V e F

Vícios e Fanatísmo

Final da vitoria! E agora?

I

Desde o início das suas recordações, apenas existia vida dentro de si existindo sentimento de paixão. Alguém, que ela quisesse sempre ver, alguém que, sem alguma dificuldade a fizesse ficar entusiasmada, com tudo que se passa à sua volta. Ela precisava de sentir o seu coração a saltar do peito, deixar um leve formigueiro dominar o seu corpo. Apenas esse sentimento a fazia sentir-se viva. Viver fantasias sem conta dentro da sua própria cabeça.

Não sei ao certo quem foi a sua primeira paixão mas também não é isso que importa, as personagens ficavam dissolvidas num só. Num sentimento que em que o contacto com eles servia apenas como fonte de alimentação para o sentimento que se desencadeava. Apareciam e desapareciam sem causar dor nem sofrimento. Por vezes substituídas por outros, em outras simplesmente desaparecendo sem motivo, deixando-a num vazio mórbido que se prolongava até aparecer outra paixão. Essa surgia brevemente, em algumas situações muito fraca ou imaginária. Contudo o vício exigia uma paixão mais forte e ela padecia vagueando no vazio até outra paixão lhe renovar o sentido.

Assim vivia ela de paixão em paixão deixando passar a vida ao lado. Nunca nenhuma das paixões lhe foi correspondida, todas elas apareciam e desapareciam alimentando apenas o vício do seu sentimento.

II

Chegou um dia uma paixão que se instalou em si. Essa paixão cresceu demais. Uma paixão que veio para ficar, e desaparecer de repente levando consigo o rasto de todas as outras, privando-a para sempre desse sentimento tão puro e ingénuo que sentiu outrora.

Houve um dia que ele apareceu e entrou no seu coração, nesse dia uma luz apareceu no seu caminho. Ela tinha passado um longo e custoso período em que tentou combater essa imensa necessidade, rejeitando todas as paixões que surgiam e de repente apareceu ele acendendo em si uma chama nunca antes sentida, de repente tudo fazia sentido. Agora valia a pena viver mais do que nunca. Mas as pessoas ignorantes de tudo aquilo que é mais profundo, seguidoras de regras e leis escritas, separaram-nos, afastaram-nos sem sequer deixar dizer uma última palavra.

Tudo que existia à sua volta caiu aos seu pés, partindo-se em estilhaços ferindo-lhe o corpo e a alma. Nem uma lágrima saiu dos seus olhos, já não valia a pena chorar, não havia mais nada neste mundo, não havia mais esperança, já não valia a pena viver, mas como não podia morrer continuou. Como um zombi, caminhando em passos lentos através dos dias, partilhando as suas emoções apenas com a paixão que continuava em chama dentro do seu peito.

Assim a vida passava-lhe ao lado mas a caminhada dela também não tinha destino.

III

Passado algum tempo, ela parou, olhou em sua volta e notou que caminhava sem destino. Ela andava cabisbaixa à espera que aparecesse alguém que lhe agarrasse a mão e a olhasse nos olhos e que a levasse para um sítio melhor. Pensou então, não vou passar a vida toda vagueando sem direcção à espera que alguém me agarre a mão. Chegou a minha vez, a partir de agora as coisas vão ser à minha maneia, as pessoas devem conseguir aquilo que querem.

Levantou-se do chão, sacudiu o pó que se tinha acumulado, contraiu os músculos e sentiu que o coração pesava tanto que lhe afogava a respiração e que a chama dentro dele era tão forte que lhe queimava o peito. Aí apareceu de novo a luz, na sua mente existia apenas uma coisa, ele. Ela continuou lentamente o seu caminho, mas desta vez calculando cada um dos seus passos, e carregando no seu peito um coração transbordado de dor que se começava a cobrir por uma forte camada de ferro.

Ela caminhava por vales e montes, abismos, desertos, não olhando sequer os obstáculos que lhe apareciam. Ela olhava fixamente a luz, ele, e a sua mente parecia estar mesmo ao seu lado esperando apenas que o corpo fizesse o seu percurso. Fixando nele todo o seu pensamento ela ignorou a dor do coração e não deu conta que ele se cobriu totalmente de ferro e sufocou a chama que nele ardia.

