a árvore, e saltei para a estrada do outro  lado. Acabou pensava eu caminhando mais uma vez na minha vida pela estrada de alcatrão iluminada à luz da meia lua.

 

mesmo que o fim

seja só p’ra mim

quero conhecer

tudo que não vi

terras distantes, ondas no mar

sombras andantes

vento a soprar

quero conhecer-te

e saber quem és

não te vou esconder

não te vou contar

tu vais perceber

a vida leva-me p’la noite fora

a vida leva-me p’la noite fora

chegou a hora, chegou a hora

a vida leva-me p’la noite fora

mesmo que depois

não souber olhar

quero te dizer

o que só eu sei

leve e belo, paira no ar

tu sabes vê-lo

sabes escutar

quero que me vejas

que saibas quem sou

não me vou esconder

sabes onde estou

tu vais perceber

a vida leva-me p’la noite fora

a vida leva-me p’la noite fora

chegou a hora, chegou a hora

a vida leva-me p’la noite fora

a vida leva-me p’la noite fora

a vida leva-me p’la noite fora

chegou a hora, chegou a hora

a vida leva-me p’la noite fora

a vida leva-me p’la noite fora

a vida leva-me p’la noite for a

 

No entanto, aquilo que eu esperava ser uma libertação, seguio-me numa emaranhado de fragmentos. A estação deserta, com cinco plataformas alinhadas. começava a chegar os comboios com o nascer do sol, comboios de vagões de carga e cisternas ocupavam as plataformas uma a uma e entre eles eu via chegar a serpente de vagões de passageiros, com as suas janelinhas e cortinados. Eu não estava na plataforma certa, tentava passar as os compostos de vagões industriais entravam em marcha eu não conseguia passar. Corria pela linha férrea para alcançar o comboio que se afastava lentamente da estação de dois em dois paralelos saltava eu, parecia uma rena talvez, a correr entre os arbustos. Numa confusão de túneis e escadarias eu não sabia encontrar a saída. Num cruzamento movimentado os carros apitavam e seguiam, e eu não me lembrava onde era a biblioteca. Queria-me sentar num banco de jardim, para descansar, pensar, e passar o tempo, mas não havia nenhum jardim. Então eu caminhava por ruas aos encontrões com pessoas apressadas, passando por vitrinas que não vendiam nada que interessasse.

 

25

A luz azul, embora fraca era hipnotizante porém voltei a olhar para a jovem que se desmoronara aos meus pés. – Tens alguma chave contigo? Ela não respondeu. Abanei-a levemente, mas a cabeça dela caiu e rebolou até ao centro do túnel. Levantei-me sobressaltada, olhei para o cenário com aversão esfregando as mãos tensas contra as coxas. Queria procurar nela um bolso em busca de uma chave, mas não fui capaz, os cabelos balançavam em redor da cabeça à superfície da água, na sua cara conseguia reconhecer a gárgula que me fitava ainda a pouco. A escuridão do túnel sugava-me, dei um, dois, três passos, comecei a correr desesperadamente, cada vez mais rápido. Decidi que iria correr até não poder mais, decidi que não podia voltar a parar a não ser que fosse para morrer. Conforme me afastava da luz sentia-me mais segura, era como se as teias obscuras me acariciassem a pele e me tranquilizassem. Corri até deixar de ver luz, e passado mais algum tempo voltei a vislumbrar uma luz à minha frente, continuei. Por vezes parava de correr para recuperar o fôlego, e andava em passo rápido, aproximei-me da fonte de luz era uma abertura idêntica sobre a minha cabeça. Não me retive, era demasiado penoso deixar a luz para trás, não me podia deixar seduzir por aquela miserável fonte de luz, continuei. Corri desajeitadamente através da água, segurando com força a chave no meu bolso, com medo de a perder. Mais a frente voltava-se a a ver uma luz e novamente ela ficava para trás e eu corria. Ouviam-se os passos de uma perseguição, e na próxima luz o túnel curvava para a esquerda. Contornei a esquina e continuei em passos largos. Por favor, tem que ser aqui, tem de haver uma saída. O túnel tinha ficado agora mais estreito e conforme eu avançava o chão ficava sem água, caminhar pelo chão seco era o maior alívio que eu tinha experimentado até agora acelerei o passo, não havia mais aberturas de iluminação e estava escuro novamente, sentia-se porém, um ar mais seco, mais quente. Passado algum tempo tropecei nos degraus de uma escada, que subi quase aos saltos, sei-lá quantos degraus, havia uma porta de metal no topo, estava trancada. Procurei uma fechadura na porta, mas não encontrei. Martelei com os punhos na porta, e gritei. Escutei com o ouvido encostado à porta. Martelei novamente e escutei, ouvi alguém a aproximar-se.