Apenas quando o seu encontro estava prestes a acontecer ela viu que já não o queria, sem saber porque, ela já não sentia. E tudo aquilo com que havia sonhado durante anos já não fazia sentido. Ela imaginou que tinha sentido o orgasmo máximo da paixão, mas que ele durou tanto tempo que se tornou doloroso e que para suportar a dor ela deixou de sentir o prazer. Deixou de sentir. Sem saber o que fazer ela continuou o caminho por si traçado, mas a luz já tinha desaparecido.

IV

Encontrou-se finalmente com ele e não tendo mais para onde seguir, ela ficou à espera que ele lhe indicasse o caminho. Ele já não conseguiu penetrar o coração de ferro, então colocou-a na corrente e ela deixou-se levar pois já não lhe fazia diferença a direcção. Exausta, ela já não conseguia lutar, precisava que alguém lutasse por ela, mas quanto mais sentia essa necessidade, mais tinha que lutar pela sua sobrevivência.

Ela já não sabia viver a paixão. O compartimento que guarda esse sentimento estava selado e ela aprendeu a viver o desejo e começou a ter o que desejava. Seu desejo não tinha culpa, seu desejo era puro prazer. Ela compreendeu que basta apenas desejar, chamar alguém e aí está ele. A vida não existia nesse momento existia apenas prazer e ela. Entregava-se totalmente a esse prazer, compensando assim talvez todas as paixões que por fim vieram a não fazer sentido.

Essa era a forma que tinha, de se desligar de tudo que a fatigava e aborrecia. Ela sentia um poder enorme quando o desejo nascia, nesse momento todo o mundo lhe pertencia. Ela enfeitiçava, atacava como uma leoa apenas para satisfazer o seu próprio desejo, e não havia quem lhe quisesse resistir. A quantidade de prazer que queria receber era mesma que tinha para dar.

O seu corpo meigo deslizava pelo corpo do seu objecto de desejo, os seus lábios, os dedos, toda a sua pele entrando em contacto com o corpo desse, descarregavam milhares de partículas de prazer que os envolviam num momento de êxtase eminente, marcando esse momento na memória para que outro não se lhe comparasse.

Ela unia o seu corpo com outro, todo o universo parava. Ela ia levando quem desejava a ver a mais brilhante das estrelas, na mais bela das galáxias. Mas quando a viagem acabava, acabava o desejo, já não podia existir mais ligação. Ela continuava o caminho sem nunca olhar para trás.

Assim seguia ao longo dos dias marcando corações e mentes com as suas garras de ferro.

V

Ela não sabia o que é ser magoada, sabia o que era dor mas só sabia magoar e esse passou a ser o seu único desejo. Passar por cima de tudo, pisar, destruir, desfazer, partir, matar, provar ao mundo que o amor não existe e que os sentimentos não valem de nada. Está tudo na nossa cabeça, somos nós que os criamos e nós que os destruímos.

Ela fazia os homens apaixonarem-se por ela para depois os rejeitar, fazia com que deixassem as suas mulheres por ela. Chegava ao primeiro plano dos seus televisores e depois desaparecia sem nunca mais dizer nada.

Na verdade, ela sentia-se em missão, ela seleccionava aqueles que precisavam dela, estendia-lhes a mão, tirava-os da lama e colocava no paraíso. E depois largava deixando apenas a recordação.

Muitos dos que passaram pelas suas garras não teriam superado a situação em que estavam e estariam ainda hoje no mesmo círculo, na mesma poça de lama. Ela apenas indicava o caminho, é feliz aquele que soube vê-lo.

VI

Mas chegou a hora em que ela sentiu as suas forças a esgotarem-se. Ela viu que já não tinha mais de si para dar e que tinha chegado a altura de receber. Porém neste mundo ninguém quer dar todos querem receber, e ela não sendo deste, continuava a ter muito mais para dar do que os outros.