–  Hei! – disse uma voz masculina ressoando no eco – Está aí alguém?

–  Sim!  – soltei subitamente

–  Tem calma!  – respondeu-me confiante uma voz dedicada – Está aqui um cadeado vou tentar abrir, afasta-te.

Eu não me queria afastar, eu estava colada à porta de corpo e alma, mas tive que fazer um esforço.

– Sim. – disse novamente, sem saber mais o que dizer.

Ouvi um estrondo do outro lado da porta, que me atravessou e que viajou através do túnel para o infinito. Imaginava as mão quentes a tocarem nas minhas mãos, os dedos ásperos tirando-me da cara madeixas de cabelo húmido, imaginei uns olhos doces a sorrirem para mim.

– Não dá para abrir, ouviu-se do lado de lá da porta. A corrente é muito forte. Vou ver o que posso fazer.

– Não!  – Gritei eu e corri atirando-me contra a porta.

– Não te vás embora. Por Favor. – Supliquei.

– Eu já volto, se ficar aqui não te consigo abrir a porta. – disse-me ele com um tom de voz encorajador que me fez odiá-lo de repente.

– Não! Espera! Eu tenho aqui uma chave no bolso, é possível que seja desse cadeado.

Ouvi-o a inspeccionar a porta. Colei o meu ouvido e a face ao metal frio, com as palmas das mãos tentei procurar o seu calor. –       Não é possível passares-me a chave através da porta, não tem nenhuma abertura.

Pois não, a porta não tinha nenhuma abertura, estava muito bem selada, mas isso não fazia nenhum sentido, se a porta estivesse fechada com um cadeado preso a uma corrente devia dar para abrir nem que fosse um bocadinho.

– Fica mais um pouco por favor, tenta mais uma vez.

– Não vês que não dá para abrir!  – disse-me ele perdendo a paciência.

– Perdes rapidamente a paciência.  – respondi-lhe

– E quem és tu para me julgar. – disse ele confrontado

Não sei por que razão as conversas evoluíam todas a um ritmo tão rápido num novelo entre o confronto e a lamentação, embrulhando-se e deixando fugir a oportunidade das palavras simples e directas. Eu achava que ele me estava a mentir e que não queria abrir a porta, por um motivo qualquer. Talvez eu tenha sido demasiado lamechas na forma como lhe implorei que ficasse que tentasse mais uma vez. Talvez eu tenha soado desesperada, e os homens não vão à bola  com mulheres desesperadas. Pois eu estava mesmo desesperada, de que outra forma podia eu ter soado. Mas eu era uma pessoa interessante até, podia-lhe tentar contar as minhas aventuras no túnel, sobre como ali cheguei e de onde vim. Não era suposto ele querer saber? A figura de príncipe encantado ainda agora criada já se esvaia com a escuridão do sítio e com uma conversa  patética de porta fechada. Eu só não queria que ele se fosse embora, ainda não. Eu tinha quase a certeza de que ele não iria voltar para me abrir a porta, e eu queria muito que ele pelo menos, fizesse parte pelo menos, daquela parte da minha aventura.

– Espera, fica mais um pouco, fala comigo, como é aí desse lado. Como está fechada a porta? Com um cadeado numa corrente? Porque não abre um bocadinho que seja? Eu devia aprender a não disparar as perguntas todas de uma só vez, e de forma a que revelassem tão descuidadamente o que eu sentia. Ele deve ter interpretado, com certeza, o meu tom desconfiado. Eu só queria conseguir explicar que eu estava muito sozinha, e que uma conversa, antes de qualquer atitude era o que eu realmente precisava.

– Eu vou ver se é possível abrir a porta, para que possas sair. –       Espera, conversa comigo, será que não te desperto curiosidade alguma sem que me vejas. –       Ouve, esse túnel foi selado por algum motivo, não podemos simplesmente andar a abrir as portas que alguém trancou. Claramente, curioso era coisa que ele não era e isso fazia-me aumentar a antipatia que eu estava a desenvolver por ele. Por outro lado foram tão agradáveis as suas palavras pedindo-me para ter calma, a sua atitude imediata para me soltar. E porque terá sido selado o túnel. Eram mistérios a mais, eu continuava com a sensação que ele me escondia algo, e  isso fazia-me pensar que a sua falta de curiosidade se devia ao facto dele saber perfeitamente quem eu sou. Provavelmente ele tinha que se ir embora porque deveria informar a alguém da minha presença ali naquele sítio. Talvez eu fosse um fenómeno importante, ou uma cobaia usada em experiências maradas. Imaginei-o a apresentar o relatório aos seus superiores. ” A Cobaia Nº1 apareceu ao final do segundo dia na entrada F, apresenta indícios de desespero e forte sentimento de solidão. È possível observar alguma falta de confiança. A assimilação de factos e raciocínio estão presentes, a memória é ainda funcional. Notam-se algumas lacunas na capacidade de resolução de problemas, devido ao aumento gradual do medo do isolamento. Não está contudo dissimulado o factor esperança, que a faz ainda  lutar pela existência. ” Imaginei os olhares reflectivos de um grupo de gente importante. Tive muita vontade de lhes contar o que foi que eu encontrei aqui dentro, podia ser importante para a pesquisa, e também a análise do estado de outras cobaias, que não foram encontrar nenhuma saída. Eu podia dar-lhes os relatórios todos, era só pedirem, eu podia ser tão mais útil do que apenas uma cobaia. –       O túnel foi selado? Com que tipo de selo? Por que razão foi selado o túnel? Ele hesitou em responder, deu-se um breve silêncio, espalhava-se um arrepio pelo meu corpo, os meus ouvidos começavam a zumbir. Havia um perigo eminente na minha presença neste sítio. Atrevi-me a olhar devagarinho para a escuridão atrás de mim. O espírito, aquele que me sorria, me seduzia e me piscava o olho olhava para mim com os seus olhos repletos de ira, como seu tivesse espreitado o quarto proibido, como se eu tivesse traído a sua confiança. Depois lançou-se contra mim esmagando com as suas garras negras a minha face, e entrelaçando-se como resina nos meus cabelos e enquanto eu me tentava escapar ele prendia-me os movimentos. Levantava-me do chão onde eu me queria apoiar. Escapava-se dos meus dedos o toque metálico da porta, ele arrastava-me consigo, o maldito espírito negro, arrastava-me para dentro do túnel e onde me parecia ver uma luz eu via os seus olhos vazios e negros. Era impossível lutar contra aquela força, deixei-me levar embaraçada nas suas teias, deixei-me acariciar pelo seu fedor repugnante.

 

26

Sim! Ainda tinha nas unhas cravado o sangue, já seco e negro. Como se eu presa dentro do meu próprio corpo tivesse tentado libertar-me. Seco, negro e inútil, como a sujidade que se remove das coisas. Um desperdício, como a terra que fica nas unhas depois da horta. E senti- o ainda, o odor, olhando para as minhas mãos, o odor adocicado a ferro e corpo. Sim e senti ainda a dor que me rasgava as veias e era como se em vão tivesse tentando romper caminho através da minha própria pele. Era o corpo, esta fraqueza constante, o peso das costas sobre as pernas; o peso das mãos e dos braços. Havia dias, que uma agonia me trazia  para a garganta um sabor áspero. Como se literalmente eu estivesse enforcada algures pendurada num tronco, sufocando lentamente, afastando-me dos sons. Movimentava-me com dificuldade através do ar que parecia mais denso que a água e as noites destes dias pareciam curtas demais para que o sono repusesse as forças. Fraquejava!