A vida perdia de novo o propósito e desta vez tal como nas outras de forma irreversível. Todas as decisões e percursos tomados para a sobrevivência viriam sempre a perder o significado. Vendo que os seus esforços não eram nunca recompensados ela, pensou em si mesma, tudo que era dela pertencia a todos, todo o seu tempo era dedicado a alguém. E a ela era dedicado nada, tanto da parte dela como do resto do mundo. Ela precisava que lutassem por ela, sem fazer ideia de como isso seria nem como se deveria manifestar, ela sabia que isso tinha que acontecer.

Ninguém se manifestou mas ela deixou-se levar por um impulso, e entregou-se numa explosão de prazer que fez nascer no seu coração um sentimento, permitindo finalmente a fusão do sentimento com o prazer. Um sentimento verdadeiro, porque apenas a sentir o que ela sentiu naquela altura ela achou que tudo antes sentido era mera invenção da sua cabeça praticamente inconfundível da realidade, achou-se então uma actriz merecedora de Óscar.

Por outro lado confirmava-se ainda mais a sua teoria, que os sentimentos eram todos mera invenção, mas se lhe surgia um agora, como explicar?

Ela estendeu-lhe a mão, tirou-o da poça e caminhou, levando-o consigo. Ela sentia-se feliz ao lado dele mas ele não reparou que ela estava descalça e as rochas se cravavam nos seus pés fazendo feridas profundas. Ele até a cobria da chuva, acariciava e aquecia, mas nunca conseguiu ver os seus pés em sangue.

Ela nunca parou, seguindo em frente, pensando que talvez seja algo que ela simplesmente deve suportar sozinha e em silêncio. Poucas vezes ela lhe tentou dizer, “olha os meus pés, eles sangram”, mas ele respondia, “eu não percebo porque não estás satisfeita, eu cubro-te da chuva”. Mas ele não sabia que ela gostava da chuva.

Depois pareceu-lhe que caminhavam em caminhos paralelos e que os arbustos que cresciam entre eles lhe arranhavam os braços que ela estendia. Ela não conseguia chegar perto dele mas ele parecia não reparar nisso. Ela esperava apenas uma coisa, que os caminhos deles se cruzassem um dia formando apenas um para os dois. Mas eles iam se afastando cada vez mais até deixarem de se ver por completo.

VII

As forças iam-se esgotando, as poucas que ainda lhe restavam mal chegavam para sobreviver no dia a dia. Ela tentou deixar-se levar pela corrente, mas a corrente era brusca e esgotou-lhe as últimas forças. Ela foi atirada sem sentidos para a mesma poça de água, e lá ficou. Já não se queria mexer, já não precisava de andar, finalmente descansava e já nada lhe fazia diferença.

Qual caminho, já não fazia sentido tal metáfora, ela deixou-se cair da montanha para onde com tanto esforço tentou subir, a verdade é que andava perdida e naquele momento já nada fazia diferença, nunca mais queria procurar para nunca mais perder.

Por fim ela conseguiu entender que o amor que procura está dentro de si. Renasceu então e conseguiu ver que é a ela própria que deve aprender a amar e que ao longo dos anos sempre tentou fugir de si mesma. Não vale a pena querermos receber algo dos outros se rejeitamos aquilo que nós mesmos possuímos.

Já não foi preciso levantar-se da poça, quando deu por si já essa poça estava distante, algures perdida no nevoeiro estava a montanha que ela tanto quis subir, e para quê, pergunta-se, se a montanha era ela mesma. Ela era a planície que a rodeia, era o caminho pedregoso que sobe a montanha, era o cume e o rio que desce caindo em cascatas e espalhando-se em lagos, era o nevoeiro e o sol que a ilumina. Era aquilo que sentimos.

Essa sabedoria que sempre existiu, mas que ela nunca conseguiu ver tornava agora cada passo tão simples, tão firme. Agora ela via a verdadeira essência da força que sempre sentiu em si. Ela realmente poderia levar o mundo todo às costas sem sentir o seu peso se conseguisse tê-lo no seu coração.

A vitória é infinita, a vitoria é cada dia que vivemos, a vitória somos nós, a nossa vida é a nossa maior vitória. É estarmos prontos para morrer a qualquer instante de alma leve e coração firme.

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