O dia a dia, a poeira aquela que anda no ar e que assenta sobre tudo o que é superfície, pesava tanto como se os anos estivessem agarrados à carne. Nem mesmo as palavras se conseguiam soltar, fundiram-se com o peso das horas e prendiam-me ao fundo como se fossem chumbo. Traíam-me pois haviam sido elas a ensinarem-me a voar, noutros tempos. Quando o mundo ainda era feito de algodão doce e eu achava que as nuvens também seriam assim como se já as tivesse tocado. Ele estava lá do outro lado da porta de aço e eu batia nela desfazendo-me em sangue e lágrimas, enquanto ao longe ouvia sua voz afastando-se e os seus passos ecoando cada vez mais longe, algures noutro mundo. “Não! Eu não quero que vás buscar ajuda! – gritava eu – Quero que fiques aqui comigo. Preciso apenas de ouvir apenas duas palavras, uma palavra, só para mim, e talvez sinta o teu calor mesmo através da porta de aço
E foi aí que um rasgo de luz surgiu, por baixo dessa porta uma minúscula, uma fenda de luz, era tão fraca mas no meio de tanta escuridão, luz era uma coisa inconfundível. Eu conseguia ver e sabia que por ali havia uma saída. No entanto era este corpo esgotado, pesado e ferido que não me deixava sair. Deixei-me cair e encostei a face ao chão e rasguei a pele para que ao menos o meu sangue pudesse correr livre. Para onde quisesse, até ao outro lado da porta talvez! Senti então, pela primeira vez, que o calor que estava dentro de mim era verdadeiro. Agora eu conseguia vê-lo: era vermelho, escorria pelos meus braços até à face deitada sobre o chão frio. Era quente e espesso envolvia-me como aquela carícia que há tanto esperava. Era eu quem escorria pela fenda enquanto o corpo ouvia o cimento seco do chão, absorvendo-me. O sangue quente corria, senti o meu calor a chegar à terra e senti pertencer-lhe, quis absurdamente pertencer-lhe para sempre largando esta luta fútil…
A terra não se abria para me receber. O chão tremia e tecto derrubava-se sobre mim caindo pedra a pedra esmagando-me. Enterrava-me ainda viva. Pedras de culpa, mais pesadas do que o granito, terra fria e seca. Imobilizava-me! Como!? Como encontrar perdão? Morrer não bastava! Contra as forças da própria natureza. Contra aquilo de acreditava ser capaz. Movi-me lentamente através das pedras, deixando que a terra fria e seca me entrasse nas veias e se tornasse húmida e quente.
Parecia um trabalho vão tão inútil como varrer uma estrada de pedra batida. Para quê? Perguntava a mim mesma? Teria sido mesmo necessário enfiar-me neste túnel. O cheiro adocicado a ferro corpo e terra, cabelos e sangue, enjoava-me tudo era demais. Como perdoar-me por ter seguido aquele caminho. O que fazer agora? Como conseguir sair. O que fazer agora, já que o sacrifício não era aceite.
Sangue não lava pecados, e derramado em vão arrefece depressa, é ele mesmo o pecado.
Como se tivesse acabado de nascer. Imunda e agoniada. Exausta e enojada pelo processo. Desejava o calor do sangue que já não corria, a carícia infinita, o unguento interior. Desejava alguém me agarrasse e me dissesse coisas bonitas… Não merecia! Nada podia ser mérito! Pois tanto a fuga é imperdoável, como o sangue que permanece negro e seco entranhado nas unhas, colado à pele. Como se tivesse acabado o mundo.

Sujeito-me assim a viver doando tudo o alguém de mim queira levar!? que leve! Só penso como conseguir perdoar-me por tudo, por este caminho sem retorno e doo-me nas esperança que as mãos que me agarram, enquanto me quererem, sustentem este invólucro, corpo inútil.

Não! Não foste tu! Não foram os teus passos afastando-se ao longe. Fui eu, era eu já estava morta, Já estava morta quando entrei naquele lugar. quando nasci, já estava morta. Aqui o castigo era viver dentro do meu próprio cadáver. Aguentando de dia para dia aguentando o seu cheiro putrefacto. Já sem achar sentimento nem conforto nas palavras bonitas. Desejo, se ao que sinto pudesse chamar desejo, que tudo à minha volta fosse mentira! Mas não! Tudo à minha volta é tão real quanto consigo ver. Como perdoar-me? Como conseguir aceitar o facto de não conseguir ver nada diferente, e que nem o frio medonho que senti foi o conforto da morte que procurava, mas sim o corpo algures esquecido lutando por vida. Era terra seca que agora enchia as veias e o sangue quente já não corria pelos braços. Secava e repuxava a pele. Mais uma chapada, a única carícia que eu merecia. E eu pensei querer merecer mais.

 

À noite como sempre levantava-se o nevoeiro, deixando as suas pequenas gotas sobre tudo por onde passava. Alimentando de brilho as folhas jovens e garantindo a beleza do orvalho brilhando sobre as flores frescas quando nascesse o dia. As papoilas de pétalas leves reluziam com os primeiros raios de sol que através das copas densas das árvores se infiltravam na floresta.

Passaram muitas primaveras. o cheiro do sangue seco, o fedor do corpo morto, nunca existiram para quem parasse agora naquele lugar. As papoilas leves e delicadas não falavam para contar sobre o mar de mágoa sobre o qual tinham crescido. Pela manhã, eram apenas os raios de sol rompendo através das copas das árvores, brilhando nas gotas de orvalho e no chilrear dos pássaros. Era mais uma primavera.

 

Longe da fera, dormia eu

Longe da fera

Ser Primavera sonhava eu

Ser Primavera

Tempo que era, era meu

Tempo de espera

Pelo que só o tempo trás

Sem saber que o faz

Sonho ser fera

Ter sua presa! Ter sua manha!

Tempo que estranha, estranho eu

Alma de fera, eu não sou

Para onde vou

Nada me espera, menos eu

Sou Primavera

Sonho meu

Sou Primavera!

 

Porque será que me apetecia gritar? Não seria muito melhor ter vontade de rir, desenterrar o esqueleto e dançar com ele um “rumba”, em vez de derramar sobre a terra fresca, lágrimas pelo que já existiu.

 

27

Assistia às folhas a baloiçarem levemente com a brisa da manhã, o eléctrico a ranger pelos carris. As pessoas como formigas a saírem do seu casulo, encaminhando-se para filas e autocarros, levadas em comboios. Cada um para estar no seu cantinho, a cumprir o seu papel. – E que papel seria esse? –  pensava eu. Senti na face as mãos da minha avó acariciando-me, nas escadinhas do alpendre da casa dela. Tão ternurentas, tão quentinhas e tão agradáveis, mesmo num dia tão quente de verão. De repente senti uma lambidela daquelas, que no vai do queixo ao nariz, daquelas que só um cão sabe dar. Abri os olhos, os olhos dele eram meigos, e as orelhas penduradas. Ele pôs a pata no banco, eu estava deitada, e o sol já ia alto.

– Bom dia cachorro, és lindo, tu!

Sentei-me, e ele sentou-se também. Olhei em redor, as pessoas passavam ocupadas, eu não era de ninguém.

– Não tenho nada para te dar.

Ele olhou para mim compreensivo, mas não se foi embora. Observei rua que se via depois da alameda de árvores. Acho que é naquela direção, eu queria ir ver a baía. A cidade crescia numa língua de terra que se estendia até ao mar, por um lado passava o rio norte da montanha rochosa, com altas escarpas traçando a fortaleza norte da cidade. O lado sul da cidade era um fosso pantanoso e movediço, uma planície inundada pelo rio sul da montanha, que se abria numa baía fantástica, com praias de areia branca.

– Fica bem Buggi! – Disse eu levantando-me e vestindo a mochila. Pisquei-lhe o olho e segui caminho, primeiro caminhei rua abaixo observando os carros, e os autocarros das pessoas empenhadas a chegar aos seus destinos. depois do parque deste lado da rua, estendia-se um longo muro branco. Quis atravessar mas o movimento era muito e a passadeira tinha ficado para trás. Continuei a caminhar ao longo do muro, observando as montras e as pessoas do outro lado da rua. senti-me envergonhada pela minha figura de parva, a caminhar pelo lado vazio da rua, e não onde todas as outras pessoas, que do seu lado da rua olhavam para mim com rejeição. Eu devia ter atravessado a rua no semáforo, no início da rua, mas caminhar rua abaixo à esquerda das árvores era tão agradável. O que haverá atrás deste muro tão comprido. Finalmente avistei um cruzamento, semáforo, passadeira, estação de metro. mas não me apetecia ir de transportes, eu tinha tempo de sobra. Misturei-me com a multidão no cruzamento, simulei o mesmo ar de empenho e dirigi-me ao meu destino. Eu vestia calças de ganga, T-shirt e mochila, ténis e um lenço na cabeça, numa das montras vi um vestido chadrezado curtinho, com um bolero de cabedal. Lembrei-me logo da arrecadação da minha avó, no telhado da biblioteca, dum dos retalhes de tecido que ela lá guardava. o meu próximo destino estava traçado.

 

28

Não tenhas pressa de morrer, dizia-me a minha avó pegando-me na face com ambas as mãos, e olhando-me nos olhos, com tanto carinho. Eu nem sabia que nos olhos de alguém pudesse existir tanto carinho. Eram dois olhos azuis, e tinham tanto amor como dois planetas inteiros. Eu olhava para ela, ainda tão pequena e frágil, as suas mãos eram enormes e seguras. Naquele momento tudo era possível.

 

29

É uma madrugada de Inverno
Sobe no vento frio
No ar gelado entra
Nas gotas de orvalho fica
em geada
e espalha o sol
Amo-te lá
que no cair da noite fria
me rasgou a pele
o grito esquecido
Fez-me fluir na melodia
é transparente o olhar
como o som das ondas
deste oceano imenso
do dia a dia tão intenso
e tu também podes ficar
em mim no sol do meio dia
mesmo que se levante
um furacão
eu sei que se inflama em ti
o nosso coração
É simples amor meu
fazer magia
brincar sonhar e respirar
e eu também posso ficar
assim
é só abrir as asas e voar
sentes a madrugada?

 

30

Passaram anos! Parte dela ainda se sentia presa dentro daquele túnel que há muito esquecera. Colocada numa prateleira daquelas, lá de cima, onde raramente se chega a limpar o pó. Uma parte dela imaginando uma saída algures: lá longe uma cascata que rebenta do interior da montanha e se acrescenta as correntes do Rio do Sul. Outra parte imóvel dentro daquele espaço amarelo suspensa ligada por circuitos invisíveis ao grande servidor, apenas doando informação, que ela própria não conhecia. Saltava pelas traves do hangar, de onde observava a nave especial. Aquele objeto imenso decorado de luzes e fios. e o Romão, aquele único que lhe poderia explicar algum nexo naquela existência. Se ao menos ela existisse! Como na infância limpando o chão da pequena casa, para evitar que os adultos tropeçassem nas suas coisas e derramassem as angustias do quotidiano. Fugindo; escondendo-se; protegendo a sua irmã; procurando. Perdida na grande cidade, nas avenidas, alamedas, nos túneis de metro e estações de comboios. Empurrada de todos os lados por pessoas que passam apressadas, correndo entre as pedras da água do rio a caminho do mar. Rasgada pelos circuito de energia que lhe é retirada para aumentar o código da “grande nave”, deixando um frio, uma chapada na pele, como as caudas de peixe que rodeavam em pesadelos longínquos. Agora sentia a pele a romper colada nas escamas e cortada pelas barbatanas, como se estivesse a ser erguida numa rede de pesca entre milhares de peixes. Aparecia na confusão a luz, brilhando sobre o corpo ainda dorido, ainda dormente. A luz vibrava sobre a pele e soltava-se ao vento tudo o que era peso e dor, como se fossem escamas secas. Brilhavam ao sol pairando à sua volta, como se fossem pétalas coloridas. Quando dei por mim, não havia corpo nem matéria.

A rapariga pousava o livro sobre o banco de jardim. Um livro de capa amarela com a lombada preta. O que restou de mim foi uma presença que ondulava reluzindo ao sol acendendo as labaredas ruivas dos cabelos ondulados. Cheirava-me a girassóis. As pétalas coloridas transformaram-se em linhas curvas e retas que formavam letras e fluíam em cascata umas atrás das outras, saltando e formando palavras. Frases inteiras. Desenhava-se um cortinado de renda sobre uma janela azul, cheirava a bolos de canela e café.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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